2. FUNDAMENTOS ANTROPOLÓGICOS E ONTOLÓGICOS DA TRANSGRESSÃO
2.8. Fenomenologia do olhar e excedente cultural
Desse modo, entende-se por que Bloch demora exaustivamente para fundamentar sua antropologia transgressiva de forma a validar as intuições da esperança na razão, bem como ter a razão prenhe de afetos expectantes. Por isso, numa espécie de filtro, de caçador de vestígios utópicos, ele busca identificar e salvaguardar a função utópica existente ou o que excede no interesse, na ideologia, nos arquétipos, nos ideais, nas alegorias e nos símbolos92. Com esta finalidade, Bloch desenvolve aquilo que denominamos aqui de fenomenologia do olhar.
2.8. Fenomenologia do olhar e excedente cultural
Utopia concreta, função utópica e olhar estão intrinsecamente ligados. Bloch estabelece para cada figura da ideologia e para ela mesma uma forma de olhar, que não é uma visada exclusiva para dentro, mas olhar para a frente, ligada aos sonhos diurnos e às intuições guiadas pela razão: olhar para a correção e superação do real em processo. Assim, na investigação da função utópica no interesse, Bloch encontrou um olhar frio que “[...] quer e pode expor com justeza, não querendo ele próprio deixar de ser criterioso. Ele extingue sentimentos e as palavras fraudulentas, quer ver o eu, o almejar e a pulsão em sua nudez e todavia não fragmentados e divididos ao meio”93
. Na investigação do encontro da função utópica com a ideologia, nosso autor exige e descobre um olhar aguçado, que “[...] não se faz comprovar apenas pelo fato de discernir mas também por seu jeito de não ver tudo tão claro como água. E isto justamente pelo fato de nem tudo estar tão claramente pronto e às vezes
91
BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 149.
92 Concordamos com Stefano Zecchi quando ele afirma que “[...] o livre jogo da fantasia não está em condições de iluminar o conjunto de conteúdos possíveis que ainda não ocorreram. Estes devem ser procurados antes de tudo em manifestações bem definidas pelas imagens da fantasia: no mito, na arte, nos arquétipos e nos símbolos”. (ZECCHI, Stefano. Ernst Bloch: utopía y esperanza en el comunismo. op. cit., p. 91, tradução nossa).
45 estar ocorrendo um fermentar, um formar-se ao qual exatamente o olhar aguçado faz jus”94. Na investigação dos arquétipos ele descobre, ou exige, um olhar profundo que “[...] é comprovado pelo fato de se tornar duplamente abismal. Não só para baixo, que é a maneira mais fácil, mas literal de se aprofundar. Com certeza, há também uma profundidade para cima e para a frente que acolhe dentro de si coisas abissais”95
. Já no encontro da função utópica com os ideais, o olhar dever ser franco e aberto; aqui, este olhar “[...] é comprovado pelo fato de se voltar sobre si mesmo, diante dos seus olhos paira a meta que desde a juventude raramente é perdida de vista. Não estando à mão, mas desafiado ou reluzindo, ela tem o efeito de uma tarefa ou ponto norteador”96
. Por fim, ele encontra o olhar envolvido nos vestígios do encontro da função utópica com as alegorias-símbolos: “[...] o olhar envolvido, que se comprova claramente também no que ainda não está claro. Este último é o ainda-não-claro que carrega seu próprio significado, e ao fazê-lo plenifica ainda uma outra coisa”97. Nessa fenomenologia do olhar, opta-se, nesta exposição, pela análise do encontro da função utópica com a ideologia, por nesta englobar as outras formas de olhar.
Em sua fenomenologia do olhar, Bloch faz uma descoberta incomum e original para o marxismo ocidental: o lado positivo da ideologia e sua excrescência, seu efeito colateral ou seu desvio. No fenômeno há o que Bloch chama de fermentar. Para ele, há um inacabamento no mundo, e este inacabamento aparece na ideologia, porém, somente “[...] na medida em que ela não se esgota na relação com o seu tempo, nem com a mera má consciência em relação ao seu tempo, o qual acompanhou todas as culturas precedentes”98
. Para Bloch, a ideologia, por ser da classe dominante, oculta a exploração social e nega a raiz econômica da classe burguesa. A ideologia, nas sociedades de classe, tem três estágios: a preparatória, a vitoriosa e a decadente. Na primeira, o foco é na infraestrutura para promover uma nova superestrutura. Na segunda, há o processo de afirmação da infraestrutura por meio dos recursos jurídicos e políticos; esta etapa é a que Bloch caracteriza como “embelezamento” cultural-jurídico-político, onde há uma harmonia temporária entre as forças de produção e as relações de produção. A terceira e última é o processo de ocultamento das contradições de base que sustentam a classe dominante. A partir disso, Bloch estabelece seu conceito de ideologia: ela é
94 Ibidem, p. 152. 95 Ibidem, p. 157. 96 Ibidem, p. 164. 97 Ibidem, p. 173. 98 Ibidem, p. 152.
46 “[...] a soma das representações em que cada sociedade se justificou e se transfigurou com o auxílio da má consciência”99
.
