2. Pressupostos Teóricos
3.2. O conceito de humor
3.2.1. A relação entre humor e metáfora nas capas do Meia Hora
3.2.1.1. A irreverentes capas do Meia Hora
3.2.1.1.1. O modus operandi peculiar do Meia Hora e a cultura de ―massa‖
Conforme apontado, na introdução desta investigação, nosso interesse pelo estudo das manchetes e chamadas do Meia Hora teve origem na maneira considerada jocosa e, ao mesmo tempo, sexista com que o periódico, considerado ―popular (...) voltado pro público popular‖ (SANTOS, 2013, anexos) pelo próprio editor-chefe, usa expressões linguísticas metafóricas para abordar notícias sobre a mulher.
Essas expressões, em geral, são de baixo calão e ilustram notícias, tratadas com superficialidade, para atender a demanda de seu público-alvo(83): informação com abordagem simplista, rápida e divertida. Tal propósito comunicativo, na ―contramão‖ dos jornais de referência, denuncia que, em tese, o público-alvo, como mencionado anteriormente, seja formado por pessoas pertencentes às classes C e D com baixo nível de escolaridadee com pouco tempo para ler – o que explica o nome Meia Hora de Notícias, sendo vendido por ambulantes nas ruas, ônibus e trens da cidade do Rio de Janeiro, ou seja, segundo o próprio
(82) Sobre a questão do jornalismo massivo, ver o trabalho de Bernardes (2004).
(83)
Apesar de o público-alvo do Meia Hora poder ser considerado menos escolarizado, os leitores do jornal acionam naturalmente ferramentas cognitivas necessárias para a compreensão das chamadas e manchetes humoradas, construídas a partir de expressões linguísticas metafóricas que refletem as representações cognitivas da mulher na sociedade.
Tziolas, ―em meia hora o cara fica informado, ele pode ler a caminho do trabalho, numa condução, ele pode tá em pé e ler‖ (SANTOS, 2013, anexos).
De acordo com Akool et al (2009), o jornal foi lançado em 2005 com uma tiragem de 50 mil exemplares ao dia. Entretanto, segundo os autores, já alcança atualmente a marca de mais de 1 milhão de cópias semanais, estando entre os mais vendidos do estado, o que provavelmente deixa a crítica bastante surpresa pela popularidade que alcançou, promovendo na indústria jornalística uma corrida pela criação de outros tabloides que possam figurar como seus concorrentes (ibid).
É inquestionável que a lógica do seu sucesso está calcada em fatores que atendem à chamada cultura de ―massa‖ que os profissionais do jornalismo sabem bem manejar, a exemplo do que acontece com a capa ―enlutada‖ sobre a humilhante derrota do Brasil pela Alemanha, de 7x1, na Copa do Mundo de 2014:
Figura: 15 Fonte: www.meiahoraonline.com.br Publicação: 09/07/2014
Essa capa explicita a plena consciência metadiscursiva dos jornalistas acerca do objetivo principal desse gênero, no caso específico, a capa do Meia Hora: ―fazer graça‖ (Hoje não dá para fazer graça). O trecho final (Enquanto você lia isso [...]) revela, mais diretamente, esse compromisso com o humor, por meio de uma intervenção dialógica com o leitor (você lia), mesmo em um contexto supostamente ―de luto‖. Cabe ressaltar que essa capa ganhou o
prêmio Esso de Jornalismo por ser reconhecida como a melhor do jornalismo brasileiro em 2014. (84).
Essa ―deliberalidade‖ (GIBBS, 2011; STEEN, 2011) discursiva evidencia, também, que o editor-chefe e os jornalistas não se incluem nessa dita cultura popular já que, segundo Williams (1958), a ―massa‖ é sempre em relação ao outro e nunca a si próprio. Apesar disso, os jornalistas sabem como manobrá-la a fim de que o objetivo mercadológico seja alcançado, uma vez que não há pretensões de se criar formadores de opinião, nem a partir das manchetes ou chamadas que ilustram as capas do jornal, nem tão pouco das matérias que compõem as páginas internas do jornal. Assim sendo, por meio de muitos trocadilhos, metáforas e jogos de palavras, aliados ao baixo valor cobrado – atualmente um exemplar pode ser adquirido por R$ 1,00 –, o Meia Hora já conseguiu atrair uma legião de leitores de notícias tão ―descartáveis‖ quanto as suas páginas.
