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A queda da desigualdade e o nascimento dos “trinta gloriosos”

Nenhum período da história recente recebeu epítetos tão triunfantes quanto as décadas que se seguiram à 2a Guerra Mundial. Expressões como “os trinta gloriosos”, “a era de ouro do crescimento” ou “a sociedade afluente” carregam consigo tanto a nostalgia da prosperidade perdida nos anos 1970 quanto a sensação de ruptura com as turbulências que se multiplicaram desde o fim do século XIX. A mística do período que transformou os Estados Unidos e a Europa ocidental em Primeiro Mundo oferece atrativos para diversos públicos, permitindo esquecer ou deixar de lado os episódios mais desagradáveis. Conservadores como Charles Murray (2012) lamentam o desmoronamento das virtudes cívicas, a perda dos valores comunitários e a degradação cultural nos Estados Unidos a partir do final dos anos 1960, enquanto sociais-democratas como TonyJudt(2010) lastimam a perda, dos dois lados do Atlântico, do consenso em torno do projeto igualitarista que permitiu superar as crises anteriores por uma via não autoritária.

Não foi sempre assim. Nos estertores da 2a Guerra e no imediato pós-guerra, muitos

temiam pelo pior. Roberto Campos (1964, p. 171), que esteve na comissão brasileira na Conferência de Bretton Woods, em 1944, registrou a crença geral de que o fim da guerra traria uma crise deflacionária e a depressão econômica. Karl Polanyi (1947) partiu dos medos e incertezas associados à sociedade industrial mesmo depois do ocaso do liberalismo clássico para especular sobre as condições necessárias para um futuro menos sombrio. Raymond Aron (1950a, 1950b) culpou a fraqueza e a incompetência dos governos de esquerda pela “regressão econômica” da França desde 1945. Em 1952, John Kenneth Galbraith (1993) documentou com humor o descompasso entre a prosperidade americana

1 Infelizmente, o Web of Science, mantido pela Thomson Reuters, tem problemas de abrangência no

período em questão, que também é muito curto para produzir resultados relevantes no Google Ngram. Por isso, optei não incluir evidências quantitativas neste capítulo.

e a sensação generalizada de insegurança. Se boa parte do empresariado bradava contra a instauração do socialismo e a perda da liberdade, os liberais – no sentido americano do termo – mostravam-se cada vez mais desconfortáveis com a proeminência das grandes corporações. Ambos temiam que uma nova depressão fosse iminente.

Em pouco tempo essas preocupações foram esquecidas por acadêmicos e políticos. Em 1956, W.W. Rostow (1956) já teorizava sobre as condições para o “crescimento auto-sustentado”. No ano seguinte, o recém-eleito primeiro ministro conservador britânico Harold Macmillan fez seu famoso discurso em que proclamava que os britânicos nunca tinham vivido tão bem.2 Em 1963, o presidente americano democrata John F. Kennedy popularizou a ideia de que “uma maré crescente carrega todos os barcos”, em discurso que celebrava a prosperidade do país desde o fim da 2a Guerra.3 No ano seguinte, Seymour

Lipset (1964) citou, com satisfação, o diagnóstico do socialista Oscar Pollack de que a afluência dos trabalhadores esmorecera o afã pela luta de classes.

Em boa medida, o pessimismo foi derrotado pela força bruta dos fatos. No entanto, só se converteu em otimismo a partir do momento em que a nova ordem foi devidamente digerida por novas teorias, que não tardaram a aparecer. Não obstante a permanência do marxismo como força cultural, a produção intelectual dos países desenvolvidos tornou-se mais positiva desde pelo menos meados dos anos 1950. Nas versões mais deslumbradas, a prosperidade europeia e a americana eram quase inevitáveis.

As desigualdades econômicas tinham protagonismo na maior parte dessas narrativas, com um caráter essencialmente benigno, como observou Grusky (2011). Sua redução foi interpretada como um desfecho mais ou menos natural do processo de desenvolvimento e modernização. As visões polarizadas do início do século deram lugar a concepções triádicas ou hierárquicas da estratificação, e a desigualdade remanescente passou a ser justificada em termos bem funcionalistas. Com o tempo, a distinção entre desigualdades de oportunidades e de resultados tornou-se nítida, e esta última perdeu importância. A maioria dos autores assumiu a estabilidade dos níveis moderados de desigualdade nos países avançados como um dado, uma précondição para um sistema meritocrático capaz de conter conflitos sociais e prover os incentivos adequados. Só entre o fim da década de 1960 e o início dos anos 1970 o novo consenso tornou-se problemático.

