O Brasil, à sua maneira, acompanhou as tendências internacionais nas últimas décadas do século passado. Depois da intensa querela no início dos anos 1970 sobre o aumento da desigualdade, o assunto perdeu visibilidade nos anos 1980. A causa, contudo, foi mais a grave crise econômica que afligiu o país até a primeira metade da década de 1990 do que qualquer guinada política neoliberal. A desigualdade não desapareceu de todo e um bom número de trabalhos de alta qualidade foram publicados; no entanto, a questão distributiva saiu das manchetes em um período em que as fontes de dados se tornaram mais numerosas, com a realização anual (exceto em anos censitários) das Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). A literatura brasileira também seguiu a internacional em outro aspecto: a priorização do modelo do capital humano como chave para explicar nossa elevada desigualdade. Muito embora as previsões róseas de Carlos Langoni sobre a evolução da distribuição de renda brasileira tenham fracassado miseravelmente, seu modelo
explicativo tornou-se predominante, principalmente depois da redemocratização.
Muitos trabalhos usaram dados dos Censos e das PNADs para documentar que a desigualdade de renda medida pelo coeficiente aumentara nos anos 1970, com menos intensidade e com breve intervalo de queda entre 1976 e 1981, e mais fortemente nos anos 1980. Ou seja, a desigualdade aumentou tanto em períodos de crescimento quanto de estagnação. (BARROS; MENDONÇA, 1995b; BONELLI; RAMOS, 1993; BONELLI; SEDLACEK, 1988; REIS; BARROS, 1990). Ainda assim, a pobreza diminuiu, já que a piora na distribuição de renda não foi forte o suficiente para anular os ganhos absolutos nos anos de crescimento. Essa piora, por sinal, seguiu padrões diferentes nos dois períodos de aumento acentuado do Gini: entre 1960 e 1970, os décimos no meio da distribuição foram os que mais ficaram para trás, com renda real praticamente estagnada em um período de prosperidade; já na década de 1980, todos os décimos tiveram perdas reais, mas, em termos relativos, elas foram maiores para os mais pobres, diminuindo quase monotonicamente em direção ao topo da distribuição (BARROS; MENDONÇA, 1995a).9
Ao contrário do debate do início dos anos 1970, dessa vez a heterogeneidade educacional e a convexidade dos retornos à escolaridade foram aceitas mais amplamente como principais explicações sobretudo para os altos níveis de desigualdade registrados no Brasil (BARROS; MENDONÇA,1995b;BARROS; RAMOS,1992;JALLADE,1978;LAM; LEVISON,1990;REIS; BARROS, 1990). Nem todos compartilhavam esse foco, claro: por exemplo, Velloso (1979) voltou a insistir sobre a política econômica da ditadura militar, enquanto outros autores mais próximos à ênfase educacional reconheceram problemas e limites no que diz respeito à dinâmica de curto prazo. Com base nas PNADs de 1976 a 1985, Lam e Levison (1992) observaram que, para as coortes mais jovens, houve tanto aumento da escolaridade quanto diminuição da heterogeneidade educacional, e mesmo assim a desigualdade salarial aumentara, o que foi especulativamente atribuído por eles a efeitos cíclicos que, no longo prazo, seriam dominados por melhoras estruturais na distribuição da escolaridade.Bonelli e Ramos(1993), por sua vez, reconheceram a importância da educação e da teoria do capital humano, mas observaram que o contexto brasileiro provavelmente não supria as precondições necessárias para sua aplicabilidade tout court – em função de mercados imperfeitos ou incompletos, barreiras ao acesso à informação e outros fatores – e que a escolaridade sozinha não parecia explicar muito da dinâmica da distribuição de renda. Esses autores buscaram suplementar o modelo levando em conta a inflação e o ciclo econômico, com especial influência para a literatura de labor hoarding, que previa que a
9 Em função das limitações do Censo de 1960, a maior parte dessas análises tomou como variável
de estratificação a renda individual total da população economicamente ativa com rendimentos não nulos. Com as novas bases de dados e o avanço computacional, a variável privilegiada pelos estudiosos brasileiros, além da renda do trabalho, passou a ser a renda domiciliar per capita. Até onde foi possível apurar, o primeiro a utilizá-la foi ConstantinoLluch(1981), em trabalho baseado no Censo de 1970. Não há uniformidade internacional quanto à variável de interesse: por exemplo, os estudos americanos tendem a usar simplesmente a renda familiar total e a maioria dos europeus utiliza a renda domiciliar com alguma escala de equivalência.
desigualdade salarial teria comportamento anticíclico, isto é, aumentaria em períodos de crise, pois os trabalhadores menos escolarizados seriam os primeiros a serem demitidos, em função do menor custo de reposição para os patrões.
