CAPÍTULO 1 – O Fenômeno da Integração Regional e o Desenvolvimento Sustentável: Noções Introdutórias
1.2 Elementos do Processo de Desenvolvimento Sustentável
1.2.1 Discussões Conceituais de Desenvolvimento
Contextualizar a noção de desenvolvimento não é tarefa fácil, sobretudo, por se tratar de fenômeno dinâmico que tem apresentado dimensão ampliada de acordo com a evolução das sociedades.
A problemática a respeito do desenvolvimento, apesar de ganhar grande destaque no século passado, sempre foi uma das preocupações ao longo da história da humanidade, primeiramente dos principais países da Europa. Embora, na época, a preocupação principal dos responsáveis do setor público era aumentar o poder econômico e
143
Idem, p. 56 144
SHARPF, Fritz. The joint decisions trap: lessons from german federalism and european integration. In: Public Administration, n. 66, set. 1998, p. 242. 145
militar do soberano, raramente preocupando-se com a melhoria das condições de vida da população.146
A questão do desenvolvimento econômico, segundo Nali de Jesus de Souza, tem procedência tanto teórica como empírica, derivada de suas crises provindas do sistema capitalista.147
Sendo um fenômeno em destacada evolução, não existe, até o momento, uma definição universalmente aceita. O conceito passou por vários critérios de concepção, começando pela sua identificação com o crescimento econômico, passando pelas inovações tecnológicas, confrontando-se com um novo paradigma – o eco-desenvolvimento – e após com o desenvolvimento sustentável, apresentando este visão holística para o termo.
Na historia do pensamento da economia, o tema crescimento econômico emergiu na Academia com a obra clássica de Adam Smith, A Riqueza das Nações148, publicada em 1776. Nesse trabalho, o autor procura identificar os fatores da formação da riqueza nacional, explicando tanto como o mercado opera, como ainda observando a importância do aumento do tamanho deste para reduzir os custos médios de produção (efeito escala) e permitir a produção com lucros. Expandindo-se os mercados, aumenta-se a renda e o emprego, afirma Smith.
Para autor, o desenvolvimento ocorre com o aumento da produção dos trabalhadores produtivos em relação aos improdutivos, redução do emprego e elevação da renda média do conjunto da população.149
Mais tarde, por volta de 1911, Joseph Schumpeter, economista de nacionalidade austríaca, elaborando a obra Teoria do Desenvolvimento Econômico150, traçou uma diferença entre crescimento e desenvolvimento.
Para Schumpeter, “quando só há crescimento, a economia funciona em um sistema de fluxo circular de equilíbrio, cujas variáveis
146
SOUZA, Nali de Jesus de. Desenvolvimento econômico. 4. ed. São Paulo: Atlas, 1999, p. 15.
147
Idem, ibidem. 148
SMITH, Adam. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. Tradução de Luiz João Baraúna. São Paulo: Abril Cultural, 1983, 2 v.
149
SOUZA, Nali de Jesus de. Op. cit., p.16. 150
SCHUMPETER, Joseph Alois. Teoria do desenvolvimento econômico: uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. Tradução de Maria Sílvia Possas. 2. ed. São Paulo: Nova Cultural, 1985.
econômicas aumentam apenas em função da expansão demográfica. Portanto, só ocorre desenvolvimento na presença de inovações tecnológicas, por obra de empresários inovadores, financiados pelo crédito bancário. No fluxo circular não existindo inovação, não há necessidade de crédito, nem de empresário inovador. Por conseguinte, os lucros são normais e os preços aproximam-se aos de concorrência perfeita.”151
Esses dois elementos de desenvolvimento – crescimento e inovações tecnológicas – têm em comum o caráter exclusivamente econômico, uma vez que o desenvolvimento era encarado como sinônimo de crescimento quantitativo e não qualitativo.152 Os defensores desta ideia de desenvolvimento não conseguiriam separar a mudança puramente quantitativa, de crescimento econômico via expansão do sistema, sem mudar sua forma de divisão e apropriação de renda e serviços públicos, e a compreensão de desenvolvimento no qual não há apenas crescimento econômico, mas também mudança na forma da estrutura de repartição das benesses que o crescimento econômico traz.
Essa visão economicista de desenvolvimento que permeou a história de pensamento econômico foi colocada em cheque, a partir da constatação das crises da década de 1970, sobretudo a ambiental, econômica e social. As ditas crises, além de mostrar a insuficiência da noção de desenvolvimento, revelam também o esgotamento de um dos principais paradigmas sociais da modernidade, sugerindo um novo olhar sobre a problemática de desenvolvimento vista de uma forma holística: o desenvolvimento sustentável.
