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2 COMEÇANDO O QUEBRA CABEÇA DO TDAH: AS PRIMEIRAS

2.3 A Psicopedagogia e a escola: uma parceria para auxiliar na

A realidade das escolas, de forma geral, vem se mostrando conturbada quando levamos em conta todo o processo do ensinar e do aprender. A tentativa de achar os supostos culpados para os problemas educacionais atuais ainda ocorrem, perpassando desde uma visão de déficit cultural e social das classes menos favorecidas economicamente, que dificulta o aprender do sujeito, até a falta de capacidade dos profissionais em atender e mediar as demandas do cotidiano da sala de aula. Não obstante, e junto a esse contexto, atrela-se a relação entre número de vagas e diminuição da marginalidade educacional, considerando que mais aluno na escola significa educação de fato.

Pensar a escola à luz da Psicopedagogia significa analisar um processo que inclui questões metodológicas, relacionais e socioculturais, englobando o ponto de vista de quem ensina e de quem

aprende, abrangendo a participação da família e da sociedade (LOURENÇÃO, 2015. s/p.)

Ao contrário do que possa imaginar ou pretender, a psicopedagogia não atua nesse meio como a “salvadora de todos os problemas da escola” – desvios de aprendizagem, indisciplina, falta de motivação. Mesmo porque o seu objeto de estudo é a aprendizagem. Sabemos que o que contempla o espaço escolar é mais complexo do que a aprendizagem. No entanto, por abranger várias áreas de conhecimento, pode auxiliar o desenvolvimento de um trabalho pautado em um olhar mais amplo do ser humano e suas relações, conforme indica o quadro abaixo.

Quadro 3 - Áreas que constituem as especificidades teóricas da Psicopedagogia

TEORIAS

CONTRIBUIÇÕES

Psicanálise

Representações do sujeito expressos por símbolos e sintomas que nos revelam os desejos e o inconsciente do ser em paralelo ao aprender.

Psicologia do Desenvolvimento Entende como o sujeito se constitui, se desenvolve e aprende

Psicologia Social

Construção do sujeito em suas relações com o meio em que está inserido e que contextualizam toda a aprendizagem

Epistemologia e Psicologia Genética

Revelam o processo de construção do conhecimento do ser interativo

Línguística

Auxilia a compreender a linguagem como um constructo histórico, humano e cultural.

Psicomotricidade

Ajuda no entendimento da visão de um sujeito completo, que amplia o movimento para um momento que perpasse o desejo, a inteligência e a emoção, sintetizando objetividade e subjetividade.

Pedagogia

Traz as abordagens do processo de ensinar e aprender, pelo viés do educador

Fonoaudiologia

Abre o conhecimento do desenvolvimento da fala e da aquisição do reconhecimento fonema-grafema

Neuropsicologia, Neurociência e Neurologia

Possibilitam entender como se dá os processos de ordem cerebral e os aprimoramentos mentais, como, por exemplo, a plasticidade cerebral, em contrapartida ao plano psíquico e suas evoluções. Nestas áreas ainda se inserem os conhecimentos voltados para aquisição e funcionamento de memória, atenção e linguagem.

Fonte: Adaptado de Miranda (2016.p.30-45) e Bossa (2000. p.26)

Essas são possibilidades teóricas que circundam os preceitos da prática psicopedagógica. Como observado, a psicopedagogia integra saúde e educação frente à aprendizagem e todo o seu desenvolver: trabalha nas frentes preventivas e terapêuticas, assim como na análise diagnóstica e interventiva nos desvios desse percurso.

Essa demanda por uma área que se caracterizasse em um viés interdisciplinar e multifacetado se estruturou em 1980, no intuito de “resgatar uma visão mais globalizante do processo de aprendizagem e, consequentemente, problemas desse processo”. (SCOZ, 2011.p.21) A ideia não era ensinar o professor a dar aula e nem o aluno a ser aluno, mas devolver aos agentes envolvidos – professor e aluno – o prazer e as construções resultantes desta interação. No entanto, vale ressaltar que:

Transformar a aprendizagem em prazer não significa realizar uma atividade prazerosa, e sim descobrir o prazer no ato de: construir ou de desconstruir o conhecimento; transformar ou ampliar o que se sabe; relacionar conhecimentos entre si e com vida; ser co-autor ou autor do conhecimento; permitir-se experimentar diante de hipóteses; partir de um contexto para a descontextualização e vice-versa; operar sobre o conhecimento já existente; buscar o saber a partir do não saber; compartilhar suas descobertas; integrar ação, emoção e

cognição; usar a reflexão sobre o conhecimento e a realidade; conhecer a história para criar novas possibilidades. (BARBOSA, 2001.p. 21)

O constructo final não será igual ou padronizado a todas as situações, pois cada contexto é único, cada relação é específica aos envolvidos em um dado momento histórico social.

