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A propriedade intelectual e as indústrias criativas

3.4 Cultura e Desenvolvimento

3.4.1 A propriedade intelectual e as indústrias criativas

Na contemporaneidade, a partir de um contexto pós-industrial e globalizado, onde predominam elementos como a informação, a tecnologia, o conhecimento, a indústria do lazer, do entretenimento, da cultura, entre outros, a saturação evidenciada nos setores e modelos econômicos tradicionais vem estimulando o florescimento de empreendedores e inovadores atentos a novos modelos de negócios e novas realidades sócio-econômicas.

No mercado de bens simbólicos, percebe-se o encontro entre as artes tradicionais e os produtos advindos da indústria cultural de massa, logo associada aos avanços tecnológicos. A pulsante economia advinda da produção cultural e artística tem

impulsionado o florescimento da das denominadas indústrias criativas, onde os novos empreendimentos são caracterizados pela propriedade intelectual, pelo fluxo de idéias, bens simbólicos, entre outros.

A Economia Criativa e/ou Indústrias Criativas pode ser conceituada, principalmente, a partir do fluxo de criação, produção e distribuição de bens e serviços calcados no talento e na criatividade como ativos intelectuais, associando objetivos econômicos e não-econômicos, assim como, os novos modelos de negócios a partir de elementos tangíveis e intangíveis (MIGUEZ, 2007). No Brasil, há estimativas de que as Indústrias Criativas representem cerca de 5% do PIB nacional, conforme dados do relatório elaborado pela Price Waterhouse Coopers (2006).

O conceito de Indústrias Criativas tem origem na Austrália, em 1994, no projeto

Creative Nation, que advogava acerca da relevância do trabalho criativo e sua

contribuição para o desenvolvimento da economia do país, também abordando o papel das tecnologias, favorecendo a inserção de setores altamente tecnológicos nas indústrias criativas.

A Austrália, vale lembrar, pode ser considerada como uma espécie de founding father da temática das indústrias criativas, pois foi o Governo Australiano que, em 1994, desenvolveu o conceito de Creative Nation como base de uma política cultural voltada para a requalificação do papel do Estado no desenvolvimento cultural do país, conceito que acabou rapidamente alcançando o Reino Unido e levou o New Labour, o assim chamado novo Partido Trabalhista inglês, no seu manifesto pré-eleitoral de 1997, a identificar as indústrias criativas como um setor particular da economia e a reconhecer a necessidade de políticas públicas específicas que potencializassem o seu expressivo ritmo de crescimento (MIGUEZ, 2010, p.05).

No campo acadêmico acerca do tema, a Austrália também se destaca, oportunizando um primeiro olhar mais sistematizado acerca do tema da economia criativa e das indústrias criativas.

Para Miguez (2007), as Indústrias Criativas se configuram como um campo de conhecimento pré-paradigmático, ainda que seus números apresentem contínua evolução, e sua estruturação seja uma questão de tempo.

As expressões indústrias criativas e economia criativa são novas. Ainda que ambos os termos possam ser alcançados pelo expressivo debate que as várias disciplinas científicas travam à volta do que é chamado de ―terceira revolução industrial‖ e, por extensão, estejam conectados com a variada gama de denominações que tentam capturar o paradigma de produção da sociedade contemporânea - sociedade pós-industrial, pós-fordista, do

conhecimento, da informação ou do aprendizado – o certo é que, querendo significar um setor da economia ou almejando tornar-se um campo específico do conhecimento, não deixam de constituir-se em uma novidade bastante recente. Na linguagem da academia, pode ser dito, então, que indústrias criativas e economia criativa configuram um campo de conhecimento pré- paradigmático, ainda que em rota ascendente e ritmo crescente de constituição (MIGUEZ, 2007, p. 96-97)

Segundo a Organização das Nações Unidas, as Indústrias Criativas constituem um relevante setor, responsável por, aproximadamente, 10% do PIB mundial e com estimativas de crescimento de 7% ao ano - desempenho que as configuram como assunto estratégico para a promoção da sustentabilidade, do desenvolvimento econômico e da inclusão social.