Bloch demarca a ideologia em dois momentos que não são totalmente excludentes: um é a raiz econômica da sociedade, o segundo é o pensamento da cultura. Para ele, quando se pensa a cultura, a ideologia deixa escapar um outro lado do momento econômico; desta perspectiva, a ideologia nos permite entrever a contradição entre interesse e ideia. Assim, a cultura de cada época, que permanece viva em épocas posteriores, é abordada por Bloch como herança cultural100, ou seja, a ideologia é pensada em relação com a cultura a partir da seguinte questão: “[...] como é possível que obras da superestrutura se reproduzam progressivamente na consciência cultural também após o descarte de seu fundamento social”101
. Nosso filósofo busca o fenômeno que reside do outro lado da ideologia: a arte, a filosofia e a ciência como excedentes culturais. Estas, quando pensadas e produzidas com vistas ao futuro e com conteúdos utópicos, não ficam presas às suas épocas, mas podem ser tomadas em nosso favor revolucionário, uma vez que elas mesmas são, para nós, transgressivas102 em vista de suas temporalidades.
O que Bloch descobre em sua fenomenologia do olhar é a existência de um excedente cultural no passado pelo fato da função utópica agir junto às ideologias. Ele não faz qualquer tipo de apologia à ideologia burguesa, mas não deixou de perceber que, com a atuação da função utópica, esta ideologia deixou um legado cultural, que se bem compreendido e retirado do contexto embelezador para harmonizar as classes e afirmar uma determinada classe social em detrimento de outra, pode contribuir na emancipação humana. Assim, ele apresenta a tese de que o utópico é utilizado para além de sua depreciação habitual, pois o outro lado da ideologia, onde atua a função utópica, onde os sonhos de uma vida melhor necessitam apenas
99 BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 153.
100 Segundo José Jiménez, “os arquétipos, os ideais, as alegorias e os símbolos não são apenas rejeitados, mas ‘resgatados’ do solo lunar e noturno, para torná-los utopicamente produtivos à luz do dia. O conceito de ‘herança cultural’ alcança, então, uma maior determinação: a existência de um processo contínuo de sedimentação dos sonhos do novo está produzindo um excedente cultural, no qual se acumula tudo o que um dia foi progressivo e pode seguir sendo. Esse excedente espiritual ou cultural não surge na falsa consciência existente de uma época, mas apenas em seu aspecto utópico.” (JIMÉNEZ, José. La estética como utopía antropológica: Bloch y Marcuse. p. 82-83, tradução nossa).
101 BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 153.
102 “Apenas os problemas aparentes e a específica ideologia do local submergiram ou foram descartados do Simpósio, da Ética, até da Fenomenologia do espírito. Em contrapartida, o eros, a substância, a substância como sujeito se situam em meio a todas as modificações como variações da meta. Em suma, as grandes obras não são deficientes como no tempo de seu primeiro dia nem gloriosas como no seu primeiro dia: ao contrário, elas despem tanto a sua carência quanto a sua primeira glória, sendo capazes de uma glória posterior, derradeira, a ser intencionada. O elemento clássico de todo classicismo se depara com cada época igualmente como romantismo revolucionário, como tarefa que aponta para a frente e solução que vem do futuro, não do passado, e ela própria ainda fala, interpela, segue chamando, repleta de futuro” (BLOCH, Ernst. O princípio esperança. v. 1. op. cit., p. 154).
47 de uma consciência para se realizarem103, apresenta fragmentos inacabados que continuam apontando para a frente. O que lhe interessa é o utópico que excede na herança cultural, e não a época burguesa em si na qual surgiram as obras.
Assim, a cultura após o fim da ideologia de classe, para a qual ela pôde até então ser mera decoração, não sofre nenhum outro prejuízo além do próprio aspecto decorativo, a harmonização falsamente conclusiva. A função utópica arranca os assuntos da cultura humana do leito pútrido da mera contemplação e desse modo descortina sobre cumes de fato galgados o panorama ideologicamente desimpedido do conteúdo da esperança humana104.