A intervenção psicopedagógica não pode configurar-se da mesma maneira quando direcionada para o contexto escolar e quando oferecida a uma família; os instrumentos e as estratégias utilizadas irão variar conforme a orientação esteja direcionada a um adolescente ou a um trabalhador que, na sua maturidade, precisa redefinir sua trajetória profissional. (SOLÉ, 2001. p.28).

Porto (2007) conceitua a atuação do psicopedagogo, dizendo que:

[...] o psicopedagogo auxiliará o sujeito a reelaborar sua história de vida, reconstruindo fatos que estavam fragmentados, e a retomar o percurso normal de sua aprendizagem. Assim, o trabalho clínico do psicopedagogo se completa com a relação entre o sujeito, sua história pessoal e sua modalidade de aprendizagem. Já o trabalho preventivo tende a “evitar” os problemas de aprendizagem, utilizando-se da investigação da instituição escolar, de seus processos didáticos e metodológicos, etc. Enfim, analisa a dinâmica institucional com todos os profissionais nela inseridos, detectando os possíveis problemas, intervindo para que a instituição se reestruture. (PORTO, 2007.p.91) E ainda:

A atuação do psicopedagogo na instituição escolar é de mediar os mecanismos que norteiam o processo da aprendizagem, promover ações inovadoras que objetivam a busca da identidade da instituição; redefinir funções: professores, coordenadores, orientadores e diretores; reflexões diante de novas formas de aprender; reprogramar o currículo, implantar programas e sistemas avaliativos; analisar conteúdo e reconstruir conceitos; ressignificar sistemas de recuperação e reintegrar o aluno no processo. (MUNIZ, 2015. p. 5) O papel da psicopedagogia e do psicopedagogo no espaço escolar visa contribuir para que o ambiente de aprendizado seja o mais harmonioso possível, assim como os vínculos ali estabelecidos. Esse trabalho perpassa desde projetos pontuais para questões gerais da escola a intervenções individuais no trabalho do docente ou do discente.

Se voltarmos o olhar ao trabalho psicopedagógico e sua contribuição à criança com TDAH compreendemos que é possível auxiliar de forma direta e sucinta:

A. No trabalho com o professor/ pedagogo / escola: ajudando a compreender formas diferenciadas de trabalho, em relação à

metodologia, didática e na avaliação voltadas para o modo de aprender da criança; estabelecer um melhor vínculo entre o professor, a turma e a criança com TDAH; trazer materiais e estudar juntos sobre o transtorno para melhorar a compreensão e o manejo caso a caso; estabelecer uma ponte entre a escola, a equipe multidisciplinar, estudando os casos com um olhar único e diferenciado; levar as informações e formas de trabalho entre outras áreas e agentes escolares para que possam entender a dinâmica do indivíduo;

B. No trabalho com a família: orientar em procedimentos para melhoria da rotina em casa; na forma de acompanhar os estudos e ajudar na manutenção do mesmo; no fortalecimento do vínculo da criança e seus familiares; no estabelecimento de um diálogo compreensivo e orientação de regras e combinados em casa;

C. No trabalho com a criança diagnosticada: mostrar suas potencialidades e pontos positivos como estudante e indivíduo; trabalhar as suas capacidades para que possa melhorar seu processo de aprendizado; estabelecer diálogos construtivos; retornar ao indivíduo a crença de que ele é capaz de aprender.

Os pontos mostrados acima são, resumidamente, a base para possibilidades de trabalho psicopedagógico que podem ser ampliados e enriquecidos caso a caso, para as crianças com TDAH.

Para que o diálogo frente ao aprendizado seja enriquecido, auxiliando a compreender mais um dos vieses do TDAH e do aprender, entraremos em um aspecto polêmico e delicado: a patologização do aprendizado e os discursos sobre a medicalização.

2.4. Sobre a patologização do aprender: uma peça importante no quebra cabeça