• Nenhum resultado encontrado

2. FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS E ONTOLÓGICOS DA TRANSGRESSÃO

2.5. A questão do Gênio e o ainda-não-consciente

A produtividade como um todo depende do encontro do gênio72 com sua época, pois, segundo Bloch, para deixar o estágio da incubação e inspiração é necessário o encontro direto

71 BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 124 (grifos do autor).

72 Comparando o tema do gênio nas duas principais obras de Bloch, Arno Münster apresenta um deslocamento do tema. Segundo ele “no Espírito da utopia, Bloch ligara essa forma específica da produtividade no ‘nível estético’ ao conceito de ‘gênio’, comum à primeira fase do romantismo e ao classicismo; ao passo que, agora, na obra principal, a teoria do gênio é embutida, de certa forma, na ‘fenomenologia do ainda-não-consciente’, porém de tal modo que continua sendo reservada somente ao gênio a propriedade de continuar e realizar a tendência em direção ao alvo, caracterizando-a numa proposição formalmente estética, capaz de indicar o futuro.” (MÜNSTER, Arno. Utopia, messianismo e apocalipse nas primeiras obras de Ernst Bloch. Tradução de Flávio Beno Siebeneichler. São Paulo: UNESP, 1997, p. 27). Esta perspectiva apontada por Münster corrobora a nossa tese de uma antropologia transgressiva em Bloch, uma vez que tendo por fundamento a consciência antecipadora, a força explosiva do gênio como realizador das tendências de sua época dilata essa subjetividade rumo à transgressão de fronteiras que impedem o completo desenvolvimento humano. O deslocamento do gênio para a consciência antecipadora, realizado por Bloch, parece-nos um recurso fortificador dessa antropologia

36 da subjetividade com a concretude de seu tempo. É com referência a Hegel, por meio de Johann Karl Friedrich Rosenkranz (1805-1879), que Bloch continua a fundamentação de seus argumentos sobre a produtividade e sobre o gênio quando insiste na simultaneidade entre o gênio e sua época. Dado que o gênio não é um ser isolado no mundo, ele vive e produz dentro de um contexto histórico-social, e só a partir deste lugar se pode entendê-lo juntamente com sua obra, “[...] pois ele deve se projetar além de tudo o que está dado e elaborar como uma satisfação pessoal aquilo que objetivamente acompanha o curso das coisas em sua época. No âmbito dessa tarefa, ele reina com poder demoníaco” 73

. A inspiração do gênio não vem do alto, mas de sua realidade concreta, propiciando o encontro entre sujeito e objeto. Como isso se relaciona com a explicação, o terceiro estágio da produtividade?

Na explicação encontra-se o estágio doloroso, a interdependência entre visão e obra deve estar sempre presente, sem rupturas de uma a outra. Nesse sentido, genialidade quer dizer empenho; segundo Bloch, “[...] a genialidade é o específico esforço de desdobramento da iluminação ao seu enunciado, de modo que aquilo que foi controlado pelo conhecimento acrescente não apenas firmeza mas também profundidade ao que foi planejado”74. Dialogando com a tradição que problematizou e refletiu sobre o tema do gênio, Bloch, mesmo fazendo duras críticas a Schopenhauer, concorda com sua tese de que “o talento é semelhante ao atirador que acerta um alvo que os demais não conseguem atingir; [...] acerta o alvo que os demais nem mesmo conseguem ver”75

. A crítica de Bloch a Schopenhauer é por este ter colocado o gênio como olho do mundo puramente estático, o que inviabiliza a antecipação, visto que, porque a genialidade acerta o alvo que ninguém viu, ela está na fronteira do devir, está adiante, no front onde surge o novo. Em Bloch a genialidade é um processo, assim como a história e o humano que a possui, e, por isso mesmo, jamais estático.