Comecemos pelos fatos. À parte vozes discordantes como as de Aron, houve uma percepção crescente de nivelamento social nos países ricos. No Reino Unido, difundiu-se a ideia de que a 2a Guerra havia obliterado as divisões de classe (CANNADINE, 1999,

p. 150)4. Em meados da década, Sorokin (1945) diagnosticava, sem muita comemoração,

2 Trechos disponíveis em <https://web.archive.org/web/20150828231417/http://news.bbc.co.uk/

onthisday/hi/dates/stories/july/20/newsid_3728000/3728225.stm>. Acesso em 28 ago. 2015.

3 Em inglês, “a rising tide lifts all boats”. Transcrição disponível em <https://web.archive.org/web/

20150822042052/http://www.presidency.ucsb.edu/ws/index.php?pid=9455>. Acesso em 21 ago. 2015.

4 Cannadine documentou o sentimento de equalização para em seguida questioná-lo. Aqui, a veracidade

enormes mudanças na estratificação social das populações “euro-americanas”, destacando a redução das desigualdades decorrente do “empobrecimento em massa” dos ricos e do “desaparecimento” dos grandes proprietários rurais e mesmo dos capitalistas. Mais rigorosamente, Mary Smelker (1948) contrastou a estabilidade da concentração de renda no topo nos dados tributários entre 1929 e 1940 com a equalização durante a guerra.

O trabalho mais influente dessa lavra foi a estimativa de Simon Kuznets (1953) para as frações da renda dos mais ricos nos Estados Unidos entre 1913 e 1948. Ainda que tenha feito qualificações, Kuznets também destacou a quebra na tendência a partir de 1939, comparando, como Smelker, o declínio na concentração no topo nos anos 1940 com a flutuação sem direção no período anterior. A interpretação de Geoffrey Moore(1952) para os mesmos dados mudou apenas o momento da quebra. Para ele, a Grande Depressão fora o divisor de águas, dando início a um período de forte compressão dos rendimentos no topo, reduzindo a fração dos mais ricos a níveis inéditos.

O que de início foi visto como mudança abrupta foi logo reinterpretado como queda secular e gradual. Ao comentar resultados preliminares de Kuznets no relatório anual do

National Bureau of Economic Research (NBER), Arthur Burns (1951), futuro diretor do conselho econômico da presidência e do Federal Reserve, foi grandiloquente:5

A distribuição da renda nacional é sempre uma preocupação vital para um povo livre e progressista que deseja elevar seu padrão de vida. [. . . ] [P]oucos americanos e um número ainda menor de europeus estão cientes da transformação na distribuição de nossa renda nacional que ocorreu nos últimos vinte anos – uma transformação transcorrida de modo pacífico e gradual, mas que já pode ser considerada uma das grandes revolu- ções sociais da história. [. . . ] Infelizmente, a “cortina de ferro” impede a comparação do nosso feito com aqueles das celebradas “democracias populares”, mas é permissível questionar se muitas delas podem reivindi- car tamanha democratização do processo distributivo em seus próprios países. (BURNS,1951, p. 3–4)

O próprio Kuznets (1955) gravitou para essa visão, fornecendo o substrato teórico fundamental com a sua teoria do “U invertido”, enunciada em sua conferência anual como presidente da American Economic Association. Ele propôs que, no longo prazo, o processo de desenvolvimento primeiro provocaria o aumento, seguido por um período de estabilidade e, por fim, de redução da desigualdade, em função das mudanças setoriais, demográficas,

dada aos discursos binários no pós-guerra porque a politicização se deu com base em um consenso maior acerca dos arranjos institucionais existentes.

5 Fundado em 1920, o NBER é maior instituto privado não-lucrativo de pesquisa econômica dos Estados

Unidos. Ver: <https://web.archive.org/web/20150817014639/http://www.nber.org/info.html>. O

Council of Economic Advisors é uma agência estabelecida em 1946 e vinculada à presidência americana.