Até os defensores da explicação educacional da desigualdade brasileira reconheceram, muitas vezes tacitamente, que a hipótese de Langoni de um desequilíbrio de mercado (quase) autocorrígivel fora descabida e que, mesmo se a interpretação dele para os anos 1960 estivesse correta, ela era pouco aplicável aos anos 1980: como escreveram Bonelli e Ramos (1993), a ideia de que o desenvolvimento econômico aumentara a demanda por trabalho qualificado com oferta inelástica no curto prazo servia melhor ao período de expansão da década de 1960 do que aos anos 1980, época de expansão educacional e estagnação econômica. Surpreendentemente, muitos trabalhos do período ignoraram as críticas dos contemporâneos de Langoni quanto ao timing do aumento da desigualdade durante a ditadura, tal como discutido na seção 2.6, no capítulo anterior.
Apesar dessas ressalvas, não há dúvidas de que a interpretação da desigualdade em termos de capital humano tem muito a seu favor. Para começar, os diferenciais educacionais oferecem uma fundamentação plausível para o tipo de desigualdade que se desejava explicar, caracterizado pela combinação de concepções hierárquicas da estratificação, pelo uso de pesquisas domiciliares amostrais e pelo foco no mercado de trabalho. Com efeito, os imensos diferenciais registrados no Brasil implicavam que, dado esse enquadramento, a educação era uma resposta bastante intuitiva para o nosso alto nível de desigualdade. A situação podia ser diferente quando se tratava das nossas tendências temporais, mas, com o tempo, tais tendências pareceram menos relevantes do que a persistência dos altos índices de concentração de renda no país (e.g., BARROS; HENRIQUES; MENDONÇA, 2000). Como se tratava, justificadamente, de procurar causas relativamente fixas para o problema da persistência de diferenciais de renda ao longo de uma distribuição contínua, dificilmente haveria outra explicação mais satisfatória e parcimoniosa. Ademais, a maior parte dos autores dessa geração nunca negou a possibilidade de suplementar a explicação educacional com elementos institucionais e macroeconômicos, embora o caráter político das escolhas da ditadura militar tenha ficado em segundo plano (ver, por exemplo, a revisão de COELHO; CORSEUIL,2002). O fim das políticas autoritárias mais criticadas da ditadura – como a repressão aos sindicatos – de fato não produziu melhorias distributivas imediatas.
Em sua revisão da extensa literatura sobre o salário mínimo, por exemplo, Wells e Drobny (1982) reconheceram que as evidências empíricas acerca dos efeitos distributivos da sua
desvalorização eram inconclusivas.
Em resumo, o debate brasileiro chegou à segunda metade dos anos 1990 menos controverso e menos visível do que antes, com uma nova sabedoria convencional cristalizada em torno do papel central da educação para explicar o nível alto da nossa desigualdade para padrões internacionais. Francisco Ferreira (2000) apresentou uma versão refinada dessa vertente ao incorporar a economia política das desigualdades educacionais:
O debate dos anos 70 e 80 sobre a importância relativa da distribuição da educação e de seus retornos, por um lado, e de políticas salariais repres- sivas, por outro, como causas básicas da desigualdade brasileira, parece estar esgotado. [. . . ] [U]m modelo formal simplificado [. . . ] demonstra a possibilidade da existência de um tipo de equilíbrio político-econômico em que três desigualdades se reforçam mutuamente: uma grande de- sigualdade educacional gera um alto nível de desigualdade de renda – como se observa no Brasil. Essa desigualdade de renda ou riqueza, por sua vez, pode implicar uma distribuição desigual de poder político, na medida me que a riqueza gera influência sobre o sistema político. E a desigualdade de poder político reproduz a desigualdade educacional, já que os detentores do poder não utilizam o sistema público de educação, e não têm interesse na sua qualidade, dependendo apenas de escolas particulares. (FERREIRA,2000, p. 155)
Ferreira escreveu em um momento em que, assim como nos Estados Unidos e alhures, a distribuição de renda estava voltando ao centro das atenções no Brasil. Ao contrário dos países desenvolvidos, o que deu gás à reemergência do tema por aqui foi a queda da desigualdade medida nas pesquisas domiciliares, que se prolongou durante toda a primeira década dos anos 2000.