Mesmo com suas manchetes deliberadamente burlescas e suas matérias de qualidade questionável, o editor-chefe acredita que o jornal consegue contribuir para a formação intelectual do leitor pelo simples fato de ―dar a ele a oportunidade de ler algo pela primeira vez‖, como declara em entrevista concedida a Santos (2013):
Então eu vou te dar um dado maravilhoso pra isso que você tá falando (...) acho que é o MARPLAN que faz, que é do número de leitores das capitais do Brasil. Quando o Meia Hora surgiu, o Rio era terceiro lugar. E aí passou um tempo, depois que o Meia Hora foi lançado, e o Rio passou a ser o primeiro lugar do número de leitores de qualquer coisa, livro, jornal, revista, etc. E isso não é a gente que tá dizendo, é o MARPLAN que é um órgão sério. E um dos motivos pra isso é o lançamento do Meia Hora. É aquilo que eu te falei, 40%, 50% dos leitores do Meia Hora passaram a ler alguma coisa pela primeira vez com o surgimento do Meia Hora. Isso pra contribuir pra formação intelectual de alguém é uma coisa maravilhosa. A pessoa passa a ler alguma coisa na vida pela primeira vez porque apareceu alguma coisa que ela entendia. Essa pessoa não vai pegar a Folha de São Paulo, o Valor Econômico e vai ler... É uma porta de entrada. É uma coisa que até que orgulha a gente (SANTOS, 2013, anexos).
(84) Rio -Gol da Alemanha? Sabe de nada, inocente! É golaço do Meia Hora! O jornal mais lido do Rio, editado
pelo Grupo Ejesa, faturou o Prêmio Esso de Jornalismo na categoria Primeira Página com “Não vai ter capa‖, da edição publicada em 9 de julho, dia seguinte à tragédia da Seleção Brasileira, eliminada na semifinal da Copa do Mundo, dentro de casa, com o vexatório inesquecível massacre alemão por 7 a 1. O resultado da premiação, a mais importante do jornalismo brasileiro, foi divulgado esta quarta-feira (...). (http://www.meiahora.ig.com.br/noticias/meia-hora-ganha-o-esso_10173- acesso em 29/04/2015).
Apesar de não compartilhar o posicionamento de Tziolas sobre a suposta contribuição do Meia Hora para a formação intelectual de seus leitores, por razões já mencionadas, entendo que o jornal cumpra com dois de seus principais objetivos: o de entreter e o de informar, mesmo que superficialmente. Sendo assim, entendo que, ao contrário do que afirma Dejavite (2006 apud SANTOS, 2013), há uma tendência à superficialidade do jornalismo atual, essencialmente mercadológico, já que uma de suas maiores preocupações é a de atender aos interesses do público e, por isso, no caso do Meia Hora, a utilização do humor debochado e o apelo à erotização da mulher.
Em se tratando do periódico, caracterizado como uma mídia de infotenimento destinada a um público menos letrado, o uso excessivo de recursos visuais, em detrimento dos textuais, pode ser um indício da preocupação do corpo editorial com uma possível fidelização aos interesses de seu público. Tal comprometimento está em conformidade com o que aponta Charaudeau (2010) acerca do papel das mídias. No caso específico do tabloide, as escolhas das manchetes ―criam mais curiosidade do que conhecimento e, com isso, constituem uma máquina maravilhosa de alimentar as conversas dos indivíduos que vivem na sociedade‖ (CHARAUDEAU, 2010, p. 277), conversas essas informais que encontram espaço justamente nos meios de transporte de massa no caminho de casa para o trabalho.
