2. Pressupostos Teóricos
2.4. Metáfora e discurso
2.4.1. A metáfora nova na constituição do discurso jornalístico
2.4.1.1. A questão da deliberalidade da metáfora nova
Ainda no que tange à compreensão da ―metáfora nova‖, Gibbs (2011) chama a atenção para o fato de muitos estudiosos do assunto acreditarem que ―certas expressões metafóricas que podem ser notadas no discurso e na escrita podem ser propositalmente formuladas, e empregadas conscientemente para propósitos retóricos especiais‖ (GIBBS, 2011, p. 26)(37).
Para essa questão, o autor promove uma interlocução com outros teóricos da metáfora (DEIGNAN, 2011; MÜLLER, 2011; STEEN, 2011) a fim de problematizar o caráter proposital da metáfora criativa, em detrimento de uma suposta ―automaticidade‖ da metáfora convencional.
A concepção de Gibbs (2011) acerca da deliberalidade( 38 ) da metáfora nova ou criativa, diferentemente da crença tradicional, baseia-se na hipótese de que o processo de produção e uso de uma metáfora dessa natureza não é meramente ―proposital‖ e, por isso, não pode ser essencialmente diferente de outras formas de linguagem metafórica.
Contrariamente à visão popular, que entende a metáfora criativa como ―deliberada‖ e ―proposital‖, Gibbs acredita que, baseado no ponto-de-vista psicológico, há sempre algum processo inconsciente que produz a metáfora nova. Segundo ele, quando usamos esse tipo de tropo, também não sabemos por que o fazemos e essa observação parece ser um indício da existência de tal processo.
Para Gibbs (2011), os julgamentos sobre o caráter proposital da metáfora não refletem necessariamente os processos cognitivos subjacentes usados em sua interpretação. Isso significa dizer que não temos total domínio sobre a escolha de nossas palavras, sendo essas
(37)Texto original: certain notable metaphorical expressions in speech and writing may have been deliberately
composed, and quite consciously employed for their special rhetorical purposes[….].
decisões baseadas em um grupo complexo de fatores inconscientes que abrangem processos fisiológicos, cognitivos, linguísticos e socioculturais.
Portanto, não há como atestar a deliberalidade da metáfora devido à teia complexa de fatores que interferem em sua constituição, o que leva Gibbs (2011) a afirmar que ―a metáfora [nova] pode ser uma concepção teórica e metodológica sem muita substância‖ (GIBBS, 2011, p. 49). Daí a dificuldade, segundo ele, em categorizar certas expressões e ações em ―deliberadas‖ e ―não-deliberadas‖.
Sobre a deliberalidade da metáfora criativa, Deignan (2011) questiona a proposição cognitiva de Gibbs, que julga simplista, já que, segundo a autora, a linguagem também representa um campo referencial capaz de oferecer subsídios para se compreender essa questão. Ainda conforme Deignan (2011), da perspectiva da cognição, as metáforas novas são consideradas um fenômeno especial e isolado ao passo que, do ponto-de-vista da linguagem, a diferença entre criativa e convencional segue o princípio da língua em uso. Portanto, assim como acontece na linguagem do dia-a-dia, a metáfora nova é considerada um exemplo do princípio da escolha aberta e proposital, enquanto que a convencional, um indício de idiomaticidade, apoiada no uso corrente da língua.
Apesar de Gibbs (2011) não concordar com as dicotomias propostas pela tradição nos estudos da metáfora (nova vs. velha, criativa vs. convencional, viva vs. morta), Müller (2011) entende que o autor, na sua forma de tratar a deliberalidade metafórica, ainda está, de certa forma, arraigado a questões dicotômicas. Para a autora, ele ainda estaria preso a paradigmas estáticos que vão de encontro à sua visão dinâmica de metáfora. Conforme defende a autora, a pesquisa sobre metáfora tende a ser dinâmica e não deve estar atrelada a paradigmas estáticos como ―nova‖ versus ―convencional‖, ―viva‖ versus ―morta‖, ―deliberada‖ versus ―não-deliberada‖, como normalmente acontece.
De acordo com Müller (2011), as metáforas são ativadas dinamicamente, obedecendo-se ao pré-requisito da transparência, ou seja, quando ―o seu sentido ‗literal‘ está potencialmente disponível a um falante mediano‖ (MÜLLER, 2011, p. 62)(39). Assim sendo, segundo a autora,
a ativação do processo de criação da metáfora ultrapassa os limites da ―deliberalidade‖ ou ―consciência‖ por envolver aspectos cognitivos, afetivos e interativos. Para ela, as pessoas usam as expressões metafóricas de modo dinâmico, ficando a distinção entre ―deliberado‖ e ―não deliberado‖ atrelada a uma questão de nível e não de categoria. Partindo dessa concepção, Müller (2011) entende os conceitos deliberado/consciente e não deliberado/inconsciente, como polos opostos de uma escala dinâmica de produção de metáfora, sendo esta mais ativada em um contexto que em outro.
