SUMÁRIO
2.4 A QUESTÃO DA SUSTENTABILIDADE E SUAS DIMENSÕES
Este capítulo pretende apresentar alguns conceitos e definições sobre a sustentabilidade, visando situar sobre o tema, além de destacar também alguns est udos que tratam sobre as dimensões da sustentabilidade, apresentando as mais usuais – ambiental, social e econômica – e outras dimensões criadas conforme o contexto organizacional pesquisado.
Inicialmente destacam-se alguns conceitos para contextualizar a questão da sustentabilidade, para tanto, apresenta-se a definição do termo em seu sentido conotativo. Conforme o dicionário Houaiss (2009, p. 1797), o termo sustentabilidade significa: “característica ou condição do que é sustentável” já o termo sustentável significa: “pode ser sustentado, passível de sustentação”, pode-se inferir, portanto que o termo remete a ideia de algo em equilíbrio e continuidade. Quanto ao termo desenvolvimento sustentável, segundo o Dicionário Houaiss (2009, p. 649), significa: “desenvolvimento econômico planejado com base na utilização de recursos e na implantação de atividades industriais de forma a não esgotar ou degradar os recursos naturais, ecodesenvolvimento”.
Para Elkington (2012, p. 20) sustentabilidade é definida como o “princípio de assegurar que nossas ações de hoje não limitarão a gama de opções econômicas, sociais e ambientais disponíveis para as gerações futuras”.
Para Diniz e Bermann (2012) o aspecto da sustentabilidade que envolve a questão da igualdade entre gerações, significa que cada geração deve ter o mesmo bem-estar, ou a mesma igualdade de oportunidades, que as demais. A questão ligada ao ambiente propaga que não
deve haver uma deterioração que prejudique uma geração de alcançar o mesmo bem-estar que uma geração anterior. Portanto, conservar o meio ambiente possibilita evitar o aumento da desigualdade entre gerações. Para isso, são necessários critérios que orientem o uso racional dos recursos naturais de forma sustentável.
Leonardo Boff (2014, p. 14) apresenta o significado de sustentabilidade como sendo: O conjunto de processos e ações que se destinam a manter a v italidade e a integridade da Mãe Terra, a preservação de seus ecossistemas com todos os ele mentos físico, químicos e ecológicos que possibilita m a e xistência e a reprodução da vida, o atendimento das necessidades da presente e das futuras gerações, e a continuidade, a e xpansão e a rea lização das potencialidades da civilização humana em suas várias expressões.
O termo sustentabilidade possui um viés bastante ligado à dimensão ambiental, originado especialmente em virtude dos questionamentos referentes à relação entre desenvolvimento econômico e meio ambiente, evidenciados a partir da década de 1970, quando pesquisadores passaram a estudar cenários de finitude dos recursos naturais e limites do crescimento econômico. (DINIZ e BERMAN, 2012).
Entretanto, existem outras conceituações que abarcam o termo, pois o conceito de sustentabilidade evoluiu desde suas primeiras considerações sobre meio ambiente. Atualmente existem diversos estudo que abordam a sustentabilidade a partir de outras dimensões. Dessa forma, a sustentabilidade não se limita mais apenas ao aspecto ambiental, questões de igualdade social econômica ou mesmo, cultural, tecnológica e territorial tem sido abordadas na literatura.
Analisando outros aspectos da sustentabilidade, destaca-se as conceituações de Carvalho e Barcellos (2010) que apresentam o termo sustentável como ideia de continuidade ou aquilo que pode ser mantido. Para os autores todo ecossistema, de certa forma, possui algum nível de sustentabilidade, que configura-se na sua capacidade de enfrentar adversidades externas mantendo quase que inalteradas as suas funções. Silveira (2011) também considera que o conceito de sustentabilidade, remete à ideia de sobrevivência ao longo do tempo, não importando em qual contexto, seja a sobrevivência de uma empresa, de um sistema ecológico, de um país ou da sociedade humana.
A ideia de sustentabilidade como capacidade de resistência, durabilidade é também enfatizada por Jacobi, Raufflet e Arruda (2011). Os autores destacam que no campo da ecologia a sustentabilidade refere-se à manutenção da produtividade e diversidade dos sistemas biológicos ao longo do tempo, já para os indivíduos, a sustentabilidade representa a
possibilidade de manter o bem-estar por um longo período, e está ligada às dimensões ambiental, econômica e social.
Cada vez mais surgem novos conceitos que buscam caracterizar a sustentabilidade, abordados em vários estudos, entretanto, Maia (2005) adverte que a diversidade de conceitos e interpretações do termo sustentabilidade tem causado confusões e distorções. Esse conceito não é algo objetivo e mensurável cientificamente, ao contrário, configura-se como um acerto político. O autor considera que as propostas direcionadas a avaliar, valorar ou medir a sustentabilidade caracterizam-se como desafiadoras e abrem um leque de oportunidades para estudos das ações sustentáveis desenvolvidas por meio de programas ou estratégias em organizações, comunidades ou pela administração pública.
Frota e Luiz (2013, p. 702) também tecem alguns comentários sobre as diversas interpretações do termo sustentabilidade,
Do ponto de vista mera mente filosófico, sustentabilidade pode ser compreendida como o me io de possibilitar u m pro jeto civ ilizatório hu mano cujo fim último seria o alcance universal do equilíbrio entre o desenvolvimento e a preservação das fontes de vida futura. E, do ponto de vista pragmático, co mo estratégia para a consecução desse meio. A designação indiscriminada, e por vezes oportunista, do termo sustentável e de seus cognatos para refe rência de polít icas desenvolvimentistas tão diversas quanto as sociais, cultura is, econômicas ou mes mo religiosas acabou gerando uma polissemia que impede sua inteligib ilidade universal, be m co mo os limites claros de práticas “sustentáveis” igualmente universais.