É difícil precisar quais foram os primeiros trabalhos que detectaram essa queda, imprevista pelos estudiosos do tema. Porém, pode-se afirmar que já no início dos anos 2000 se sabia que a desigualdade de rendimentos individuais entre a população economicamente ativa com rendimentos não nulos estava em queda (HOFFMANN, 2002a), e, pouco anos mais tarde, muitos pesquisadores já haviam identificado uma redução perceptível da desigualdade de rendimentos domiciliares per capita desde 2001 (BARROS et al., 2006; FERREIRA et al., 2006; HOFFMANN,2006; IPEA, 2006; NERI,2005; SOARES, 2006). Alguns foram céticos, ao menos de início: Salm (2006), por exemplo, atirou para todos os lados, decretando a irrelevância da queda de 4% do coeficiente de Gini entre 2001 e 2004 diante do alto nível de desigualdade ainda registrado.
Outro ponto levantado por ele foi a contradição entre os resultados da PNAD e a deterioração da distribuição funcional da renda registrada no Sistema de Contas Nacionais (SCN). A compatibilização entre PNAD e SCN feita por Barros, Cury e Ulyssea (2006), contudo, indicava que, levando em conta os rendimentos não monetários e alguns pressupostos fortes quanto à distribuição dos rendimentos de capital, a PNAD subestimaria apenas o nível da renda, e não o grau de desigualdade. Hoffmann e Ney (2008), por sua vez, mostraram que a nova série do SCN produzida pelo IBGE apresentava estabilidade, e não diminuição, da remuneração dos empregados na distribuição funcional da renda, e que a queda da desigualdade na PNAD era consistente com isso, pois havia se dado sobretudo em função da melhor distribuição dos rendimentos do trabalho.
A recuperação da remuneração dos empregados no SCN depois de 2003 e a continu- ação da queda da desigualdade nas PNADs sepultaram as dúvidas, e a volta do crescimento econômico fez com que o Brasil fosse comemorado como um caso raro de desenvolvimento
com redistribuição. As Figuras 8 e9dão a dimensão dos resultados das PNADs, trazendo, respectivamente, os coeficientes de Gini e o valor médio real para várias definições de rendimentos: renda domiciliar per capita, renda individual total para indivíduos de 15 anos ou mais, renda total do trabalho para ocupados com remuneração positiva e renda horária do trabalho principal para indivíduos entre 15 e 65 anos ocupados com remuneração positiva que trabalharam entre 15 e 85 horas na semana.10
Na Figura 8, os Ginis das quatro variáveis de rendimentos têm comportamento muito semelhante: leve queda no final dos anos 1970, seguida por relativa estabilidade e, depois, aumento pronunciado da desigualdade no final da década de 1980 e, posteriormente, redução prolongada para os menores valores da série histórica. As séries divergem só quanto ao início desse último processo. No caso da renda domiciliar per capita, o Gini começou a declinar de forma consistente a partir de 2001; nas demais variáveis a queda já era perceptível na segunda metade dos anos 1990.
A Figura 9 demonstra a volatilidade da renda média durante o período. O Gini começou sua queda em anos ainda de crise; só a partir do biênio 2003–2004 as PNADs registraram crescimento da renda conjuntamente com o declínio da desigualdade.11 Entre
2001 e 2013, a renda média real subiu entre 28% (renda total do trabalho) e 47% (renda domiciliar per capita), e o coeficiente de Gini caiu entre 12% e 14% nas PNADs. Por consequência, os índices de pobreza também diminuíram bastante. Souza(2015) concluiu que dois outros levantamentos domiciliares – a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e o Censo Demográfico – corroboram essas tendências gerais, principalmente depois de procedimentos de harmonização para mitigar as diferenças entre as pesquisas. Uma ressalva é que, em comparação com POFs e Censos, as PNADs subestimam o nível da desigualdade.
No plano político, o crescimento com redistribuição virou um pilar retórico das campanhas e dos governo Lula e Dilma Rousseff. Em alguns casos, a politização foi reforçada por trabalhos acadêmicos ou de divulgação acadêmica (e.g., NERI, 2007). Por alguns anos, a discussão da “nova classe média”, iniciada por Neri (2008), pautou a imprensa e o governo, culminando em uma definição oficial da classe média (BRASIL. Secretaria de Assuntos Estratégicos, 2012), algo possivelmente inédito no contexto internacional.