A definição em termos psicológicos de genialidade está em Bloch diretamente ligada à materialização do ainda-não-consciente no ser humano e no mundo. Isso vale tanto para a arte como para a ciência, pois “genialidade, enquanto a consciência mais avançada e mestra dessa consciência, é também, exatamente por isso, sensibilidade extrema para os pontos de mutação da época e suas transformações materiais”76

. Por isso o artista é capaz de perceber os fenômenos que indicam mudanças de época e pode anunciá-las em suas obras. Nesse sentido, transgressiva; afinal quem transgrediu todos os paradigmas das artes e da ciência? A história legou a estes o título de gênio.

73 ROSENKRANZ, Johann K. F. Psychologie, 1843, p. 54 et seq. apud BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 125.

74

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 125.

75 SCHOPENHAUER, Arthur. apud BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 125-126.

37 a produtividade bem entendida é a possibilidade máxima de coincidência entre juventude, mudanças de época e produção criativa. É a partir da compreensão da relação entre genialidade, inspiração e explicação, bem como do contexto histórico em que vive o gênio e nascem suas obras, que se pode compreender a relação entre a produtividade, o ainda-não-consciente e a obra de arte. Salienta-se que a produtividade que interessa a Bloch é a que se apresenta no campo da antecipação, mas não numa antecipação abstrata, e sim uma antecipação concreta daquilo que ainda não veio a ser. Nesse processo encontra-se a figura do gênio que, estando no front de sua época, pode antecipar e dar forma ao novo, sendo o novo a medida pela qual o gênio é compreendido. A obra que aponta para o futuro, um futuro mesmo incompreendido no nascimento da obra, atravessa sua época e as posteriores. E na medida em que ela atravessa os tempos com sua carga utópica sempre apontando para mais além, ela permanece atual.

Atravessar épocas e ainda permanecer jovem é transgredir os critérios de realidade estabelecidos estaticamente pela consciência reificada do presente. Por isso, na análise de Bloch, as “[...] explicações que se tornaram obras geniais não só deram expressão completa ao seu próprio tempo: nelas está presente também a implicação permanente do plus ultra”77. Não só as obras transgressoras têm em si esse plus ultra, como também a subjetividade que as produziu. Considerando esse plus ultra ligado à genialidade, a produtividade e ao ainda-não-consciente, quais os principais problemas enfrentados pelos artistas para o desenvolvimento de suas explicações? Uma parte da resposta a esta questão encontra-se na resistência ao ainda-não-consciente imposta de diferentes formas ao sujeito criativo. Para conhecer o que a

intuição atuante almeja, é necessário, segundo Bloch, um deslocamento fronteiriço da

consciência. É contra este deslocamento que se impõe uma resistência à elucidação do objeto intuído. A resistência, de uma maneira diferente, está presente também na psicanálise, onde o

subconsciente recusa a elucidação na consciência do que foi esquecido. O sujeito desperto na

análise resiste à interpretação dos sonhos nas análises, toda a resistência do indivíduo é em trazer, ou elevar, o reprimido à consciência, em outras palavras, está em jogo o caráter moralizante no que se refere à resistência ao não-mais-consciente. Entretanto, se aquilo a que o sujeito impõe resistência vier a ser conhecido, segundo Bloch, não trará nenhuma novidade, pois não terá nada de novo a oferecer ao sujeito que opôs resistência à sua aparição.

Ao contrário da resistência que é própria do sujeito, a resistência na elucidação do obscuro em relação ao futuro, resistência ao ainda-não-conhecido, é deslocada para o objeto.

38 A resistência na produtividade não é exclusividade do sujeito e no sujeito, “ela reside, ao contrário, na matéria elaborada pelo sujeito e é apenas refletida pelo esforço específico da explicação. Ela está nas águas de difícil navegação do novum, no material novo ainda-não-formado, que não se encaixa no habitual”78

