Tela 25: Unidade CBII6
4.4 Aspectos entoacionais do discurso reportado
Um dos problemas que os analistas da conversa detectam no uso do DR surge das seguintes questões: o falante está ou não reportando outra fala? A voz é do falante ou de outra pessoa? A razão pela qual pode ocorrer esse tipo de dúvida é que, ao contrário do que as gramáticas tradicionais afirmam, falantes em situações naturais de interação nem sempre introduzem explicitamente diferentes vozes com verbos de
elocução ou marcadores de citação. Assim, a voz da figura citada deve ser reconstruída diferentemente da voz do falante?
Couper-Kuhlen (1998) defende que efeitos prosódicos e paralinguísticos podem assumir papéis dêiticos. Segundo ela, uma figura pode ser ―vozeada‖ pelo modo como um enunciado é configurado prosódica e paralinguisticamente. A autora elenca, ainda, outros dois problemas que podem surgir em situações de DR: não ter uma resposta clara para a pergunta ―de quem é a outra voz?‖, e para a pergunta ―o que o falante está fazendo com essa outra voz?‖. Dessa maneira, construir coerência no DR envolveria encontrar respostas plausíveis para essas questões. As respostas apropriadas podem surgir conforme os falantes se conscientizem de artifícios entoacionais empregados pelos falantes. Acredita-se que o uso de uma entoação que se afasta da norma momentânea local frequentemente oferece pistas para o ouvinte.
Ao reportar enunciados passados, o falante descontextualiza a fala do seu contexto original e a recontextualiza em um novo entorno conversacional. Ao recontextualizar enunciados, o falante não somente dissolve certas sequências de fala de seus contextos originais e as incorpora em uma nova cena interacional, como também as adapta às suas novas funções e objetivos comunicativos. Então, o enunciado citado é caracterizado por transformações, modificações e funcionalizações de acordo com objetivos dos falantes e com o novo contexto conversacional. O uso de diferentes vozes é um recurso interativo para contextualizar se um enunciado é ancorado no mundo reportado ou no mundo da história (GÜNTHNER, 1998).
As diferentes características prosódicas e de qualidade de voz são centrais para sinalizar não somente onde inicia e termina a fala reportada, mas também de quem é a voz que está sendo citada. Para Günthner, são funções prosódicas com relação ao DR: (i) diferenciar o enunciado ancorado no mundo da história ou o ancorado no mundo reportado; (ii) diferenciar as personagens; (iii) indicar a atividade (desculpa, reclamação, reprovação etc); e (iv) contextualizar a disposição afetiva (calma, insistente, determinada, histérica etc) das personagens citadas. Reportadores podem usar significados prosódicos não somente para estabelecer citações como pertencentes a um personagem particular, mas também para modificar os enunciados reportados de modo sutil conforme os objetivos do falante. Os enunciados recontextualizados são estilizados, exagerados e caricaturados de modo a acomodar a avaliação do reportador.
Em textos cotidianos mesclados com a voz do reportador e a do reportado, a entoação desempenha papéis importantes. Isso porque a polifonia e a hibridização não
podem ser reduzidas a textos literários. Nas conversas do dia-a-dia, os falantes utilizam estratégias polifônicas e produzem textos de muitas vozes. A técnica das camadas de vozes é empregada para implicitar várias perspectivas presentes em um discurso.
Um enunciado pode, simultaneamente, pertencer a duas pessoas (o reportador e o reportado), ser ancorado em dois mundos (o mundo da história e o mundo reportado) e carregar dois pontos de vista (a perspectiva do reportado e a avaliação do reportador). A fim de infiltrar na fala reportada seus próprios comentários e produzir textos de múltiplas vozes, os falantes interagem diariamente empregando recursos orais como a entoação.
É importante destacar que a marcação prosódica no DR também pode variar de um personagem reportado a outro e não é comparável com a marcação tipográfica da escrita. Isso porque, nesse caso, se trata de um artifício estilístico e não uma norma. Dessa forma, pode ser usada para sinalizar DR ou não, depende dos objetivos e das estratégias do falante.
Mudanças na voz podem indicar diferentes graus de envolvimento do falante com o DR, ou mesmo com o falante reportado. Jansen, Gregory e Brenier (2001) assumem que pistas prosódicas são usadas para sinalizar funções discursivas, particularmente na ausência de pistas lexicais ou sintáticas. Em um estudo buscando checar se a prosódia distingue o discurso direto do indireto, os autores encontraram evidências indicando uma marcação prosódica mais proeminente no discurso direto.
O DR sem cláusula introdutora tende a ser enunciado com uma qualidade de voz marcada, frequentemente exibindo um pitch mais agudo. Mudanças prosódicas podem indicar que o falante alterou o footing para representar as palavras do outro (GÜNTHNER, 1998).
Wennerstron (2001), com relação à entoação e ao DR, comenta que o pitch alto associado às citações deve ser interpretado não como uma tentativa de reiterar precisamente a fala original, e sim como um mecanismo de intensificação e até um envolvimento emocional.
Maia Rocha (2011) faz um estudo sobre a unidade informacional do Introdutor Locutivo, isto é, uma forma sintática que introduz o DR. Associadas a essa unidade, estão as denominadas meta-ilocuções, dentre elas, o DR (que parece ter sido a mais produtiva), a exemplificação emblemática, o pensamento falado e a narração. A análise prosódica dessas unidades apontou que o ―Introdutor Locutivo‖ não possui uma forma fixa de curva entoacional, mas, a partir das análises realizadas no corpus italiano e
também no português, tem-se um perfil geralmente descendente. Observou-se também uma média de F0 em geral contrastante em relação à média de F0 da unidade posterior ao introdutor, que, no caso, mostrou-se mais alta.
Os trabalhos citados nessa seção confirmam a hipótese de que há uma contundente relação entre DR e prosódia e servem como estímulo a uma investigação mais profunda sobre o tema. Na próxima seção, Rocha (2004) é retomado a fim de ilustrar como é possível, a partir da perspectiva da GC, propor e discutir padrões, ou melhor, tendências prosódicas de construções de DR.