2. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE ECA
2.2 A Proteção Integral a Criança e ao Adolescente
A Declaração dos Direitos da Criança de Genebra 1924, foi o marco inicial que abriu todas as discussões posteriores sobre a infância, foi a primeira vez que alguns Estados se reuniram para discutir e elaborar documentos afirmando a necessidade de proteger e de se criar direitos às crianças, desta data, já se decorreu quase um século. Ou seja, um longo tempo se passou e ainda luta-se para efetivar direitos do público infanto-juvenil e se concretizar o novo paradigma. Nesta histórica e incessante busca ao reconhecimento dos infantes como sujeitos de direitos, temos datados outros eventos muito importantes que foram decisivos aos avanços que reconheceram formalmente a peculiaridade da infância e da adolescência, tais como, a Declaração Universal dos Direitos da Criança da ONU 1959, em que a criança é vista como sujeito de direitos, as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude (Regras Mínimas de Beijing, 1985) e em 1989 a aprovação da Convenção dos Direitos da Criança, que ao aprovar um conjunto de documentos, dá-se a
origem à doutrina da proteção integral e o comprometimento dos Estados partes em cumprir a mesma, de forma a por em prática as orientações convencionadas.
Sobre Convenção dos Direitos da Criança da ONU – 1989, Andréia R. Amin (2011, p.13) afirma:
Pela primeira vez, foi adotada a doutrina da proteção integral fundada em três pilares: 1º) reconhecimento da peculiar condição da criança e jovem como pessoa em desenvolvimento, titular de proteção especial; 2ª) crianças e jovens têm direitos à convivência familiar; 3º) as Nações subscritoras obrigam-se a assegurar os direitos insculpidos na Convenção com absoluta prioridade.
Outro importante evento aconteceu em setembro do ano seguinte (1990), o Encontro Mundial de Cúpula pela Criança, onde estiveram presentes representantes 80 países, neste encontro assinaram a Declaração Mundial sobre a Sobrevivência, a Proteção e o Desenvolvimento. Enfim, até o início da década de 1990, consagrou-se nas legislações do mundo ocidental a doutrina da proteção integral, formada por um rol de princípios e valores humanitários capazes não apenas em nortear ações e os deveres sociais, mas, sobretudo, nortear as políticas públicas necessárias ao pleno desenvolvimento da criança e do adolescente.
Para compreendermos o alcance e a importância da doutrina da proteção integral, torna-se pertinente os seguintes conceitos, (Amin 2011, p.11 apud Aurélio de Holanda Ferreira p. 610) doutrina é “o conjunto de princípios que servem de base a um sistema religioso, político, filosófico, científico, etc.”
Quanto aos princípios Miguel Reale (1991, p.303) afirma serem “enunciados lógicos admitidos como condição ou base de validade das demais asserções que compõem dado campo do saber.”
Na conclusão de Amin (2011, p.11):
[...] podemos entender que a doutrina da proteção integral é formada por um conjunto de enunciados lógicos, que exprimem um valor ético maior, organizada através de normas interdependentes que reconhecem criança e adolescente como sujeitos de direito.
Nota-se que são adotados os valores insculpidos na Convenção dos Direitos da Criança na legislação brasileira e não bastando o artigo 227 da Constituição Federal de 1988 definir os direitos fundamentais e estabelecer os princípios orientadores, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente teve como objetivos a sistematização da doutrina da proteção integral, especificando detalhadamente todos os meios hábeis a fim de por em prática o novo paradigma, capaz de transformar, quem até então era visto como objetos da vontade dos adultos, em cidadãos infanto-juvenis.
Lembra Márcio Thadeu Silva Marques (2000, p.16):
A cidadania infanto-juvenil como integrante basilar do princípio da proteção integral. O garantismo é o fim do subjetivismo, por prescindir do arbítrio subjetivo, ante a baliza forte e estável da lei. Trata-se, sem dúvida, do primado dos direitos e do reconhecimento da criança e do adolescente como titulares destas obrigações do estado, da sociedade e da família.
Amin (2011, p.15) acrescenta em suas considerações as novas disposições normativas, possibilitada com a adoção da doutrina da proteção integral:
Com o fim de garantir efetividade à doutrina da proteção integral a nova lei previu um conjunto de medidas governamentais aos três entes federativos, através de políticas sociais básicas, políticas e programas de assistência social, serviços especiais de prevenção e atendimento médico e psicossocial às vítimas de negligência, maus-tratos, abuso e proteção jurídico-social por entidades da sociedade civil.
Por conseguinte, a sociedade de modo geral passa a ter que cumprir um papel jamais antes desempenhado, qual seja, o de garantir aos infantes o gozo de seus direitos em sua totalidade, com a dignidade de verdadeiros cidadãos. São criados órgãos e entidades para reforçar as ações positivas em prol a criança e o adolescente, tais como os Conselhos Tutelares, tendo os seus conselheiros escolhidos da própria sociedade civil, com a função de proteger os interesses infanto-juvenis e fazer os encaminhamentos necessários a fim de restabelecer direitos outrora violados, bem como, para punir os responsáveis. Também o Ministério Público, como representante do Estado, exerce outro importantíssimo papel garantidor, salientando que por conta da Constituição da República de 1988, teve um aumento significativo nas suas atribuições, as quais promoveu-lhe como um agente da transformação social, ou seja, ele é hoje o principal fiscalizador do cumprimento ou não das previsões Estatutárias, exercendo um maior poder para demandar junto ao judiciário em nome daqueles.