No Brasil, atuam cerca de 290 mil empresas nas Indústrias Criativas, e, em 2005, foram responsáveis pela marca de US$ 14 bilhões do Produto Interno Bruto, ou seja, 5% no PIB brasileiro. Essas atividades apresentaram uma taxa de crescimento anual estimada em 8,4%, e registram estimativas de alcançar US$ 21 bilhões de PIB, em 2010 (PRICE WATERHOUSE COOPERS, 2006).

Atualmente, é considerada um dos principais segmentos da atividade econômica, e, para autores como Caves (2000), Throsby (2001), Hesmondhalgh (2002), Florida (2004), Borges (2005), Lima (2006), Batista et al (2006), Golgher (2006), Reis (2007), Miguez (2007) e Gomes (2008), as Indústrias Criativas têm potencial para movimentar a economia consideravelmente, a partir da geração de uma cadeia produtiva favorável à criação de empregos e redistribuição de renda. Neste sentido, a criatividade atua como fator estratégico de desenvolvimento.

Caves (2000; 2003) oferece uma relevante contribuição acerca da delimitação das Indústrias Criativas, afirmando que estas se responsabilizam pelo fornecimento de bens e serviços artísticos e culturais e de entretenimento. Dentre elas, destaque para as atividades relacionadas às áreas da publicidade, arquitetura, antiguidades, artesanato,

design, alta costura, cinema, vídeos, música, artes cênicas, editoras, serviços de software e computadores, rádio, televisão, internet, gastronomia, entretenimento, dentre

outros.

As Indústrias Criativas, como fator econômico potencial, deve, então, ser considerado nas políticas públicas e discussões acerca do desenvolvimento econômico das cidades (CAVES, 2000). Para Florida (2002;2004), para participarem desta tendência apontada pelas Indústrias Criativas, os países necessitam criar mecanismos de

atração, retenção e desenvolvimento de pessoas criativas, e conceitua de classe criativa o grupo formado por cientistas, engenheiros, arquitetos, músicos, artistas, gestores e trabalhadores que lidam com tarefas essencialmente criativas, onde o talento humano é indispensável.

A atração, a retenção e o desenvolvimento de pessoas para a formação de uma Classe Criativa dependem dos componentes do Modelo de 3Ts formulado por Florida (2002;2005), entendendo por 3Ts a existência simultânea de Tecnologia, Talento e Tolerância. Florida (2005) caracteriza a Tolerância como a convivência com a diversidade de idéias, culturas e crenças, fato que fomenta ambientes favoráveis ao trabalho das pessoas criativas e empreendedoras. A tecnologia é o elemento central do modelo, e tem a função de concentrar a inovação com geração de progresso tecnológico. O talento é distribuído homogeneamente na humanidade, mas a sua utilização depende do desenvolvimento de condições específicas das cidades, organizações, entre outras.

Para Miguez (2007), a temática das Indústrias Criativas no Brasil, surge a partir de 2004, com a realização em São Paulo da XI Conferência da UNCTAD, onde dedicou-se um painel exclusivo para o assunto sob a perspectiva dos países em desenvolvimento.

Para Benhamou (1997), a relação entre economia e cultura, na perspectiva da produção cultural e artística como fenômeno econômico acontece a partir da metade dos anos 1960, considerando três fatores:

[...] el aumento de uma propensión a generar flujos de remuneración y de empleo, la necesidad de evaluación de las decisiones culturales y, en el plano teórico, el desarrollo de la economía política hacia nuevos campos (economía de actividades no comerciales, revisión del supuesto de racionalidad, economía de las organizaciones, economía de la información y de la incertidumbre). (1997, p. 21).