Possivelmente, essa seja uma maneira nitidamente mercadológica de se criar e de se descartar significados. O humor e o linguajar despojado, presentes nos títulos das capas, representam uma chancela do periódico, evidenciando, dessa forma, uma preocupação maior em atrair o público leitor do que, propriamente, em ter a credibilidade da notícia em si. Assim, o Meia Hora parece ―inserir-se numa lógica comercial em que se justifica perfeitamente o relato com efeitos dramatizantes, mas sem nenhuma pretensão de informar‖ (CHARAUDEAU, 2010, p. 276), lógica essa que encontra eco nas declarações de Tziolas a Santos (2013):
Você acha que também é uma forma de ajudar nas vendas? Claro. Tudo que você faz num jornal ou qualquer outra empresa, você tá pensando em vendas. Claro, você não pode ultrapassar aí limites éticos, a verdade por conta de vendas, claro que não. Agora você não pode achar que é errado, como às vezes algumas pessoas... Não é o seu caso tá, mas de faculdade e tal e pensa ―Mas faz a manchete pra vender!‖. Claro! Como o cara que é dono de uma padaria tenta fazer o melhor pãozinho pra vender, ou o cara que tem uma loja de calça jeans, ele faz uma calça jeans legal pra vender. Você não pode é claro mentir, inventar alguma coisa pra vender, aí é outro conceito. Mas é óbvio que quando a gente faz uma manchete que fica legal, interessante, acaba vendendo mais. A gente tem que pensar nisso sempre, senão o jornal fecha. (...) O que não pode é mentir, inventar alguma coisa, forçar uma barra com o único intuito de vender. Aí claro que não, dou toda razão. Agora às vezes falam ―Ah, a
manchete é só pra vender!‖. É claro que é pra vender, se a manchete for legítima, verdadeira, que mal tem isso? (SANTOS, 2013, anexos)
Ainda no tocante ao termo ―informar‖, no dizer de Charaudeau (2010), este parece ter um sentido mais stricto, na medida em que, para ele, a informação só se concretiza se houver ―credibilidade e profundidade‖. Essa percepção do termo pode ser um caminho para se evitar uma contradição em relação ao seu sentido mais genérico, que prevê e legitima qualquer veiculação precária e superficial de um acontecimento, em forma de notícia, como um tipo de informação.
Assim, no sentido mais lato do termo ―informar‖, o Meia Hora reúne notícias que abrangem o cotidiano da população supostamente assalariada. Chamadas e manchetes com a recorrente tríade ―mulher-violência-futebol‖ revelam a fórmula infalível que levou o Meia Hora a ser alvo de estudo acadêmico (MORAES e SAYÃO, 2010; OLIVEIRA SANTOS, 2013; MENEZES e COSTA, 2014)(85)pela maneira como, no caso da presente pesquisa, a mulher é construída por meio de metáforas, muitas vezes criativas, mesmo que licenciadas por metáforas conceptuais. O universo feminino é, então, conceptualizado com base em padrões socioculturais e ideológicos, e refletido no discurso por meio de metáforas linguísticas.
Ainda sobre o formato do Meia Hora, segundo Akool et al (2009), suas seções são, basicamente, de prestações de serviço e de oportunidades de emprego. As promoções, em geral, referem-se a utensílios domésticos. As notícias acerca de celebridades, por sua vez, são sempre captadas de canais abertos de TV e nunca de canais por assinatura. E as propagandas referem-se a supermercados, fazendo menção a ofertas, ou a lojas de departamento populares. Há também, nas 44 páginas do tabloide, seções de entretenimento que contêm palavras cruzadas, jogos e piadas, além de horóscopo.
(85) Em seu trabalho, Moraes e Sayão (2010) buscam analisar o jornal Meia Hora, investigando de que maneira
esse veículo de comunicação pode contribuir para a perpetuação dos estereótipos das comunidades carentes do Rio de Janeiro. Oliveira Santos (2013), em sua tese de doutorado, analisa textos verbais (chamadas e manchetes) e não verbais das capas do Meia Hora e de ―O Globo‖, problematizando questões de natureza verbal e não verbal, fundamentadas em teorias da Psicologia Social, da Linguística de Texto e da Comunicação Social. Já Menezes e Costa (2014), em seu artigo, investigam a construção do título de uma manchete do Meia Hora, propondo uma reflexão de como uma relação intertextual, já no título, pode adicionar sentidos e orientar o texto argumentativamente.
Mais uma vez, a maneira ―dispersa e pouco visível‖ (CHARAUDEAU, 2010, p. 146) com que as diferentes seções estão distribuídas ao longo das poucas páginas do jornal revela o seu formato despretensioso em relação à lapidação da notícia junto a outras fontes, como dita a praxe do jornalismo. Sendo assim, ele cumpre com o seu principal objetivo: a veiculação de notícias áridas que, por vezes, são transformadas em piadas a um preço suficientemente acessível para torná-lo descartável depois de Meia Hora de leitura.