No campo acadêmico, houve proliferação de estudos para explicar as causas da redução da desigualdade.12 Como nem a concepção hierárquica de um continuum de renda nem as ferramentas para monitorá-la mudaram, as explicações seguiram os moldes anteriores. Os estudos empíricos convergiram para a conclusão de que o mercado de trabalho era o grande herói por trás da queda do coeficiente de Gini, formando-se então
10 Essa última série foi omitida da Figura9 para facilitar a visualização. Sua tendência temporal é muito
semelhante à da renda total do trabalho.
11 O pico das rendas médias em 1986 é uma anomalia causada pelos efeitos de curto prazo do Plano
Cruzado.
12 Parte importante desses estudos foi reunida nos excelentes volumes organizados por Ricardo Paes de
Figura 8. Coeficientes de Gini para a renda domiciliar per capita, renda individual total, renda total do trabalho e renda horária do trabalho principal – Brasil, 1976–2013
.4 .5 .6 .7 .8 Coeficiente de Gini 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 Anos
Renda domiciliar per capita Renda individual total Renda do trabalho total Renda horária do trabalho
Fonte: elaboração do autor a partir dos microdados das PNADs.
N.B.: exclusive áreas rurais da região Norte (exceto Tocantins) e Centro-Oeste. A série per capita exclui domicílios com algum rendimento ignorado; a individual total inclui indivíduos com 15 anos ou mais sem rendimentos ignorados; a do trabalho inclui ocupados remunerados de qualquer idade; a horária do trabalho inclui ocupados remunerados, entre 15 e 65 anos, que trabalharam entre 15 e 85 horas por semana.
Figura 9. Médias mensais para a renda domiciliar per capita, renda individual total e renda total do trabalho – Brasil, 1976–2013 (R$ 2013)
0 500 1000 1500 2000 Rendimento médio (R$ 2013) 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005 2010 2015 Anos
Renda domiciliar per capita Renda individual total Renda total do trabalho
Fonte: elaboração do autor a partir dos microdados das PNADs.
N.B.: exclusive áreas rurais da região Norte (exceto Tocantins) e Centro-Oeste. Rendimentos deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), seguindo Corseuil e Foguel(2002). A série per capita exclui domicílios com algum rendimento ignorado; a individual total inclui apenas indivíduos com 15 anos ou mais sem rendimentos ignorados; a trabalho inclui ocupados com remuneração positiva de qualquer idade.
relativo consenso acerca da influência dos avanços do sistema escolar no processo, com a diminuição da heterogeneidade educacional e a compressão dos retornos à educação concomitantes ao declínio da desigualdade (BARROS; FRANCO; MENDONÇA, 2007b; FERREIRA et al.,2006; FOGUEL; AZEVEDO,2007;MENEZES-FILHO; FERNANDES; PICHETTI,2007). Os sucessivos aumentos reais do salário mínimo, a geração de empregos formais, a redução da segmentação (setorial e geográfica) e da discriminação (por sexo e cor) foram causas secundárias da menor concentração de renda no mercado trabalho (BARROS; FRANCO; MENDONÇA, 2007a; FIRPO; REIS, 2007; SOUZA; OSORIO,
2014; ULYSSEA, 2007).13
As análises de classes chegaram a conclusões parecidas, considerando a perda de prêmios educacionais a transformação mais significativa (SANTOS, 2015a; SANTOS, 2015b; SOUZA; CARVALHAES, 2014). No caso da mobilidade intergeracional, Costa Ribeiro (2012) demonstrou que o declínio dos retornos educacionais foi a principal causa da queda da desigualdade de oportunidades no Brasil entre 1973 e 2008.
Essas explicações foram complementadas pelas análises de políticas públicas. Em- bora seja difícil quantificá-lo, as instituições e o Estado ganharam destaque inédito desde os anos 1970, impulsionado pela expansão das transferências desde a estabilização ma- croeconômica. O Programa Bolsa Família (PBF) foi objeto de inúmeros estudos, apesar de seu tamanho diminuto como proporção do PIB (em torno de 0,5% na maior parte dos anos); certamente o PBF é, por margem colossal, o programa brasileiro com maior número de papers por real desembolsado. As conclusões invariavelmente assinalaram sua contribuição substantiva, ainda que minoritária, para a diminuição do Gini da renda domiciliar per capita, elegendo-o como a mais progressiva entre as transferências públicas brasileiras (BARROS; CARVALHO; FRANCO, 2007; HOFFMANN, 2006; HOFFMANN, 2013;SOARES et al.,2007;SOARES et al.,2009;SOARES et al.,2010b). Em grau menor, os efeitos indiretos do salário mínimo via Benefício de Prestação Continuada (BPC)14 e
Previdência Social também foram considerados progressivos, contribuindo para reduzir a desigualdade, com efetividade muito mais baixa que a do PBF (BARROS, 2007).
