1. O plano do lugar e a apropriação do espaço
2.6 O mercado de terras no bairro do Jabaquara
Como vimos, o bairro do Jabaquara foi considerado uma área de pouca ocupação até os anos de 1950, entretanto é reconhecido por pesquisadores como uma antiga região de quilombo. De acordo com Moura (1988), o quilombo do Jabaquara, estava na rota de fuga dos negros escravizados que buscavam rotas alternativas para chegada até a cidade de Santos. A estrada antiga do mar, atual avenida localizada próxima à Vila Fachini, era uma dessas possíveis rotas. Com o desenvolvimento histórico do bairro, os antigos negros, que buscavam sair das prisões da escravidão, se fixaram nestas áreas onde não havia ocupação e também não estava sob olhar das políticas de vigilância, tal situação, conferiu uma identidade negra ao bairro do Jabaquara. Essa identidade negra, na atualidade, ainda confere características ao bairro mesmo que hoje pareça um tanto esmaecida pelo processo de homogeneização do espaço.
Conforme o projeto CURA criava as infraestruturas, ao mesmo tempo em que o mercado imobiliário loteava terras generalizando a propriedade privada, concomitantemente, se realizava o apagamento da memória do bairro, ou seja, pode-se perceber como a propriedade privada se sobrepôs aos usos tradicionais que a população conferia ao espaço.
Desde os anos 1940, a prefeitura buscava atrair novos moradores para região. Inicialmente a vinda dos alemães mostrava como os primeiros loteamentos realizados pelo Estado buscavam atrair uma população oriunda de processos migratórios do século XX para região, a qual possuía grandes lotes de terra que poderiam ser redivididos18.
Ao atrair a população de origem alemã para o bairro, a Prefeitura iniciou um processo de apagamento da memória tradicional da região, para, com isso, efetivar a ação do capital que buscava uma maior expansão da propriedade privada e do mercado, deixando os lotes mais atrativos para essa população e, assim, garantindo o lucro dos agentes imobiliários através da venda destes lotes.
Concomitante à vinda desta nova parcela da população, o Estado também buscava através da força policial inibir os cultos de matriz africana. A Delegacia Estadual de Crimes
18Prefeitura da Cidade de São Paulo. Bairro do Jabaquara. Disponível em:
<https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bibliotecas/bibliotecas_bairro/bibliotecas_m_z/paul oduarte/index.php?p=196>. Acesso em: 7 mai. 2019.
contra os Costumes, Jogos e Diversões Públicas, da Secretaria de Segurança Pública do Estado, tinha por responsabilidade fechar todas as Casas de Culto de Tradição de Matriz Africana (como candomblé). Tal processo já havia se iniciado no centro da cidade e foi se expandindo até chegar ao Jabaquara. Esse órgão tinha como principal objetivo a eliminação e proibição de tais práticas, que se davam através da proibição do funcionamento de casas de candomblé, com apreensão de objetos religiosos, imagens de pessoas durante os cultos e prisões de líderes religiosos, conforme nos aponta Negrão (1996)19.
A proibição do culto foi uma das táticas de manutenção e expansão do embranquecimento levado a cabo pelo Estado Brasileiro. Tal perseguição era realizada através de fechamento de diversas casas de culto de matriz africana e garantiu o atual apagamento da comunidade negra da história oficial do povo negro na cidade de São Paulo. No trecho a seguir, a pesquisadora Wissenbach (1997, p. 137) relata apreensão em uma casa de culto na região do Jabaquara:
“Em determinada manhã auxiliados pelas autoridades da Delegacia de Polícia do Bosque da Saúde, saímos à procura de uma “macumbeira” afamada nas redondezas.
Depois de muitas horas de procura fomos alguns quilômetros de distância, encontrar em um casebre onde residia ela. A casa fica na “Vila Santa Catarina” isolada completamente do centro urbano e, onde existe, mais, apenas mais um botequim, estava cheia de gente cerca de 60 pessoas representando as mais variadas classes sociais. Pobres e ricos; pobres de pé no chão e ricos de automóvel. Na entrada principal do casebre, cujos tijolos nem eram recobertos de argamassa, via-se em letras negras o dístico: Centro Espírita Gota Cristalina do Menino Jesus.”
Portanto, o aumento considerável dos preços do terreno se tornou um agente de expulsão da comunidade negra e, aliado à ação policial, buscava fechar as casas de culto de matriz africana. Para exemplificar este processo, podemos citar a saída do Terreiro Axé Ilê Obá da rua Mucuri (próximo à área de expansão do Metrô) para a rua Azor Silva na Vila Fachini (subárea menos valorizada pelo projeto CURA).
A ação municipal viabilizou a vinda de uma classe média para o bairro que conflitava com a população tradicional do bairro. Os estudos preliminares para a realização do CURA entendiam o bairro do Jabaquara como um potencial ponto de atração para a classe média. Conforme nos aponta o relatório:
“Interpolando a esses fatos os dados da situação socioeconômica da população e a potencialidade do mercado imobiliário, completa-se o quadro seguinte: A área oferece excepcionais condições de desenvolvimento para um mercado externo, uma vez sanadas algumas deficiências básicas encontradas na infraestrutura e superestruturas.
19 Este assunto será aprofundado no capítulo 3.
As condições da população, embora heterogêneas, permitem garantir, pelo menos, um número razoável de investimentos diretos na área, de forma a estimular outros investimentos diretos e indiretos provenientes da iniciativa particular, gerando novas economias de acordo com critérios a serem planejados previamente”.