Carlos Walter Porto Gonçalves evidencia que “o conceito de desenvolvimento é central no processo de construção do que se convencionou chamar de Modernidade (...). A crise porque passa a sociedade contemporânea é, como não poderia deixar de ser, uma crise de seu magma de significações e, nesse sentido, desse seu conceito instituinte.”153
A ideologia desenvolvimentista instituída, a partir dos anos de 1950, traz no fundo a ideia de progresso, a qual se torna o grande elemento para identificar o modus vivendi da sociedade ocidental.
Para Herculano, “o ideário desenvolvimentista propunha modernizar as sociedades tradicionais ou atrasadas, de forma a construir
151
SOUZA, Nali de Jesus de. Op. cit., p.16. 152
Idem, p. 20. 153
GONÇALVES, Carlos Walter Porto. Geografia política e desenvolvimento
uma sociedade internacional aberta, sob a óbvia hegemonia norte- americana. Tal proposta tinha como objetivos manter tais sociedades sob a esfera de influência norte-americana, barrando eventuais avanços do bloco soviético [...].”154
Continua afirmando o citado autor “(...) é sintomático que o livro clássico desta escola de modernização, a obra de Walt Whitman Rostow, Etapas do Desenvolvimento Econômico, tivesse por subtítulo um manifesto não comunista. Outro objetivo, não declarado, era abrir espaços à expansão capitalista que vivia novo estágio de acumulação.”155
Assim se abria uma nova era no mundo – a era do desenvolvimento – na qual os Estados ocidentais, sob a hegemonia norte-americana, procuram a todo custo transportar as suas ideologias para as outras nações do planeta, os chamados Estados periféricos. Nessa linha de pensamento, anota Ricardo Carneiro Novaes que “desenvolvimento, progresso e industrialização transformam-se em termos equivalentes, almejados por todas as nações. Caberia, assim, às nações subdesenvolvidas alcançarem as demais através da industrialização.”156 Segundo Jalcione Almeida, as teorias desenvolvimentistas, quer sejam liberais, neoliberais ou marxistas, inspiram-se nas sociedades ocidentais para propor modelos para o resto do mundo.
Em outro sentido, observa a autora, que “a ideia-mestre de desenvolvimento que fundamenta esta visão reside no paradigma do humanismo ocidental, ou seja, na compreensão de que o desenvolvimento socioeconômico é provocado pelos avanços técnico- científico, assegurando ele próprio o crescimento e o progresso das virtudes humanas, das liberdades e dos poderes dos homens.”157
Assim, observa a autora, que a verdade suprema desta visão de desenvolvimento pode ser sintetizada como: “desenvolvimento
154
HERCULANO, Selene Carvalho. Do desenvolvimento (in) suportável à sociedade feliz. In: Ecologia, ciência e política. GOLDENBERG, Mirian. (Org). Rio de Janeiro: Revan, 1992, p. 20.
155
Idem, ibidem. 156
NOVAES, Ricardo Carneiro. Desenvolvimento sustentável na escala local: a agenda 21 local como estratégia para a construção da sustentabilidade. Dissertação de Mestrado – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, 2000, p.31.