O Brasil não foi o único país a conjugar crescimento e redistribuição nos anos 2000; muitos países latino-americanos viveram a mesma tendência. Entre 2000 e 2010, o PIB per capita nos principais países da região teve aumento real de 22%, mais do que o dobro da Europa Ocidental e dos países anglófonos desenvolvidos, revertendo a relação observada nos anos 1980 e 1990.15 Lopez-Calva e Lustig (2010) observaram que o Gini
13 Um aspecto pouco estudado do período recente diz respeito aos efeitos do crescimento do número
médio de empregados por estabelecimento sobre a desigualdade. Corseuil, Moura e Ramos (2009) identificaram o fenômeno e confirmaram que esse aumento generalizado do tamanho médio contribuiu decisivamente para a expansão do emprego formal nos anos 2000, revertendo a influência negativa observada entre 1995 e 1999.
14 O BPC é um benefício constitucional mensal indexado ao salário mínimo pago indivíduos portadores
de deficiência e idosos cuja renda per capita mensal está abaixo de 1/4 de salário mínimo.
caiu em 12 de 17 países da região entre 2000 e 2006 e atribuíram o fenômeno aos mesmos fatores destacados pela literatura nacional: compressão dos diferenciais salariais associados à escolaridade em função da expansão educacional e criação e/ou expansão dos programas de transferência de renda para os mais pobres.
Logo, o Brasil e a América Latina passaram de patinhos feios a vedetes no combate à desigualdade. O otimismo da comunidade acadêmica era palpável. Por exemplo, há alguns anos escrevi, para um público estrangeiro, uma análise essencialmente benevolente das tendências da desigualdade, pobreza e proteção social no Brasil, não obstante o reconheci- mento de que ainda havia um longo caminho a seguir e de que provavelmente o crescimento econômico no curto prazo perderia o gás (SOUZA, 2012).Soares (2008, p. 16) especulou que podíamos “estar no início de uma revolução no nosso padrão civilizatório”, projetando que, se o ritmo fosse mantido, o Brasil atingiria níveis americanos de desigualdade em uma década e chegaria ao patamar canadense em pouco menos de 25 anos. Ao comparar a evolução do Gini no Brasil com dados históricos esparsos para a Europa e América do Norte, Soares concluiu que nosso ritmo de redução da desigualdade era adequado e que o grande desafio seria mantê-lo por mais 20 ou 30 anos.
Os avanços empíricos incentivaram reinterpretações teóricas mais amplas sobre a trajetória de longo prazo do Brasil. Alston et al. (2013), Arretche (2016), Singer (2012) e outros procuraram dar sentido a esses acontecimentos por meio de abordagens histo- ricamente enraizadas e teoricamente orientadas para a dinâmica institucional brasileira. Cada um o fez à sua maneira; em comum, havia a crença na possibilidade iminente de desenvolvimento. O capítulo 6 dialoga diretamente com alguns desses autores. Por ora, vale apenas notar como o contraste entre esse otimismo e o pessimismo de países ricos operou por cima de uma concordância quanto ao lugar central do Estado e das políticas públicas.
Em retrospecto, é fácil ver que o otimismo que à época parecia tão justificável era exagerado. As comparações internacionais históricas estavam claramente influenciadas pela narrativa kuznetsiana de melhorias graduais na distribuição de renda. Só com o trabalho de Piketty e afins conclusões antigas voltaram à tona: mesmo nos países ricos, a queda da concentração no topo foi abrupta e catastrófica, não havendo registros claros de países que caminharam devagar e sempre rumo a sociedades igualitárias.
A metanarrativa da queda da desigualdade e a confiança no aperfeiçoamento contí- nuo das nossas instituições obscureceu a literatura que apontava o caráter relativamente marginal das mudanças nas políticas públicas e a regressividade de algumas transferências sociais. Há muitos anos, Rodolfo Hoffmann (2003, 2004, 2009) vem chamando a atenção para a Previdência Social – maior gasto da União – e para os efeitos distributivos do
Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, Uruguai e Venezuela. Apesar dos bons números, o crescimento agregado nesses oito países foi inferior à média mundial (29%) devido ao desempenho excepcional dos países asiáticos, cujo PIB per capita teve crescimento real de 66% na década.
tratamento privilegiado historicamente concedido a funcionários públicos. Apesar das re-