(Relatório de potencialidades e estudos de viabilidade)
O conflito entre uma população original e os novos moradores do bairro, vindos para estes empreendimentos construídos dentro do objetivo do CURA, existe até os dias de hoje e se manifesta quando os moradores do entorno do Centro de Culturas Negras do Jabaquara não apoiam as atividades ligadas à cultura afro como o maracatu, o rap ou o reggae que são, ali, desenvolvidas. A área do entorno do Centro de Culturas Negras, antes da construção do Metrô era composta por áreas verdes. Com o CURA, o Sítio da Ressaca teve seu terreno reduzido e alguns lotes foram abertos. Atualmente, o Sítio da Ressaca é cercado por empreendimentos imobiliários de classe média.
Tais empreendimentos se utilizaram do Metrô, das áreas verdes do Sítio da Ressaca (já apresentado anteriormente) para valorizar e atrair novos moradores para região. Em nenhum momento a origem do bairro foi lembrada e os apartamentos foram vendidos com os atributos de fácil acesso ao metrô e ao centro da cidade, além de um parque com áreas verdes, ideologia que cada vez mais se torna presente na mentalidade da população, a qual entende o predomínio da preservação ambiental em detrimento do uso coletivo dos espaços como um atributo positivo do lugar. Tal ideologia, contribuiu para o esvaziamento de práticas sociais e impôs o espaço abstrato da norma, do vazio, onde árvores valem mais que rodas de criança jogando capoeira ou atabaques de maracatu.
Após a inauguração do Terminal rodoferroviário e da conclusão do projeto CURA, o Jabaquara passou de um bairro sem ocupação para um bairro de atração de classe média.
Quando observamos o mapa da
Figura 24, podemos concluir que, com a inauguração do Metrô, no ano de 1974, o Jabaquara e a conclusão do CURA, o bairro passa a ser caracterizado por uma classe média não possuindo mais a baixa densidade demográfica como havia antes do início das obras do CURA:
Observando as fotografias (Figura 23) e o mapa apresentado
(
Figura 24), é possível perceber como, já nos anos de 1990, somente o extremo sul do bairro do Jabaquara possui áreas de residência de baixa renda, sendo que a maioria da mancha explicita os empreendimentos de renda média e alguns empreendimentos de renda alta.
Tais empreendimentos explicitam o processo de valorização da terra no Jabaquara e aparecem como uma contradição espacial em relação à população original do bairro, que sofreu um processo de segregação, sendo forçada a deixar a área, migrando em direção às zonas mais periféricas do bairro. Já que estes empreendimentos empurram a população original para áreas mais afastadas da cidade.
Figura 23. Imagens dos empreendimentos ao lado do Sítio da Ressaca.
Fonte: Google Maps acesso em 20/06/2018
Figura 24. Uso do solo em 1997.
Fonte: Prefeitura Municipal de São Paulo, SF, 1995.
Segundo o Índice FipeZap20 de 2018, os maiores valores do metro quadrado no bairro do Jabaquara foram de R$ 6.918,00 para empreendimentos residenciais. Segundo o mesmo índice, os anos de 1985 e 2015 são considerados os picos dos valores imobiliários de São Paulo.
O mapa da Figura 25 apresenta a ligação entre o processo de valorização das terras pensando a infraestrutura urbana com a rede de transportes:
20 O Índice FipeZap é resultado de uma parceria formada em 2010 entre a Fipe e o portal ZAP. O Índice FipeZap de Preços de Imóveis Anunciados é o primeiro indicador a fazer um acompanhamento sistematizado da evolução dos preços do mercado imobiliário brasileiro. Utilizando uma base de dados confiável e robusta, tornou-se referência como fonte de informações sobre o setor, tanto para as famílias, como para agentes do mercado e analistas. Mensalmente são coletados milhões de anúncios de venda e locação, para imóveis residenciais e comerciais. Após rigoroso tratamento estatístico, são consideradas apenas as informações adequadas. A partir daí, são calculados os preços representativos de cada uma das cidades contempladas que, seguindo ponderações específicas, são agrupadas e acompanhadas ao longo do tempo, com a evolução dos preços sendo mensurada por meio do Índice FipeZap. As informações presentes no site vão até o ano de 1015.
Figura 25. Mapa de relação entre rede de transporte e zoneamento de moradia.
Nesse mapa é possível cruzar a informação do uso do solo urbano associado à rede de transportes. A partir de 2008 não houve nenhuma alteração considerável nas linhas de transporte público que atendem a região do Jabaquara, sendo assim, as estratégias do mercado imobiliário e do poder público foram efetivadas, já que ao cabo do projeto CURA uma população de classe média foi atraída e se fixou no bairro do Jabaquara.
Logo, o processo de generalização da propriedade da terra foi efetivado, porém, em tal processo contradições sócioespaciais são formadas. A requalificação do bairro gerou seus elementos negativos dentro da reprodução dialética do espaço urbano, ao passo que atraiu uma classe média para o bairro também criou uma área de favelas na qual os objetivos da ação pública e do capital privado não foram totalmente efetivados. (BOGUS, 1980)
Esses dados mostram a contradição do processo de produção do espaço urbano que, ao mesmo tempo em que generaliza a propriedade privada da terra e extrai riqueza através da produção do solo urbano, também promove a expulsão da população original do lugar que se vê obrigada a migrar de região impelida a lutar pela sua permanência em seu espaço gerando movimentos de resistência, como veremos mais adiante neste trabalho.