Arthur Burns foi seu chairman entre 1953 e 1956. Ver:<http://web.archive.org/web/20150817014819/ https://www.whitehouse.gov/administration/eop/cea/about/former-chairs>. O Federal Reserve, criado em 1913, é o banco central americano. Burns serviu como chairman do Board of Governors entre 1970 e 1978. Ver:<http://web.archive.org/web/20150817014855/http://www.federalreservehistory. org/People/DetailView/11>. Acessos em 16 ago. 2015.

econômicas e sociais intrínsecas à modernização. Kuznets foi bastante cauteloso quanto à validade de suas hipóteses, mas, no fim das contas, sua teoria tornou-se um mantra em muitos círculos intelectuais e políticos. Por exemplo, Jeffrey Williamson (1965) elaborou, anos depois, uma hipótese para a evolução das desigualdades regionais que seguia na prática a trajetória prevista por Kuznets, com maior desigualdade e, posteriormente, convergência dos Produtos Internos Brutos (PIBs) per capita. Como observou Piketty (2014a, p. 13–15), tratava-se de uma arma política importante em meio à Guerra Fria, e Kuznets tinha consciência disso. Uma preocupação palpável do texto de Kuznets era se os países subdesenvolvidos seguiriam o mesmo padrão, com temor explícito quanto às consequências da maior desigualdade nesses países.

Simbolicamente, a conferência de Kuznets pode ser considerada como o abandono definitivo da visão polarizada da estratificação. Ou, melhor dizendo, a exportação do problema para o chamado mundo subdesenvolvido. Se a lógica do desenvolvimento havia, grosso modo, resolvido o conflito distributivo doméstico, a dicotomia entre pobres e ricos era a característica essencial dos países mais pobres:

[Os países subdesenvolvidos] não possuem classes “médias”: há um con- traste agudo entre a proporção preponderante da população cuja renda média está bem abaixo da média nacional, e um pequeno grupo no topo com um excesso relativo de renda muito grande. Os países desenvolvidos, por outro lado, são caracterizados por um aumento muito mais gradual das frações baixas às altas, com grupos substanciais recebendo mais do que a alta média nacional e os grupos no topo assegurando frações menores. (KUZNETS,1955, p. 22)

Estudos empíricos subsequentes ajudaram a corroborar Kuznets. Robert Lampman (1954,1959), que antes havia questionado a robustez dos resultados de Kuznets, acabou por concluir que, nos Estados Unidos e na Inglaterra, a tendência na primeira metade do século fora de redução da desigualdade de riqueza. Com base em dados transversais internacionais, Irving Kravis (1960) ratificou a hipótese do “U invertido”, enquanto EdwardBudd (1970) observou, em pesquisas domiciliares e em dados tributários, a razoável estabilidade da distribuição de renda americana no pós-guerra, registrando apenas pequenas perdas relativas nos extremos da distribuição em favor dos décimos intermediários.

Com isso, a preocupação com o crescimento econômico tornou-se ainda mais central entre economistas, em detrimento das questões distributivas. Anos mais tarde, em um momento de renovada atenção à desigualdade, James Tobin (1970) – ganhador do Nobel em 19816 – relatou ter sido questionado por um colega cientista político sobre os motivos

pelos quais os economistas não falavam mais da distribuição de renda. Sociólogos tampouco

6 Leitores mais pedantes podem lembrar que o prêmio concedido pelo Banco Central sueco em ho-

menagem a Alfred Nobel não é estritamente um “prêmio Nobel”. Cabe notar, contudo, que a própria Fundação Nobel reconhece o prêmio em economia como uma das categorias em disputa. Ver:<https://web.archive.org/web/20150828234750/http://www.nobelprize.org/nobel_organizations/ org_structure.html>. Acesso em 28 ago. 2015.

ficaram imunes, e muitas das contendas dos anos 1950 e 1960 giraram em torno de diferenças de status, e apenas secundariamente de classe ou renda.

As consequências intelectuais da prosperidade foram intuitivas. Se o desenvolvi- mento se encarrega de reduzir as desigualdades e se a interação entre mercados livres e igualdade de oportunidades tem efeitos virtuosos, então o medo da polarização e dos antagonismos sociais só pode dar lugar a uma visão mais benigna e graduada da sociedade. Todos podem ser iguais e diferentes, vale dizer, a hierarquia de rendimentos associada sobretudo ao mercado de trabalho pode coexistir com uma “sociedade de classe média” sem grandes problemas, em um mundo em que o crescimento econômico é normal e esperado. A preocupação principal poderia se deslocar, inclusive, para os exageros do igualitarismo, algo expresso por Joseph Spengler (1953) já na primeira metade dos anos 1950:

Não é provável que a desigualdade de renda possa continuar a ser reduzida de modo significativo. [. . . ] A motivação adequada só pode ser gerada se as recompensas forem baseadas predominantemente na produtividade, que varia enormemente entre indivíduos [. . . ]. [A] mera manipulação de escalas salariais, com o objetivo de equalizar rendimentos, quase certamente vai afetar negativamente a quantidade e a composição do produto. (SPENGLER,1953, p. 258–259)