A respeito do papel do Conselho Tutelar, Murillo José Digiácomo (2000, p.XXVII) leciona:
[...] em primeiro lugar devemos ter em mente que, para que possa bem e fielmente cumprir sua missão de zelar pelo efetivo respeito aos direitos de crianças e adolescentes, dando-lhes a proteção integral preconizada pela lei 8.069/90 e Constituição Federal, não pode o Conselho Tutelar “escolher” qual ou quais direitos deve se empenhar em assegurar, mas sim fazê-lo igualmente em relação a todos.
Leciona ainda Amin (2011, p.16):
[...] no campo formal a doutrina da proteção integral está perfeitamente delineada. O desafio é torná-la real, efetiva, palpável. A tarefa não é simples. Exige conhecimento aprofundado da nova ordem, sem esquecermos as lições e experiências do passado. Além disso, e principalmente, exige um comprometimento de todos os agentes – Judiciário, Ministério Público, técnicos, sociedade civil, família – em querer mudar e adequar o cotidiano infanto-juvenil a um sistema garantista.
As bases capazes de dar efetividade ao novo modelo foram lançadas, um rol normativo capazes instrumentalizar a luta pela transformação da sociedade e fazê-la mais justa e fraterna, que reconheça a peculiar condição dos infantes como pessoa em desenvolvimento, ser a promotora da proteção integral. Entretanto, há um desafio prático e concreto, que é o de superar a cultura do desrespeito aos direitos das crianças e dos adolescentes, de se exigir destes, as mesmas responsabilidades exigíveis aos adultos. O que a sociedade deve compreender é que aqueles são pessoas em formação, especiais e que os esforços de todos, família, sociedade e o Estado, devem ser concentrados a fim de garantir seus direitos fundamentais, de modo a proporcioná-los o pleno desenvolvimento.
Conforme se traduz na literalidade do artigo 4º do ECA:
É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:
a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias; b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública; c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude (Vade Mecum, 2015).
Sobre a efetividade dos direitos, Dalmo de Abreu Dallari (2002, p.26) traz a seguinte lição:
Um ponto que deve ser rigorosamente observado é que se trata de assegurar direitos de crianças e adolescentes, incluindo, portanto, analfabetos e pessoas desinformadas e com pouca ou nenhuma possibilidade de iniciativa. Por esse motivo, não basta a atitude formal de publicar informações, criar serviços ou simplesmente ficar à espera de que os titulares dos direitos procurem gozar deles. Assim p. ex., as escolas públicas de ensino básico não devem limitar-se ao oferecimento de vagas, mas precisam ir bem mais adiante, procurando saber se na área de sua responsabilidade existem crianças que não frequentam escola e buscando conhecer os motivos das ausências dos alunos matriculados.
Continua Dallari (2002, p.26)
Outro ponto que deve ser observado é a necessidade de permanente cooperação entre as entidades responsáveis pela efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes. Assim, as famílias e comunidades não podem ficar simplesmente passivas, sob pretexto de que a satisfação de determinado direito depende da criação de um serviço pelo poder público. Este, por seu lado, não pode permanecer omisso, por considerar que compete à família ou à comunidade tomar a iniciativa para que seja assegurado algum dos direitos da infância e da juventude. Todas as entidades referidas no art. 4º do Estatuto são solidariamente responsáveis pela efetivação dos direitos ali enumerados e, de uma forma ou de outra, sempre poderão tomar alguma iniciativa para que aqueles direitos se concretizem.
Embora o corpo legal tenha estabelecido caminhos fundados na doutrina da proteção integral, é interessante novamente frisar que, os infanto-juvenis apenas terão seus direitos respeitados e assim, gozando da dignidade merecida e idealizada, se o Estado, nas suas três esferas, executivo, legislativo e judiciário, assumir definitivamente os compromissos com esse público, conforme os ditames Estatutários. Desse modo, é essencial que se adote de maneira crescente políticas públicas serias, que visam dar suporte aos pequenos cidadãos e suas famílias, seja para aquelas necessidades materiais como: moradias e alimentação saudável; necessidades intelectuais: educação de qualidade, esporte, lazer e cultura; por fim, e não menos importante, a criação de um programa que busque constantemente informar e educar toda a sociedade dos direitos da criança e do adolescente, dos deveres para com estes e finalmente, que expresse a importância de se cuidar dessas e o quanto se tem a ganhar respeitando os direitos dos mesmos. Nas palavras de Dallari (2002, p.23): “É a comunidade quem recebe os benefícios imediatos do bom tratamento dispensado às crianças e aos adolescentes, sendo também imediatamente prejudicada quando [...] alguma criança ou algum adolescente adota comportamento prejudicial à boa convivência.” Portanto, precisa-se acreditar na infância e nos adolescentes, nas suas potencialidades e mudar a cultura social. Só assim, criaremos as condições para os infantes crescerem com dignidade e a se
desenvolverem em sua plenitude, será quando alcançaremos, certamente, nossa condição de “plena humanidade.”