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5- Políticas de Equidade de Gênero no Brasil

6.1 O trabalho reprodutivo e a norma da mulher cuidadora

Primeiramente, é importante ressaltar que a problemática do trabalho reprodutivo, que recai especialmente sob as mulheres, é presente em todos os documentos referidos. Pessoalmente, vejo tal balanço com muito entusiasmo, já que este fato lança visibilidade a um “problema” muitas vezes tomado como “privado”. Acredito que este passo represente sim uma acessão real de alguns dos enunciados feministas ligados às dinâmicas de intervenção do Estado; sobretudo através da incorporação do princípio “o pessoal é também político” nas políticas públicas de igualdade de gênero no país. No entanto, é necessário abordar de que modo tal temática realmente figura em tais políticas, visto que analisando os discursos produzidos em tais políticas é ainda possível notar algumas incoerências e a consequente produção de determinadas subjetividade(s) “homogeneizadas” para as mulheres brasileiras – sobretudo na esfera do trabalho reprodutivo.

Por vezes, a discussão é um tanto generalista e tímida - principalmente no caso do artigo onze da CEDAW e seus subsequentes relatórios brasileiros. Apesar dessa ressalva, tal questão

é tomada como importante e provida de sua real dimensão política em todos os documentos analisados. O trabalho reprodutivo emerge como um problema real das mulheres brasileiras, capaz de impedir o avanço feminino dentro das hierarquias laborais (no que condiz ao setor produtivo). Dessa maneira, as políticas públicas de equidade de gênero no Brasil entendem que, á medida em que a carga do trabalho relativa ao cuidado é localizada quase que exclusivamente sob a responsabilidade das mulheres, esta carga irá produzir diferenças consideráveis no que concerne às desigualdades de gênero no mundo do trabalho, prejudicando assim a incorporação igualitária das mulheres no mercado de trabalho produtivo. Sendo assim, as políticas referidas levam em consideração as responsabilidades femininas no âmbito doméstico e nas tarefas de cuidados, dessa maneira, o corpus de análise faz menção direta às consequências dessa carga na inserção da mulher no mercado de trabalho brasileiro, explicitando claramente o peso da dupla jornada feminina na carreira produtiva das mesmas. Portanto, o trabalho doméstico é entendido como um fator chave capaz de impedir às mulheres uma ascensão a postos melhor qualificados e localizados no topo da hierarquia laboral; com isso, essas políticas compreendem claramente que “fazer gênero” através das incumbências do trabalho reprodutivo produz claras desigualdades no contexto do trabalho produtivo.

No entanto, mesmo com esse claro reconhecimento das consequências produzidas através da carga do trabalho reprodutivo na vida laboral das mulheres tal problemática é apresentada de forma normatizada, visto que não há uma desestabilização dos regimes de gênero que definem o papel da mulher como provedora primária de cuidados. Nos documentos analisados é possível perceber certa reafirmação das normas de gênero, principalmente no que concerne à função cuidadora e reprodutiva da mulher. Sendo assim, a mulher cuidadora emerge como norma nos discursos produzidos através dessas políticas, dado que em nenhum momento os documentos apresentam a intenção e/ou proposta de desafiar a norma de gênero que invariavelmente alia a mulher ao trabalho reprodutivo, ao trabalho dos cuidados e da reprodução da vida. Entendendo gênero como uma norma performativa, de atuação, intensa reiteração/citação e interpelação pela regra (de gênero), assim, percebo que as referidas políticas reafirmam e reforçam o papel cuidador e reprodutor da mulher no interior de suas tramas discursivas, designando assim a formação de subjetividade(s) femininas conectadas às premissas de cuidado e de proteção à família.

É interessante perceber que, por vezes, o papel da mulher cuidadora inclusive se sobrepõe à função da mulher trabalhadora no mercado produtivo. Sendo assim, o papel tradicional da mulher na esfera privada é mantido e reforçado de certo modo. Neste ponto, é importante ressaltar que, além de não desafiar a norma de gênero, estas políticas definem à priori que tal problema seria em essência um problema feminino, visto que tais questões referentes às responsabilidades do trabalho reprodutivo afetariam exclusivamente as mulheres. Podemos perceber tais concepções através do seguinte recorte:

Nevertheless, the constant need to combine professional and family roles, which depends on a complex association of personal and family features, restricts the availability of women for work. The marital status and the presence of children, associated with the age and schooling level of the workingwomen; the characteristics of the family group, such as the life cycle (developing families with small children, mature families, adolescent children, older families, etc.) and the family structure (conjugal family, family headed by women, family expanded by the presence of other relatives, etc.) are factors that always pervade women’s decision to enter the labor market and stay therein, although the economic need and the availability of jobs play a fundamental role. The important thing to bear in mind is that the work of women depends not only on the market demand on women’s needs and qualifications to meet such demand, but also on a complex and constantly changing combination of the aforementioned factors, which, and this should be stressed, do not affect the movements of male labor. Relatório brasileiro para a CEDAW(2003, p138)

