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A questão da ―voz‖ e o DIL

No documento patriciaribeirodovallecoutinho (páginas 72-74)

Tela 25: Unidade CBII6

4.3 A questão da ―voz‖ e o DIL

Como já mencionado, não são abundantes os estudos que tratam do DIL12. Assim, cabe a nós lançar mão dos trabalhos que, mesmo sem aludir à questão prosódica, ocupam-se desse tipo de DR. Antes, faremos um breve esclarecimento sobre o termo ―voz‖, presente em muitos momentos nesta tese.

A expressão linguística por meio da qual os pensamentos de um sujeito se manifestam aos que compartilham com ele do mesmo sistema linguístico é a sua voz. O termo não está sendo utilizado em sua acepção fonética. Incorporam-se a esse nome aspectos conceptuais, semânticos e pragmáticos.

Essas vozes são representações do pensamento que, no discurso, assumem significados em função da perspectiva a partir da qual são apresentados. Assim, voz e perspectiva são processos complementares, em que a voz de um sujeito enquadra-se como sua perspectiva diante dos fatos e dos pensamentos (CHIAVEGATTO, 1999).

O processo de perspectivização se refere justamente às pistas linguísticas sinalizadoras de que quem proferiu o discurso embutiu na sua voz falas ou pensamentos de outros sujeitos (SANDERS; REDEKER, 1996).

Evidências de elos entre a voz do sujeito e de vozes de outros sujeitos são reconhecíveis nas construções que introduzem as citações, como por exemplo: ―x disse que...‖, ―y falou/pensou...‖, ―na opinião de z...‖. Essas construções instruem os participantes da interação a reconhecerem que outras vozes foram integradas ao enunciado do sujeito do discurso, a partir da perspectiva desse sujeito.

Quando vozes são incorporadas à voz do sujeito de maneira implícita, isto é, sem que os elos fiquem claros e visíveis, a interpretação do DR depende de influências pragmáticas e, como apostamos, de influências prosódicas. Nesse ínterim, entra em cena o papel do DIL. Como explicar o que nos influencia a identificar e compreender o DIL, uma vez que do ponto de vista sintático ou semântico não temos expressões para introduzir a outra voz?

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Relembrando, um exemplo de DIL seria: ―A menina perambulava pela sala zangada. Não gosto disso. Mas ninguém a ouvia.‖.

Dessa maneira, torna-se relevante e oportuno um registro das principais assunções da teoria dos espaços mentais e do seu conceito de mesclagem. Mesmo que tenhamos optado por estudar o DR pelo viés da GC – enfatizando seu aspecto formal e gramatical –, consideramos de grande valia as seguintes notas, principalmente por destacar o aspecto discursivo da construção do significado.

Dentro da Teoria dos Espaços Mentais (FAUCONNIER, 1994), os construtores de espaço (space-builders) são marcas linguísticas que sinalizam a existência de constructos mentais específicos. Faz-se, assim, a conexão pragmática entre domínios epistêmicos diferentes e a relação entre elemento e contraparte, seja em termos de imagem, crença, hipótese, tempo, drama ou volição. Eles criam um novo espaço mental (M) ou se referem a um já apresentado no discurso, podendo ser representados gramaticalmente por: locuções prepositivas (no retrato, no filme, na mente de Carlos, em 1960, na loja de brinquedos, do meu ponto de vista); advérbios (realmente, provavelmente, teoricamente, supostamente); conectivos (se A então __________, se________ ou _________) e combinações frasais sujeito-verbo (Carlos acredita________, Ana espera_________, Joana quer__________). O espaço mental M sempre está incluído dentro de um espaço-mãe, que pode ser um outro M ou o espaço R (espaço-base (B)) (ROCHA, 2004).

Mesclagem é uma operação cognitiva que consiste na integração de estruturas parciais de dois domínios distintos em uma única estrutura, localizada em um terceiro domínio com propriedades emergentes e próprias. Tais domínios distintos são projetados segundo os MCIs13 ativados, que funcionam como inputs para a criação desse novo domínio (espaço da mescla), em que se reorganizam categorias, permitindo que o pensamento se mova em novas direções (FAUCONNIER & TURNER ,1994, 1996).

O DIL mescla características tanto do DD, como do DI: o centro referencial parte do narrador, como no DI; enquanto o discurso embebido do outro falante é apresentado literalmente, como no modo direto.

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Modelos Cognitivos Idealizados, que são modelos culturais mentais adquiridos socialmente (LAKOFF, 1987).

Esse tipo de discurso, por incorporar características das duas outras formas por meio das quais outras vozes são embutidas na voz do sujeito discursivo, parece ser o tipo de construção em que fica mais nítida a ocorrência de um processo de mesclagem de vozes. Do ponto de vista de quem interpreta o discurso, nem sempre é transparente reconhecer de qual dos sujeitos emanam as falas e qual das perspectivas deve ser considerada. Encontramo-nos frente ao problema da opacidade referencial que a Linguística Cognitiva e, especialmente, os trabalhos com a Teoria dos Espaços Mentais, vêm buscando descrever e explicar (CHIAVEGATTO, 1999).

A maneira indireta livre de se citar o outro permite que o reportador interprete e verbalize os processos mentais dos reportados. O fato é que obtemos uma mistura de vozes na construção resultante, com o discurso do reportado e do reportador se mesclando.

As construções de DIL emblematizam o poder criativo e dinâmico da linguagem, revelando como as interações podem ser inusitadas e imprevisíveis. Por fim, não poderíamos deixar de comentar que o DR e, mais especificamente, o DIL ilustram a ideia de que ―vozes‖ podem ser empregadas como instrumentos de manipulação. Isso porque conforme a finalidade com que elas forem usadas, podem instaurar realidades que as vozes incorporadas sequer supunham.

O presente trabalho busca realizar uma análise entoacional de construções de DR, portanto é importante registrar estudos cuja preocupação é a abordagem do DR e seu comportamento prosódico. Partindo, então, para a questão mais relevante que gostaríamos de realçar, a próxima seção direciona o enfoque para os aspectos entoacionais que podem ser atribuídos ao DR.

No documento patriciaribeirodovallecoutinho (páginas 72-74)