CAPÍTULO 1 – O Fenômeno da Integração Regional e o Desenvolvimento Sustentável: Noções Introdutórias
1.2 Elementos do Processo de Desenvolvimento Sustentável
1.2.3 A Questão da Sustentabilidade do Desenvolvimento
Apesar da existência de uma preocupação ecopolítica desde a aurora dos tempos, só, recentemente, o mundo despertou para a problemática da sustentabilidade do desenvolvimento. A nova consciência a esse respeito se iniciou com um debate na década de 1970, em Estocolmo, aprofundando-se 20 anos mais tarde no Rio de Janeiro, consolidando-se em Johanesburgo em 2002, trazendo para dentro do conceito de desenvolvimento a questão do meio ambiente e da pobreza, o que não havia acontecido até aquele momento.
A sustentabilidade, de acordo com José Renato Nalini, constitui novo projeto social, fundamentado na consciência crítica da existência de um propósito estratégico destinado à construção do futuro216 e que o mesmo seja melhor para todos os organismos vivos. Nesse projeto, os seres humanos são partes essenciais do processo de desenvolvimento, o que traduz uma outra forma de desenvolvimento, que seja, segundo Roberto Pereira Guimarães, “ambientalmente sustentável no acesso e no uso dos recursos naturais e na preservação da biodiversidade; socialmente sustentável na redução da pobreza e das desigualdades sociais e promotor da justiça e da equidade; culturalmente sustentável na conservação do sistema de valores, práticas e símbolos de identidade [...].”217
Adverte ainda, o autor, sobre a necessidade da permanência de sua evolução e reatualização através dos tempos, devendo apresentar-se politicamente sustentável ao aprofundar a democracia e garantir o acesso e a participação de todos nas decisões de ordem pública.218
216
NALINI, José Renato. Ética ambiental. 2 ed. Campinas: Millennium, 2003, p. 145.
217
GUIMARÃES, Roberto Pereira. A ética da sustentabilidade e a formulação de políticas de desenvolvimento. In: Gilney Viana, Marina Silva e Nilo Diniz (Orgs.). O desafio da sustentabilidade: um debate socioambiental no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2001, p. 56.
218
Segundo Guimarães, tal forma de desenvolvimento se direciona para uma nova ética do desenvolvimento, na qual os objetivos econômicos são subordinados às leis de funcionamento dos sistemas naturais e critérios de respeito à dignidade humana e de melhoria de vida das pessoas.219
Nos ensinamentos de Clóvis Cavalcanti, uma economia só é sustentável quando observar dois critérios: o ambiental e o ético. O primeiro apresenta o que pode ser feito do ponto de vista biofísico e, o segundo, revela o que é permitido fazer na ótica moral.220
A nova filosofia de desenvolvimento – contrariamente à anterior, fundamentada no crescimento ilimitado dos recursos –, fixa um limite ecológico intemporal muito claro ao processo de crescimento econômico; requer uma mudança qualitativa na qualidade de vida e felicidade das pessoas (incluindo as dimensões sociais, culturais, estéticas e de satisfação de necessidades materiais e espirituais); prega a necessidade de preservar a integridade dos processos naturais que garantem os fluxos de energia e de materiais na biosfera, e que, por sua vez, consiga preservar a biodiversidade do planeta, postula a preservação da diversidade em seu sentido amplo – a social – diversidade além da biodiversidade, ou seja, a manutenção do sistema de valores, práticas e símbolos de identidade que permitem a reprodução do tecido social e garantem a integração nacional através dos tempos; visa aprofundar a democracia e a construção de uma nova cidadania.221
O conceito de desenvolvimento sustentável tem como consequência não somente o crescimento econômico, mas também atender às necessidades de uma justiça social e uma distribuição equitativa de recursos a todos. Segundo Roberto Pereira Guimarães, a nova ética do desenvolvimento tem relação com pelo menos dois fundamentos da justiça social: a justiça produtiva e distributiva.222
Para o autor, “a primeira busca garantir as condições que permitem a existência da igualdade de oportunidade para que as pessoas participem do sistema econômico, satisfaçam verdadeiramente suas necessidades básicas, tenham um sentimento generalizado de justiça e
219
Idem, ibidem. 220
CAVALCANTI, Clóvis. Sustentabilidade da economia: paradigmas alternativos de realização econômica. In: CAVALCANTI, Clóvis (org.).
Desenvolvimento e natureza: estudos para uma sociedade sustentável. 2 ed.
São Paulo: Cortez; Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1998, p. 155. 221
GUIMARÃES, Roberto Pereira. Op. cit., p. 56-57 222
recebam um tratamento de acordo com sua dignidade e direitos como seres humanos.”223
Já a segunda, segundo o autor, “busca garantir a todo o indivíduo os benefícios do desenvolvimento de acordo com seus méritos, suas necessidades, suas possibilidades e as dos demais indivíduos.”224
Ignacy Sachs, um dos renomados estudiosos do tema ecodensenvolvimento das últimas cinco décadas, ensina que a sustentabilidade apresenta novas características para o modelo de desenvolvimento – sustentabilidade ambiental e social – como conditio sine qua non - a ser respeitada em quaisquer processos decisórios de ordem política e econômica. Adverte o autor sobre a necessidade de uma governança democrática, ou seja, a eficiência do processo democrático nas decisões políticas como um valor fundador e um instrumento necessário para a realização do desenvolvimento sustentável.225
Cançado Trindade evidencia que só é possível chegar ao desenvolvimento sustentável com a verdadeira democracia, pois, sem ela será impossível ultrapassar os obstáculos que estão no caminho de desenvolvimento econômico, social e ecologicamente viável.226
Para o autor, a realização do desenvolvimento sustentável deveria ser responsabilidade conjunta do Estado e da sociedade, o que pressupõe a existência de uma sociedade bem informada, uma mobilização social em prol do desenvolvimento sustentável, e a habilidade dos cidadãos de controlar o Estado. Arremata, ainda, Cançado Trindade: uma democracia participativa só se caracterizará por uma multiplicidade de organizações que servem como intermediário entre o Estado e a sociedade.227
Nesse sentido, sustenta José Renato Nalini: “a sustentabilidade importa em transformação social, sendo conceito integrador e unificante. Propõe a celebração da unidade homem/natureza, na origem e no destino comum e significa um novo paradigma. Não a necessidade de se renunciar ao progresso, para a 223 Idem, p. 59. 224 Idem, ibidem. 225
SACHS, Ignacy. Desenvolvimento: includente, sustentável, sustentado. Rio de janeiro: Garamond, 2004, p. 15-16.