Sendo assim, o balanço entre vida laboral produtiva e vida laboral reprodutiva é posto como um problema, uma exclusividade das mulheres. A causa implícita da divisão sexual do trabalho na esfera privada não é em nenhum momento abordada no corpus de análise pesquisado, assim vislumbramos claramente a naturalização do papel cuidador das mulheres através das propostas das políticas de equidade de gênero, visto que esta função não é desafiada, discutida repensada, ao contrário é dada como natural, quiçá imutável, reforçando assim os imaginários culturais sobre o que é considerado como o “feminino”. O que vemos é um diagnóstico baseado nas consequências desiguais no mundo do trabalho produzidas através da norma dos cuidados designada exclusivamente para as mulheres. Tais discursos não somente normalizam a mulher como cuidadora, mas também excluem totalmente a

participação dos homens na realização das tarefas do cuidado e da reprodução da vida, dado que em todos os documentos analisados, não se faz referência clara e contundente da presença masculina no desenvolvimento destas tarefas. Portanto, o discurso por de trás dessas políticas acabam por designar o cuidado como um problema das mulheres, sem incluir conjuntamente os homens. Como consequência, estas políticas evitam uma discussão em relação às hierarquias de gênero na esfera privada, dessa maneira, não se problematiza seriamente as relações de poder desiguais que caracterizam a estruturação social, nas estruturas de convivência como a família por exemplo.

Nos documentos analisados, uma das estratégias para a solução do problema “dos cuidados” se restringe à estimulação da divisão das tarefas domésticas. Este enunciado/ solução nos remete a primeira conferência internacional da mulher sediada na cidade do México em 1975, visto que temos logo preâmbulo deste encontro o seguinte enunciado: “sharing family responsibilities for the promotor of true equality at work”. Esta estratégia figura como prioridade tanto no IPNPM como no IIPNPM. No entanto, não é possível entender quem seriam os atores envolvidos nesse processo de motivação a realização do trabalho reprodutivo; seriam filhas, filhos, marido, membros da família estendida? Realmente é difícil decifrar o público alvo das campanhas68 de estímulo à divisão das tarefas domésticas, visto que nada é explicitado no projeto brasileiro das políticas para as mulheres.

Consequentemente, aliada a essa estratégia de valorização do trabalho doméstico desempenhado pelas mulheres temos no IPNPM69 o enunciado da valorização dos trabalhos considerados femininos através de campanhas de conscientização. O trabalho doméstico é tomado novamente a priori como feminino, restando como estratégia única a valorização e a “conscientização” desses trabalhos. Neste ponto, podemos vislumbrar novamente como a norma de gênero se alia à produção dos discursos destas políticas, visto que as noções relacionadas a “valorização dos trabalhos femininos” não propõem novos arranjos, novas representações culturais sobre o feminino e o masculino que desafiem as regras de gênero.

Além disso, refletindo sobre a normatização dos cuidados e o que é entendido como “o feminino” dentro das tramas discursivas dessas políticas, é importante ressaltar que a própria problemática do trabalho reprodutivo surge praticamente restrita às mulheres trabalhadoras na

68 IPNPM, IIPNPM1.4 Realizar campanhas de estímulo à divisão das tarefas domésticas.

esfera pública/produtiva. O problema do trabalho reprodutivo é circunscrito somente a partir das consequências negativas do mesmo, estas produzidas na inserção (e falta de) ascensão laboral das mulheres. Esta delimitação produz importantes consequências, visto que a necessidade de contrabalançar a vida produtiva com a vida reprodutiva entrará na rede de discursos referentes a “empregabilidade” das mulheres. Sendo assim, a problemática do trabalho doméstico e dos cuidados é cooptada pela lógica do trabalho, esta dominada pela racionalidade das prioridades econômicas dominantes. Portanto, o trabalho reprodutivo (entendido nestas políticas como restrito as mulheres), emerge sempre acompanhado da figura da mulher trabalhadora, não sendo expandido ao conjunto total da população feminina brasileira - que também necessariamente desenvolve este trabalho. Com isso, temos novamente o desenho do problema restringido às mulheres inseridas no mercado de trabalho e não às demais mulheres que realizam quotidianamente tais tarefas, seja na manutenção da vida, dos cuidados ou mesmo realizando tarefas referentes à subsistência familiar.

María Bustelo e Emanuela Lombardo (2006) percebem a mesma dinâmica no contexto das políticas de igualdade de gênero e conciliação de vida laboral e vida reprodutiva na Espanha durante a última década. Segundo as autoras, restringido os enunciados sobre a conciliação ao grupo de mulheres trabalhadoras estas políticas produzem uma exclusão dos grupos sociais com mais dificuldade de conseguirem autonomia econômica, como as donas de casa, as desempregadas etc. Com isso, à medida que se constrói o problema através da delimitação de um determinado grupo de mulheres, estas políticas não consideram os percalços vivenciados pelas mulheres não inseridas no mercado. Portanto, o Bem Estar e os serviços produzidos pelas mulheres cuja atividade esta restrita à esfera reprodutiva não é reconhecido como motor de desigualdades em si, visto que a problemática do trabalho doméstico emerge somente á medida que o mesmo prejudica a vida laboral das mulheres trabalhadoras na esfera pública.