5- Políticas de Equidade de Gênero no Brasil
6.3 A questão da maternidade e suas incumbências
A maternidade, a reprodução da população e o cuidado da vida são pontos importantes referidos, tanto nas políticas públicas para as mulheres, como nos relatórios brasileiros para a CEDAW. Podemos perceber através das medidas legislativas brasileiras nos últimos 30 anos
73 Segundo dados do IBGE 2000 37% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres; 31 % em Porto Alegre 42% em Salvador (2005)
medidas protetivas especiais para as mulheres trabalhadoras, teoricamente74 garantindo a estas mulheres - sublinho para as trabalhadoras dos setores formais da economia - uma série de direitos e benefícios sociais relacionados à maternidade. Assim, temos na constituição brasileira de 1988 a premissa de proteção às mulheres no que se refere à gravidez, a licença maternidade e a demissão sem justa causa. No código laboral brasileiro, tais medidas protetivas reverberam através do salário maternidade75e da própria discriminação76 fundamentada no gênero.
Tendo esses elementos em consideração, acredito ser importante desenvolver um olhar crítico em direção a esses mecanismos legislativos que protegem as mulheres a partir do advento da maternidade. É importante frisar que esses “grandes avanços” na legislação brasileira, principalmente no que se refere ao código laboral brasileiro, seguem algumas das premissas biopolíticas, visto que no interior desses discursos percebemos a clara conexão entre mulheres, maternidade e seu papel reprodutor. Primeiramente, não tenho dúvidas a respeito dos benefícios adquiridos através dessas medidas protetivas para as mulheres trabalhadoras e mães, dado que não podemos negar o claro progresso que esses mecanismos representam na vida e na qualidade da mesma para estas mulheres. No entanto, vemos novamente que a intervenção do Estado se alia às premissas de governamentalidade biopolítica á medida em que protege fortemente a capacidade de produção e reprodução da população, naturalizando/protegendo dessa maneira a relação entre mulheres trabalho e maternidade (através de seus direitos).
Partindo dessas considerações, podemos perceber que o Estado, através da sua racionalidade biopolítica, estende suas intervenções no limite que assegura a proteção e regularização da função reprodutiva das mulheres. Portanto, vislumbramos certa tendência utilitarista dessas medidas que protegem o papel da maternidade da mulher. Sendo assim, os interesses do Estado e das mulheres parece somente convergir na questão da reprodução. Em outras palavras, esta eficiente proteção através de uma maquinaria legislativa realmente potente, que não se coloca da mesma maneira em outros âmbitos tais como a segregação ocupacional feminina e/ou a discriminação salarial sofrida pelas mulheres o mercado laboral,
74 As consequências da maternidade para as mulheres na inserção das mesmas junto ao mercado de trabalho será analisada conjuntamente no capitulo subsequente.
75 CLT.lei 8,861 25 Março 1994 76 CLT.lei 9,029 13 Abril 1995
demonstra os implícitos mecanismos “racistas77” do Estado, que não se centra exclusivamente na promoção de dignidade laboral para as mulheres, mas sim na proteção das necessidades do Estado: o crescimento/manutenção da população. Assim, o Estado interfere no limite em que a atividade produtiva pode prejudicar a reprodução das mulheres, visto que suas ações se limitam “coincidentemente” a premissa de crescimento/manutenção populacional, “mesmo quando” as mulheres são trabalhadoras. Portanto, vemos novamente a norma da mulher cuidadora, aqui reprodutora despontando no conjunto dessas medidas protetivas que visam a não somente a proteção da função reprodutiva da mulher, mas também uma inserção laboral compatível com essa função social que historicamente e culturalmente se constitui a maternidade.
No interior dessa racionalidade normalizadora de Estado, percebe-se a formação de estruturas legislativas reais (e benéficas) que visam não somente a incorporação feminina ao mercado de trabalho, mas também a proteção das mesmas em relação as desigualdades produzidas no universo laboral através do advento da maternidade. Neste ponto, me interessa discutir de que modo as políticas de equidade de gênero no Brasil incorporam em sua rede discursiva as dimensões referentes ao peso do labor dos cuidados e da maternidade para as mulheres brasileiras no contexto produtivo. Para isso, vejo a necessidade de analisar algumas das soluções propostas por essas políticas no que concerne o impasse da sobrecarga do trabalho reprodutivo, principalmente em relação às incumbências da maternidade.
É interessante perceber os mecanismos que guiam tais discursos. A questão da maternidade e a discriminação percebida pelas mulheres em função de sua capacidade reprodutiva emerge como um problema real baseado na desigualdade de gênero. Assim, a função social exercida pelas mulheres através da maternidade é reafirmada pela rede enunciativa das políticas públicas. No entanto, tal problema toma forma nos discursos referentes às dinâmicas produtivas de trabalho; configurando-se assim como um problema para a organização laboral resolver (através da flexibilização das jornadas de trabalho); convertendo-se em uma questão para o próprio Estado dar conta (através da criação de uma maquinaria capaz de ajudar as mulheres a conciliar maternidade e trabalho produtivo) ou ainda se constituindo como um problema privado (onde o sujeito terá que usar mão dos
77 A noção de racismo de Estado se relaciona a concepção anteriormente referida de racismo de Estado, este que não se conecta diretamente aos domínios étnicos e/ou culturais; mas sim as regras que definem a inteligibilidade de certa cidadã, certo cidadão: o sujeito normal do sujeito anormal, aberrante. A cesura promovida pelos mecanismos Biopolíticos na população
serviços privados para garantir o Bem Estar dos/as descendentes). Assim, percebemos que tais premissas, mesmo tendo em consideração a desigualdade de gênero em função da condição reprodutiva da mulher, não questiona especificamente as atribuições da maternidade e dos cuidados dentro da organização dos regimes sociais, expondo novamente a mulher mãe/ cuidadora como norma do feminino. Dessa maneira, mesmo o trabalho se configurando nos discursos atuais sobre igualdade de gênero como um elemento indispensável para emancipação e a diminuição de iniqüidades, este ao mesmo imprime outras lógicas de negociação nada igualitárias para as mulheres com filhas (os).