226
CANÇADO, Trindade, Antônio Augusto. Direitos Humanos e meio
ambiente: paralelo dos sistemas de proteção internacional. Porto Alegre: Sergio
Antonio Fabris, 1993, p. 169-170. 227
preservação do patrimônio ambiental”228
, mas uma gestão equitativa de recursos naturais para satisfazer as necessidades das gerações presentes e vindouras. O que demonstra que o projeto que visa à sustentabilidade de desenvolvimento não pode ser excludente mas aquele que, na sua elaboração e execução, atende e respeita às necessidades de todos os atores sociais e organismos vivos.
Por isso, o conceito de desenvolvimento sustentável marca novo paradigma de desenvolvimento, pois, reúne eficiência econômica com justiça social e prudência, sendo a única opção para a proteção do meio ambiente no capitalismo.
Nesse sentido, afirma Clóvis Cavalcanti, que “o desenvolvimento econômico não representa mais uma opção aberta, com possibilidades amplas para o mundo. A aceitação geral da ideia de desenvolvimento sustentável indica que se fixou voluntariamente um limite para o progresso material.”229 Contrariamente à busca desenfreada pelo crescimento, a noção de desenvolvimento sustentável apresenta-se como uma alternativa ao conceito de crescimento econômico, ligado ao crescimento material e não qualitativo da economia.
O desenvolvimento sustentável, segundo Clóvis Cavalcanti, significa “qualificar o crescimento econômico, reconciliando o progresso material com preservação da base natural da sociedade.”230
Essa nova filosofia de desenvolvimento deve ser contemplada com novas formas de regulação democrática e de uma versão de economia mista, diferente da neoliberal. Na sua busca (de um desenvolvimento que seja sustentável, equitativo, economicamente eficiente e politicamente viável) e todos os setores da sociedade devem ser chamados a cooperar na consolidação desses fins.
Segundo Denis Goulet, para se chegar à sustentabilidade é necessário levar em consideração quatro domínios: econômico, político, social e cultural. Para o autor, “a viabilidade econômica depende de um uso de recursos que não os esgote irreversivelmente e de um padrão de manejo do lixo resultante da produção que não destrua a vida. A sustentabilidade política se baseia em dar a todos os membros da
228
NALINI, José Renato. Op. cit., p. 145-146. 229
CAVALCANTI, Clóvis. Op. cit., p. 165. 230
CAVALCANTI, Clóvis. Política de governo para o desenvolvimento sustentável: uma introdução ao tema e a esta obra coletiva. In: CAVALCANTI, Clóvis (Org.). Meio ambiente, desenvolvimento sustentável e políticas
públicas. 4 ed. São Paulo: Cortez; Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 2002, p.
sociedade uma responsabilidade na sua sobrevivência: isto não pode ser conseguido, a menos que todos gozem de liberdade, direitos pessoais invioláveis, algum nível mínimo de segurança econômica e acreditem que o sistema político no qual vivem persegue algum bem comum, e não meros interesses particulares.”231
Dinis Goulet conclui o seu raciocínio assim afirmando: se o desenvolvimento deve ser social e culturalmente sustentável, os fundamentos da vida comunitária e os sistemas simbólicos de significação também devem ser protegidos e não cozinhados em banho- maria até o esquecimento, sob o pretexto de submissão às exigências de alguma racionalidade tecnológica impessoal.232
Atingir um desenvolvimento ou um projeto de vida sustentável requer uma nova ética, alicerçada na solidariedade humana inter e intra-geracional e uma reinterpretação do modus vivendi da sociedade capitalista, alimentada pelo consumo exagerado de uma rica minoria e uma degradação brutal da natureza sob o capricho do progresso econômico.
Os atuais modos de organização econômica (capitalista), predadores dos recursos finitos da natureza, revelam-se cada vez mais insustentáveis, porquanto no âmbito da realidade biofísica sobre à qual se apoia a economia, pois só pode durar indefinidamente aquilo que se comporta de acordo com os princípios de funcionamento da biosfera.
Assim sendo, a humanidade deverá agir energicamente para contornar esta situação, assumindo atitudes positivas no sentido de substituir o consumismo exacerbado para uma vida moderada. Nesse sentido, observa José Renato Nalini, que no momento “não cabe estimular o greed (a incomensurável vontade de querer-ter-mais) do padrão norte-americano. O modelo, para os Estados periféricos ainda detentores de recursos naturais, não pode ser o getrich, borrow, spendandjoy, nem o sef-enrichment, self-gratificationand self- complacency. O momento é de frear o consumo e de simplificar a existência.”233
231
GOULET, Denis. Desenvolvimento autêntico: fazendo-o sustentável. In: CAVALCANTI, Clóvis (Org.). Meio ambiente, desenvolvimento sustentável
e políticas públicas. 4. ed. São Paulo: Cortez; Recife: Fundação Joaquim
Nabuco, 2002, p. 78. 232
Idem, ibidem. 233