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CAPÍTULO 4 O “FIM” DO MOVIMENTO OU A CONTINUIDADE DA

4.2 O império das igrejas apostólicas “Renascer em Cristo”

4.2.2 Igreja Renascer Floripa

4.2.2.1 A “Prosperidade” na Renascer Floripa

A prosperidade, característica fundante das igrejas do ramo neopentecostal, tem na Renascer a sua “marca”, estando presente em tudo o que fizeram e fazem203. A Igreja tem, nas doações, nas ofertas e nos dízimos204, a sua maior arrecadação, a mola da sua sustentação, de sua sobrevivência, o que causa sempre incertezas do recebimento, segundo Cláudia. No entanto, seus fiéis “são maravilhosos”, uma vez que, até aquela data (12/04/2004), a Igreja nunca tinha ficado em débito com alguém. O pagamento do dízimo, da doação ou da oferta está intimamente vinculado à “fidelidade do fiel” à Igreja e é legitimado pela Bíblia205, uma vez que administrar ofertas significa reger com supremacia a fidelidade dos seus adeptos, porque a Bíblia, conforme relatou Cláudia, diz que o dízimo é para manutenção da Casa do

Senhor e Deus dá a benção por causa disso, não como na troca, mas como na fidelidade Dele. Enfatizou que esse pensamento é uma fidelidade nossa para com Ele e, por isso é que

eles pregam e as pessoas são muito fiéis206.

O pagamento torna-se, assim, não só um “dever sagrado” para os fiéis, mas, antes, uma doação. Um discurso de reafirmação da Teologia da Prosperidade foi fundamentado pelo bispo Bita, em sua mensagem sobre negócios:

O maior negócio de Deus é a nossa salvação. A prosperidade financeira faz parte do que Deus nos dá, pois Ele é o dono do ouro e da prata e Ele é o nosso sócio207 em todas as áreas. Uma alma vale mais do que o mundo inteiro. A cidade celestial é de ouro, segundo o Apocalipse, portanto toda riqueza não impressiona a Deus e, sim, o coração. A conseqüência de uma vida com Deus é também a prosperidade208, mas Deus vê a motivação209.

O preceito elementar da prosperidade é a doação financeira, que significa um investimento e não uma gratidão ou devolução a Deus210. Entretanto, essa doação é eclesiástica e não caritativa ou, segundo palavras de Gifford, é “uma teologia funcional para convencer as pessoas a financiarem ministérios caros”211. Tal convencimento passa pelo ensinamento de que todos os fiéis são filhos de Deus, e Ele é o criador, o Dono de tudo. Sendo Ele o Pai de todos, tudo o que Lhe pertence pertence aos seus filhos também. Portanto,

203

Disponível em http://www.marchaparajesus.com.br/2007/organizador.php, acesso em julho de 2008. 204

Nas cadeiras da Igreja, havia um envelope para a “Oferta de milagres”. Nele há solicitação do nome ou família que fará a oferta, além dos seus pedidos e uma observação para ofertas em cheque, que deve ser cruzado e nominal à Igreja. Na parte inferior do envelope, contém uma frase bíblica: “Pois assim diz o senhor DEUS de Israel: a farinha da panela não acabará, e o azeite da botija não faltará...” (I Reis 17:14).

205

Em Deuteronômio 14,22, Malaquias 3, 8-10 e em Lucas 6,38. (ORO, 1996, p. 72). 206

Cláudia, entrevista em 12/04/2004. 207

Grifo meu. Deus assume muitas imagens nos discursos dos evangélicos, principalmente dos atletas, como vimos no capítulo anterior.

208

Grifo meu. 209

Mensagem sobre “Negócios”. Disponível em www.renascerfloripa.com.br, acesso em julho de 2004. 210

SIEPIERSKI, Op. Cit. 2001. 211

necessitam obter o que já é seu. Se há uma doação a Ele, isso significa que Ele está em débito com eles, cabendo-Lhe restituir alguma coisa do que Lhe foi dado. Para Siepierski, “a fé significa crer que Ele fará isso”, pois o predomínio discursivo das igrejas neopentecostais enfatiza “a redenção como posse dos bens materiais e não sua privação”. Para essas igrejas, “a pobreza é obra do diabo e estar com Deus é livrar-se dela”. Assim, segue argumentando o autor, a instituição monopolizadora desse discurso torna-se o receptáculo das doações, porém a restituição não é de sua responsabilidade, esta é da divindade. A instituição “se torna procuradora apenas no recebimento, não no pagamento”212. Essa é a inversão de valores, no sistema axiológico promovido por esta corrente, que pouco valoriza os “temas bíblicos tradicionais de martírio, auto-sacrifício, isso é, a ‘mensagem da cruz’”, e acentua sua primazia na “fé em Deus como ‘meio’ de obter saúde, riqueza, felicidade, sucesso e poder terrenos. Em vez de glorificar o sofrimento [...], enaltece o bem-estar do cristão nesse mundo”213.

Para os fiéis alcançarem saúde, riqueza, felicidade, é preciso expulsar os diabos, ter fé incondicional em Deus, ser cumpridor no pagamento dos dízimos e fazer doações. Diferentemente da IURD, em que a expulsão dos diabos (o exorcismo) está vinculada às divindades das religiões afro-brasileiras, na Renascer a expulsão ocorre na quebra das maldições hereditárias provenientes de gerações passadas, podendo estar presentes ou não na vida do fiel. Elas seriam a razão dos insucessos, das doenças, dos infortúnios, necessitando serem identificadas e “quebradas”214, como pude testemunhar nos cultos a que assisti.

Ao lado dos dízimos ou das ofertas, a Igreja mantém-se com outras formas de arrecadação financeira: uma delas é a organização de campanhas, realizada a cada dia da semana, versando sobre assuntos relacionados a um tema central215 e envolvendo bens simbólicos (orações, bênçãos, jejuns, etc.). Outra se refere aos bens religiosos: a venda dos produtos e serviços produzidos e fornecidos pelas empresas vinculadas à Fundação Renascer como camisetas, CDs, adesivos, livros evangélicos, bonés, entre outros.

Como vimos, a Teologia da Prosperidade encontra na Renascer um campo tão fértil quanto na IURD, a principal Igreja dessa corrente neopentecostal. Ela é fundamental no crescimento tanto dos fiéis quanto de capital financeiro. Com base nessa expansão, portas se abrem, ou “estacas se alargam” para suas inserções em outros âmbitos da vida secular, como se vê na política, nos esportes, na mídia, na educação.

212

SIEPIERSKI, Op. cit p. 62. 213

MARIANO, Op. cit.1999, p. 158, referindo-se ao pensamento de Freston. 214

SIEPIERSKI, Op. cit. p. 63-90. 215

Exemplo da “Campanha de jejum e oração: limpeza na vida financeira”. Disponível em www.renascerfloripa.com.br e www.arepe.com.br acesso em julho de 2004.

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Concordo com Oro ao afirmar que as igrejas neopentecostais assimilam de tal forma a lógica de uma sociedade capitalista que elas próprias se tornam empresas, possuindo “uma organização administrativa hierárquica”. Dessa forma, objetivam ampliar cada vez mais o seu patrimônio, procuram manter “uma divisão social do trabalho religioso e administrativo, colocam no mercado serviços e bens simbólicos que são adquiridos mediante pagamento e, sustentam uma relação concorrencial com as outras ‘empresas de salvação’, atuantes no mercado religioso nacional”216.