Apesar dos vários enfoques teóricos sobre a sustentabilidade, há uma convergência para uma abordagem sistêmica no estudo deste tema, que aproxima os princípios de diversos campos do conhecimento e configuram um novo paradigma, sustentado pelos alicerces filosófico e científico. Assim, diferente do que se observa em relação ao paradigma atual, que prioriza quase que exclusivamente a dimensão econômica, o novo paradigma do desenvolvimento sustentável abarca dimensões variadas. (MAIA, 2005)
Clemente, Ferreira e Lírio (2011) enfatizam a necessidade de desenvolvimento de ferramentas para mensurar a sustentabilidade e consideram como positiva a diversidade de conceitos sobre a temática, pois estudos que apresentem visões diferentes contribuem para criar ferramentas para descrever e mensurar a sustentabilidade.
Evidencia-se que a sustentabilidade possui diversos vieses, relacionados às especificidades das áreas do conhecimento, culturas, grupos, entre outros fatores intervenientes. Nesse sentido, torna-se importante apresentar algumas definições sobre as dimensões que compõem sustentabilidade, sob o enfoque de alguns autores que abordam esta temática.
Em uma abordagem voltada ao meio empresarial Elkington (2012) apresenta o conceito de Tripé da Sustentabilidade (Triple Bottom Line), que se refere às três dimensões: ambiental, econômica e social. Essas dimensões englobam os três pilares: Profit, Planet e People (Lucro, Planeta e Pessoas), ou seja, Profit refere-se ao capital econômico ou ao lucro de uma empresa, Planet representa o capital natural de uma empresa ou sociedade e People ao tratamento do capital humano de uma empresa ou sociedade. A Figura 6 apresenta as dimensões propostas por Elkington:
Figura 6 – Tripé da Sustentabilidade.
Fonte: Elaborado com base em Elkigton (2012)
Para Sachs (2009) o desenvolvimento sustentável não significa apenas a sustentabilidade ambiental, por isso, o autor propõem 8 dimensões que são critérios de sustentabilidade, sendo elas: social, cultural, ecológica, ambiental, territorial, econômico, política (nacional) e política (internacional). O significado, representado por cada uma das 8 dimensões propostas por Sachs (2009) é descrito no Quadro 3:
Quadro 3 – Descrição das oito dimensões da sustentabilidade.
(continua)
DIMENSÃO DESCRIÇÃO
SOCIAL
- Alcance de um patamar razoável de homogeneidade social; - Distribuição de renda justa;
- Emprego pleno e/ou autônomo com qualidade de vida descente; - Igualdade no acesso aos recursos e serviços sociais.
AMBIENTAL
SOCIAL ECONÔMICO
TRIPÉ DA SUSTENTABILIDADE
Quadro 3 – Descrição das oito dimensões da sustentabilidade.
(conclusão)
CULTURAL
- Mudanças no interior da continuidade (equilíbrio entre respeito à tradição e inovação); - Capacidade de autonomia para e laboração de u m pro jeto nacional integrado e endógeno (em oposição às copias servis dos modelos alienígenas);
- Autoconfiança combinadas com abertura para o mundo.
EOLÓGICA - Preservação do potencial do capital natureza na sua produção de recursos renováveis; - Limitar o uso dos recursos não-renováveis;
AMBIENTAL - Respeitar e realçar a capacidade de autodepuração dos ecossistemas naturais;
TERRITORIAL
- Configurações urbanas e rurais balanceadas (eliminação das inclinações urbanas nas alocações do investimento público);
- Melhoria do ambiente urbano;
- Superação das disparidades inter-regionais;
- Estratégias de desenvolvimento a mbientalmente seguras para áreas ecologica mente frágeis (conservação da biodiversidade pelo ecodesenvolvimento).
ECONÔMICO
- Desenvolvimento econômico intersetorial equilibrado; - Segurança alimentar
- Capacidade de modernização continuados instrumentos de produção, razoável níve l de autonomia na pesquisa científica e tecnológica;
- Inserção soberana na economia internacional. POLÍTICA
(nacional)
- Democracia definida em termos de apropriação universal dos direitos humanos;
- Desenvolvimento da capacidade do Estado para imple mentar o projeto nacional, e m parceria com todos os empreendedores;
- Um nível razoável de coesão social
POLÍTICA
(internacional)
- Eficác ia do sistema de prevenção de guerras da ONU, na garantia da paz e na pro moção da cooperação internacional;
- Pacote Norte-Sul de co-desenvolvimento, baseado no princípio da igualdade; - Controle institucional efetivo do sistema internacional financeiro e de negócios; - Controle institucional efetivo da ap licação do Princípio da Precaução na gestão do me io amb iente e dos recursos naturais; prevenção das mudanças globais negativas; proteção da diversidade biológica (e cultural); gestão do patrimônio global, co mo herança comu m da humanidade;
- Sistema efet ivo de cooperação científica e tecnológica internacional e eliminação parcial do caráter commodity da ciência e tecnologia, ta mbé m co mo propriedade da herança comum da humanidade.
Fonte: Elaborado com base em Sachs (2009, p. 85-88).
Munck (2013) propõe um sistema de componentes que integram a sustentabilidade organizacional, esse modelo parte da observação dos preceitos contidos nos três pilares – econômico, social e ambiental – com as premissas do agir organizacional. Esses compone ntes são entendidos, portanto, como subsistemas da sustentabilidade organizacional. O Quadro 4 apresenta a representação sistêmica do subsistema:
Quadro 4 – Definições das sustentabilidades dos componentes da SO.