. Está-se diante do problema das condições materiais da época, ocasionadora de dificuldades ao artista para dar forma ao existente. Bloch considera que as dificuldades para a produtividade, cuja meta é o ainda-não-consciente, encontram-se no processo mesmo da produção do objeto. Ele caracteriza essa resistência como bloqueio histórico e bloqueio social. Bloch não responsabiliza exclusivamente nem o artista nem o material pelo fracasso, malgrado ele tenha dito que a dificuldade se encontra no campo do objeto. Mas esse campo é justamente do objeto e das suas relações históricas e sociais, e não do objeto puro em-si. Para ele, as antecipações podem até ser clareadas no ainda-não-consciente e chegar à consciência, mas a execução delas pode não ultrapassar as barreiras sociais impostas por sua época. Como ele afirma: “[...] essa barreira também está fundada, em última instância, unicamente na condição histórica do

material, sobretudo no estado processual e inacabado que lhe é próprio e no qual ele mesmo

se encontra, ou seja, em forma de esforço, de front e de fragmentos”79. Todavia, há uma senda para continuarmos pensando a produtividade no âmbito da antecipação, do ainda-não-consciente, do novum e de uma estética da antecipação transgressiva, pois estas resistências são históricas e temporais, mesmo aquelas que dizem respeito ao tema a ser trabalhado, e, portanto, não são fundamentais.

A resistência que se mantém contra a relação sujeito-objeto, é, para nosso filósofo, mediada pela matéria inconclusa e em processo, que ele coloca em oposição ao espírito. Pois a matéria em si não liga sujeito e objeto, mas é somente “[...] em decorrência de trabalho duro, aguçado precisamente como esforço exigido pela resistência. A natureza ainda fechada do universo dificilmente pode ser refletida ou declarada como algo já pronto, ou até como algo efusivamente claro como a luz do sol [...]”80

. A resistência também se encontra em processo. A resistência que lança para o futuro, Bloch chamou de mistério do mundo. O momento histórico ao qual Bloch se refere como um bloqueio temporário sem dúvida é o período histórico das divisões de classe, do mundo burguês capitalista. O ainda-não-consciente que aponta no horizonte o novo é para Bloch no campo sociopolítico o socialismo. A tarefa é superar a resistência que se opõe a este autêntico novo. Nesse sentido, há um aceno

78

BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 129.

79 Ibidem, p. 130 (grifos do autor).

39 positivo para o passado, é preciso conhecê-lo assim como planejar o que está vindo ao nosso encontro. Nessa empreitada de transgredir todas as resistências, a figura da genialidade é indispensável – por tudo o que sobre ela foi dito acima.

O mergulho na noite do Romantismo alemão, assim como sua exaltação do inconsciente e o gosto constante pelo passado foi uma das barreiras ao ainda-não-consciente. Assim, a anámnesis enquanto evocação do passado tanto dos românticos como da psicanálise, com sua constante regressão e busca pelo esquecido e reprimido, principalmente com Freud e também Jung, obstruíram uma correta compreensão do ainda-não-consciente. A crítica de Bloch às obstruções do conceito de ainda-não-consciente não está distanciada dos contextos sociais. Ao analisá-los, ele enxerga perfeitamente o movimento conceitual e socioeconômico no mesmo patamar de apreciação, e a crítica à burguesia não deixa de aparecer: “[...] a burguesia se mantém perplexa e cega [...], reagindo com indiferença ou hostilidade às luzes da aurora. Para essa burguesia, os acontecimentos futuros projetam apenas sombras à sua frente, nada além de sombras: a sociedade capitalista se sente negada pelo futuro”81

. Essas barreiras ou resistências no campo do objeto e no campo conceitual, presentes no Romantismo alemão, na psicanálise e no campo histórico-social ligados à divisão de classes, formam um panorama da resistência ao conceito de ainda-não-consciente, além de uma barreira à compreensão correta da dinâmica da história e da própria produtividade artística e científica. Por estes motivos, as categorias de front, novum e produtividade objetiva não encontraram seu exato lugar e sua função correta no pensamento ocidental. Estas considerações blochianas têm como ponto de viragem a obra de Marx, que colocou o pensamento do novo na ordem do dia. A transgressão das resistências históricas é fundamental e urgente para a própria estética, para que esta não paire no abstracionismo embelezador da realidade, numa estética estática da pura contemplação.