157
ALMEIDA, Jalcione. A problemática do desenvolvimento sustentável. In: BECKER, Dinizar (Org.) Desenvolvimento sustentável: necessidade e/ou
técnico-científico – desenvolvimento sócio-econômico – progresso e crescimento.”158
Deste modo, desenvolver seria seguir o padrão de vida dos ocidentais. O termo carrega no seu bojo uma conotação positiva, um pré-julgamento favorável, de que desenvolver-se seria um bem e uma meta, a qual deve ser estabelecida em todas as partes do planeta. Completa Jalcione Almeida, afirmando ser “um modelo idêntico que se propaga em detrimento de todas as diferenças de situação de regime e de cultura.”159 Julius Kambarage Nyerere, primeiro presidente da Tanzânia e Prêmio Lênin da Paz, por sua vez, chama atenção desse modelo desenvolvimentista ocidental, ao afirmar que “as pessoas não podem ser desenvolvidas, podem apenas se desenvolver.”160
É possível, de acordo com Gustavo Esteva, fazer uma analogia do termo com o desenvolvimento dos organismos biológicos, já que na Biologia desenvolver é sinônimo de crescer, liberar as potencialidades para atingir a maturidade. Segundo o autor, na Biologia, o termo desenvolver é usado metaforicamente, para “explicar o crescimento natural das plantas. Através dessa metáfora foi possível demonstrar a finalidade do desenvolvimento e, muito mais tarde, seu programa. Na Biologia, o desenvolvimento, ou a evolução dos seres vivos, referia-se ao processo através dos quais organismos atingiam seu potencial genético: a forma natural daquele ser, prevista pelo biólogo.”161
Afirma ainda Esteva: “frustrava-se o desenvolvimento todas as vezes que a planta ou o animal não lograssem cumprir seu programa genético, ou substituíssem por outro. Nos casos de fracasso, o crescimento era considerado não como desenvolvimento e sim como uma anomalia: um comportamento patológico, ou até antinatural. O estudo desses monstros foi fundamental para a formulação das primeiras teorias biológicas.”162 158 Idem, ibidem. 159 Idem, p. 23. 160
MARTIN, J. Paul. Releitura do desenvolvimento e dos direitos: lições da África. In: Sur-Revista Internacional de Direitos Humanos. v. 3. n. 4, Jun., 2006, p. 91. Disponível em: http://www.scientificcircle.com/pt/journal/11/sur- rev-int-direitos-human/2006/6/3/4/. Acesso em: 3 de nov. 2010.
161
ESTEVA, Gustavo. Desenvolvimento. In: Dicionário do desenvolvimento: guia para conhecimento como poder. Tradução de Vera Lúcia M. Joscelyne, Susana de Gyalokay e Jaime A. Clasen. Rio de Janeiro: Vozes, 2000, p. 62. 162
Confrontado com a nova realidade da década de 1960, a “revolução verde”163
faz emergir um grande debate a respeito da sustentabilidade de desenvolvimento econômico, levando em consideração a sua colisão com a preservação do meio ambiente. Surge então a necessidade de estabelecer as novas concepções de desenvolvimento.
No ensinamento de Celso Furtado, o valor econômico da civilização humana entra em confronto com a degradação do meio físico. A esse respeito esclarece o autor: “a evidência à qual não podemos escapar é que em nossa civilização a criação de valor econômico provoca, na grande maioria dos casos, processos irreversíveis de degradação do mundo físico. O economista limita o seu campo de observação a processos parciais, pretendendo ignorar que esses processos provocam crescentes modificações no mundo físico.”164
A partir dessa constatação, o desenvolvimento passa a ser analisado não somente sob a ótica econômica, mas também ambiental, social, cultural, etc.. Em relação a essa perspectiva não economicista de desenvolvimento, Clóvis Cavalcanti, com uma visão ambientalista do termo, observa: “trata-se de uma preocupação justificada com o processo econômico na sua perspectiva de fenômeno de dimensão irrecorrivelmente ecológica, sujeito a condicionamentos ditados pelas leis fixas da natureza, da biosfera.”165
Arremata Cavalcanti: “É uma forma de exprimir a noção de desenvolvimento econômico como fenômeno cercado por certas limitações físicas que ao homem não é dado elidir.”166
Neste contexto emerge a discussão no meio político e na academia sobre a possibilidade de um desenvolvimento sustentável para frear o efeito nefasto da sociedade industrial no meio físico, a qual se
163
Com a revolução verde nos anos de 1960 estava patente a ideia de que a indústria e a tecnologia são sinônimos de progresso, por isso, na época, a agricultura era vinculada definitivamente à indústria, difundindo-se o uso de insumos industrializados, dos quais destacavam-se dois produtos: a utilização dos agrotóxicos e das sementes híbridas. A revolução verde traz no seu cerne a promessa de que com a adoção de um pacote tecnológico poderia viabilizar a modernização de qualquer país.
164
FURTADO, Celso. O mito do desenvolvimento econômico. São Paulo: Paz e Terra, 1974, p. 17
165
CAVALCANTI, Clóvis (Org.). Desenvolvimento e natureza: Estudos para uma sociedade sustentável. São Paulo: Cortez; Recife: Fundação Joaquim Nabuco. 2. ed., 1998, p. 17.
166
caracteriza por fluxos de sentido único, mediante o qual “matéria e energia de baixa entropia se convertem continuamente em matéria e energia de alta entropia, não integrados nos ciclos materiais da natureza”167
, como na sequência abordado.