Ainda sobre a posição de Gibbs acerca da deliberalidade da metáfora nova, Steen (2011) concorda com o fato de que se deve avançar na discussão da natureza e até da existência desse tipo de metáfora. Entretanto, a sua visão se distancia da proposta por Gibbs, por não concordar que a metáfora nova contraste com a convencional, conforme postulam todos os demais pesquisadores (Gibbs, Deignan e Müller).
Para Steen, ―nova‖ e ―convencional‖, ―deliberada‖ e ―não deliberada‖ pertencem a dimensões diferentes: as primeiras são estruturas conceptuais que dizem respeito à metáfora no nível do pensamento, ao passo que as demais, estão no nível da comunicação (STEEN, 2008).
Buscando aprofundar a discussão, Steen (2011) usa como exemplo a conceptualização do sistema político como uma família cujo pai é o provedor. Segundo o pesquisador, esse é um caso de mapeamento convencional (o pai como provedor da família) na produção de uma metáfora nova (o sistema político como provedor do povo).
Sendo assim, para Steen (2011), é possível compreender que tanto a metáfora nova quanto a convencional podem ser utilizadas propositalmente na comunicação com o mesmo objetivo: mudar a perspectiva do receptor da mensagem em relação ao domínio alvo o que, de certa forma, está em consonância com a fundamentação de Gibbs acerca da função comunicativa na produção de manchetes de jornais. De acordo com essa premissa, a questão da deliberalidade metafórica parece ter um caráter puramente comunicativo e não cognitivo.
Baseado em trabalhos de alguns psicolinguistas, Steen (2011) acredita que o único meio de distinguir uma metáfora deliberada de outra não deliberada se dá no momento em que, paradoxalmente, a ―metáfora verbal é processada por comparação ou categorização ou mesmo
pela quebra da ambiguidade lexical‖ (STEEN, 2011, p. 54) ( 40 ). Para ele, através dessa comparação, reforça-se a hipótese sobre o processo consciente de formação de uma metáfora dita ―proposital‖, embora não se possa descartar os processos inconscientes que atuam na sua produção, assegurando, assim como advoga Gibbs, o fato de o falante não conseguir ter total controle sobre ela.
Como se pode observar, a hipótese cognitiva acerca da deliberalidade da metáfora nova, fundamentada por Gibbs (2011), é questionada por alguns pesquisadores, embora haja alguns pontos de contato. De fato, parece existir uma confluência de paradigmas – cognitivo, linguístico, comunicativo e psicolinguístico – na tentativa de se construir uma teoria que dê conta das sutilezas que envolvem a questão.
Para esta pesquisa, levando-se em consideração a questão do propósito comunicativo do corpus investigado (cf. seção 3.1.), e com base nos textos de Gibbs (2011), Deignan (2011), Müller (2011) e Steen (2011), entendemos a metáfora nova como uma produção que traz no seu âmago uma função retórica específica, resultado de uma escolha aberta dinâmica sem, necessariamente, que o jornalista tenha pleno controle de todos os processos mentais envolvidos na criação da metáfora.
Porém, apesar da impossibilidade de se identificar plenamente a deliberalidade ou não do uso da metáfora, por conta do dinamismo da ação discursiva, defendemos a posição de Gibbs (2011) de que, dentre os poucos casos encontrados de uso claramente deliberado de metáforas criativas, a produção de manchetes parece indicar uma indiscutível deliberalidade da metáfora criativa em função de esse gênero discursivo ter uma função retórica específica, o que permite ao jornalista exercer certo controle no processo criativo. De acordo com Gibbs (2011), esse profissional conhece os recursos necessários para produção do efeito de sentido desejado, assim como os recursos retóricos que fazem com que os leitores realizem as associações entre os domínios. E acrescenta que o jornalista tem a habilidade de, por exemplo,
(40) Texto Original: [...] the main issue is when a verbal metaphor is processed by comparison or categorization,
conhecer que ações literais podem ser metaforicamente usadas para se referir à ideia de derrota, através do humor, levando os leitores às gargalhadas por conta dos trocadilhos. Na verdade, uma das tarefas explícitas dos redatores de manchetes é conseguir atrair leitores tanto para os artigos quanto para o jornal por meio de frases de efeito. Escrever manchetes deve certamente ser o caso de pessoas que deliberadamente criam metáforas, e outros artifícios retóricos, que exigem dos leitores as comparações entre os domínios, e a apreciação dos prazeres estéticos em tais comparações (GIBBS, 2011, p. 28) (41).
Na citação acima, Gibbs parece estar se referido à produção de manchetes e jornais de um modo geral. Em se tratando do Meia Hora, partimos da hipótese, a ser investigada na análise desenvolvida no capitulo 4, de que a deliberalidade em manchetes é ainda mais evidente, pois, como já dito anteriormente, a função metalinguística do discurso é exacerbada para que esse produza um certo estranhamento e ao mesmo tempo, e talvez principalmente, efeitos de humor para atrair seu público leitor.