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1. O plano do lugar e a apropriação do espaço

3.3. A propriedade privada: o centro da reprodução do espaço urbano

A produção do espaço urbano da metrópole de São Paulo é um processo social regido pela lógica de reprodução do capitalismo enquanto modo de produção. Logo, o espaço como produto social explicita as contradições imanentes ao modo de produção, revelando os conteúdos desta sociedade. Portanto, cabe compreender quais as contradições fundantes desta produção e quais os desdobramentos deste processo na prática sócioespacial da população urbana.

O conflito vivido pela comunidade do Axé Ilê e sua luta pela permanência, quando ameaçado pelo mercado imobiliário, faz emergir algumas contradições fundantes do modo de produção capitalista e do processo de produção do espaço urbano no que se refere ao espaço, enquanto um produto social e uma materialidade concreta.

Podemos iniciar nossa análise pelo sentido da produção, enquanto processo que extrapola a materialidade do espaço urbano. A produção pode ser compreendida enquanto à

construção material da cidade, prédios, ruas, avenidas entre outros equipamentos, entretanto, este não é o único sentido da produção. Neste processo também são gerados símbolos, representações, relações, abstrações concretas que permeiam a vida cotidiana da metrópole.

Como nos aponta LEFEBVRE (1991a, p. 27):

“Visto que o espaço assim produzido serve tanto de instrumento ao pensamento como à ação, que ele é, ao mesmo tempo que um meio de produção, um meio de controle, portanto de dominação e de potência – mas que escapa parcialmente, enquanto tal, aos que dele servem. As forças sociais e políticas (estatistas) que o engendram tentam dominá-lo e não conseguem; aquelas mesmas que levam a realidade espacial em direção a uma espécie de autonomia impossível de dominar se esforçam para esgotá-la para fixá-esgotá-la a fim de submetê-esgotá-la. Este espaço seria abstrato? Sim e não, mas ele é tão “real” quanto a mercadoria e o dinheiro. (...) O espaço contém relações sociais”.

Todo o processo de produção é determinado pelas relações de classe em que nossa sociedade é erigida, ou seja, o processo de produção do espaço urbano é o resultado da contínua luta de classes gerada no seio da sociedade capitalista através do conflito entre diferentes usos do espaço urbano. Assim, o Terreiro Axé Ilê Obá explicita este processo na medida em que produziu seu espaço contrário à lógica da valorização do espaço urbano.

Este espaço é composto pelo conjunto de edificações e, também, um conjunto de símbolos e relações sócioespaciais que dão sentido ao Terreiro, enquanto fragmento espacial. A identidade do lugar surge das práticas sócioespaciais que compõem a vida cotidiana do Terreiro.

Simultaneamente, a construção do Terminal Rodoferroviário e o Projeto CURA também atuam na produção do espaço urbano produzindo infraestruturas, códigos e normas que passam a codificar a vida cotidiana do lugar.

No cerne deste embate, encontramos a propriedade privada da terra e as contradições da lógica da mercadoria. A propriedade privada é o fundamento da reprodução social e se impõe sobre as práticas sócioespaciais de apropriação. De um lado, as trocas socais, a apropriação coletiva do lugar e o uso, dão identidade à população na medida em que recupera o sentido da produção do espaço enquanto uma edificação humana. Do outro, a lógica do lucro insere os espaços no circuito produtivo e no mercado de terras e, transformado em propriedade, promove as segregações sociais, uma vez que a população mais pauperizada não terá acesso à propriedade. Tal situação mostra a disputa em torno do uso da propriedade. Como nos aponta RIBEIRO (2015, p.177):

“Ao partirmos da ideia de que a propriedade privada é o fundamento da reprodução do capital, damos destaque ao papel da terra, já que ela, por inúmeros mecanismos, subordina os habitantes da cidade e garante a reprodução da relação de desigualdade. Por outro lado, também percebemos que o cerne de nossa sociedade é a separação/cisão do trabalhador e o produto de seu trabalho, considerado não apenas no aspecto sensível, material, mas também em todas as relações conquistadas

ao longo da história, como as de caráter subjetivo. Essa cisão traz consequências a todos os planos da vida, principalmente, àquele que gesta os processos de resistência:

o reconhecimento no outro pela identidade dada através da apropriação do espaço”.

A propriedade privada se impõe como via para produção do espaço, tornando o espaço passível de mercantilização que se subordina à lógica do mercado de terras e da valorização. A propriedade, através da posse, passa a normatizar os usos dos espaços se sobrepondo às formas tradicionais de ocupação do lugar. Nesse processo ocorre a cisão entre o habitante e seu espaço.

O usador, que não se reconhece no bairro e na comunidade, é tomado por um estranhamento que pode levar ao conformismo. Quando o morador sede à pressão do mercado e deixa o bairro, seguindo pelos caminhos da segregação ou através das experiências coletivas, cria resistências ao processo e luta pelo uso e pela permanência no lugar. Portanto, a contradição entre as transformações espaciais redigidas pela lógica do capital e a apropriação coletiva do espaço se chocam no processo de produção do espaço urbano da metrópole de São Paulo, como nos aponta Carlos (2001, p. 28):

“O processo de valorização, aliado às estratégias dos empreendedores imobiliários, reproduz um espaço cada vez mais voltado aos interesses particulares do grande capital, que, ao intervirem no urbano, interferem na prática sócioespacial e, com isso, nos modos de apropriação do espaço da vida.”

Para ocorrer o processo de valorização da terra é preciso, portanto, o loteamento dos terrenos para formação do mercado de terras e um conjunto de ações que visem edificar o entorno para valorizar tais terrenos. Neste momento, o Estado entra como órgão financiador destes projetos, já que possui o aparato legislativo para nortear o uso do solo no lugar, além de possuir o controle do discurso oficial que ratifica as ações. Nesse sentido uma aliança ocorre entre o Capital e o Estado, que garante a lucratividade do mercado, além de subsidiar as obras de infraestruturas necessárias para se agregar valor às propriedades. Esta aliança, de forma impositiva, se levanta contra os interesses coletivos da população do lugar, que se vê confrontada pelo capital e pela ação pública, como explicita Carlos (2007, p.53):

“O Estado desenvolve estratégias que orientam e asseguram a reprodução das relações sociais no espaço inteiro (elemento que se encontra na base da construção da sua racionalidade), produzindo-o enquanto instrumento político intencionalmente organizado e manipulado. É, portanto, um meio e um poder nas mãos de uma classe dominante que diz representar a sociedade, sem abdicar de objetivos próprios de dominação, usando como meio as políticas públicas para direcionar e regularizar fluxos, centralizando, valorizando/desvalorizando os lugares através de intervenções como “ato de planejar”. Nessa condição, o espaço se pretende homogêneo (pela dominação) e hierarquizado (pela divisão espacial do trabalho) como produto, deparamo-nos com o espaço da norma e da vigilância: um espaço estratégico”.

Assim, na metrópole contemporânea, a reprodução do modo de produção é garantida pelo Estado e pelos agentes do capital, em detrimento dos anseios da população que se vê impelida a deixar seu espaço ou lugar pela sua permanência. É desta condição contraditória que surgem os movimentos de resistência na sociedade. Tais resistências ganham contornos políticos quando organizadas em movimento sociais, entretanto, por surgir da prática sócioespacial do lugar, a resistência ganha outros conteúdos que não somente a ação política conscientizada, como foi o caso da luta pela permanência da comunidade do Axé Ilê Obá.