Reis (2008) compreende que, entre tantas tentativas de conceituação, por modismo, ingenuidade ou desespero, as Indústrias Criativas e a Economia Criativa estão entre os conceitos mais debatidos e menos definidos, apresentando uma considerável lista de vertentes: cidades criativas, indústrias criativas, economia criativa, clusters criativos, classe criativa, ativos criativos. Para a autora:

Em termos econômicos, a criatividade é um combustível renovável e cujo estoque aumenta com o uso. Além disso, a ―concorrência‖ entre agentes criativos, em vez de saturar o mercado, atrai e estimula a atuação de novos produtores. Essas e outras características fazem da economia criativa uma

oportunidade de resgatar o cidadão (inserindo-o socialmente) e o consumidor (incluindo-o economicamente), através de um ativo que emana de sua própria formação, cultura e raízes (REIS, 2008, p. 15).

A arte como universo do simbólico, das raízes culturais, das tradições, das manifestações culturais e artísticas, de um lado, e, do outro, o mercado, a concorrência, a competitividade como referências do mundo globalizado, que logo aprendeu a transformas a criatividade em valor econômico.

Com relação aos números oportunizados pelas Indústrias Culturais, e, consequentemente, sobre os benefícios socioeconômicos que estes podem despertar, Reis (2008) ressalta a necessidade de uma análise mais sistemática acerca do que medir, com o objetivo de encontrar as características de Economia Criativa ou Indústrias Criativas adequadas a cada país ou região. Para a autora:

1) estatísticas gerais não revelam as particularidades setoriais – o que é fundamental para o desenvolvimento de políticas públicas, inclusive para possibilitar a análise do grau de concentração da indústria e seus gargalos; 2) os dados raramente são comparáveis entre países, tendo em vista o uso de definições, metodologias, fontes e bases históricas distintas;

3) mesmo quando se trata de estatísticas nacionais, o montante relativo a direitos autorais e serviços criativos (estúdios, marketing, distribuidoras) pode ser apropriado por outro país (REIS, 2008, p. 20).

Quanto ao campo teórico, é possível afirmar que há diversidade acerca das interpretações conceituais. Caves (2000), entende por indústrias criativas, em linhas gerais, aquelas atividades relacionadas a artes, cultura e entretenimento. Howkins (2001) considera que o divisor de águas das Indústrias Criativas é o potencial agregado de geração de direitos de propriedade intelectual.

Throsby (2001) ampliou os debates acerca das Indústrias Criativas, referindo-se a bens e serviços culturais de base criativa, e que englobam tanto a propriedade intelectual quanto a disseminação de sentidos e pertencimentos simbólicos. Hartley (2005) contempla as novas tecnologias em sua definição:

a idéia de indústrias criativas busca descrever a convergência conceitual e prática das artes criativas (talento individual) com indústrias culturais (escala de massa), no contexto das novas tecnologias de mídia (TICs) em uma nova economia do conhecimento, para o uso dos novos consumidores-cidadãos interativos (2005, p. 05)

O relatório da UNCTAD IX (2004), por sua vez, entende que o conceito de Indústrias Criativas ―[...] é usado para representar um cluster de atividades que têm criatividade como um componente essencial, estão diretamente inseridas no processo industrial e sujeitas à proteção de direitos autorais‖. Neste contexto, após críticas e observações acerca da possibilidade de exclusão da atividade artesanal ou de saber comunitário não explorado industrialmente, o conceito evoluiu para ―[...] abordagem holística e multidisciplinar, lidando com a interface entre

economia, cultura e tecnologia, centrada na predominância de produtos e serviços com conteúdo criativo, valor cultural e objetivos de mercado‖(UNCTAD, 2004).

Ainda no campo conceitual, a convergência assenta sob o fato de que as novas tecnologias e a globalização promoveram o reencontro entre ciência e artes, representando alternativas junto aos mercados oligopolizados de bens e serviços. À globalização, o papel de ampliação dos mercados, reconhecendo a tensão existente entre os valores social e econômico da cultura, entre outros aspectos, sem, contudo, deixar de reconhecer a criatividade, a inovação, o conhecimento e o acesso à informação como representantes emblemáticos do desenvolvimento na contemporaneidade.

4. SEGUNDO MOMENTO DA INSTITUCIONALIZAÇÃO: A CADEIA

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