Entre as dificuldades que surgem à plena concretização prática do direito à liberdade religiosa, e não sem relação c o m aspectos decorrentes do pluralismo religioso acabado de referir, continua a ser tema de preocupação ecuménica a questão do proselitismo, ou seja, daquele m o d o de agir que utiliza meios abusivos e humana e cristãmente menos correctos para propagar ou até tentar impor a
outros a própria convicção religiosa87. E m concreto, emerge aqui a
tarefa de u m i n d i s p e n s á v e l d i s c e r n i m e n t o e n t r e o d e v e r de testemunho cristão, que decorre da dimensão missionária da fé, e o respeito que é necessário ter pela liberdade de consciência dos outros88. Trata-se de u m problema que não é novo na história das relações ecuménicas, mas que adquiriu renovada importância na actualidade. "Esta questão do proselitismo e da evangelização l e g í t i m a — d e s c r e v e o p r i m e i r o d o c u m e n t o p r e p a r a t ó r i o da segunda Assembleia E c u m é n i c a E u r o p e i a , realizada e m J u n h o passado, em Graz — é uma das dificuldades maiores. Ela é ainda
87 N o s t e m p o s mais r e c e n t e s e e m especial n o m o d e r n o m o v i m e n t o e c u m é - n i c o o t e r m o a d q u i r i u u m a c o n o t a ç ã o n e g a t i v a , " q u a n d o é u s a d o para os esforços d e c r i s t ã o s n o s e n t i d o d e f a v o r e c e r u m a c o n v e r s ã o d e m e m b r o s d e o u t r a s c o m u n i d a d e s cristãs. Tais actividades p o d e m ser realizadas d e f o r m a clara o u às e s c o n d i d a s . Elas p o d e m ser d e s e n v o l v i d a s p o r m o t i v o s b a i x o s o u c o m m e i o s d e s o n e s t o s , q u e f e r e m a c o n s c i ê n c i a da pessoa h u m a n a . M e s m o q u a n d o b r o t a m de boas i n t e n ç õ e s , são, e m p r i n c í p i o , u m m e n o s p r e z o da realidade cristã das outras Igrejas o u da sua respectiva práxis p a s t o r a l " : Die Herausforderung des Proselytismus
und die Berufung zu gemeinsamem Zeugnis. Ein Studiendokument der Gemeinsamen Arbeitsgruppe des Ökumenischen Rates der Kirchen und der römisch-katholischen Kirche, in
Ö k u m e n i s c h e R u n d s c h a u 45 (1996) n ° 18, 4 8 3 s. O d o c u m e n t o apresenta t a m b é m urna descrição d a l g u m a s dessas actividades caracterizáveis c o m o proselitistas: n°" 19 e 20, 4 8 4 .
88 S o b r e a d i s t i n ç ã o e m e s m o o p o s i ç ã o e n t r e " p r o s e l i t i s m o " e " t e s t e m u n h o " , cf. Rapport définitif sur le témoignage chrétien, le prosélytisme et la liberté religieuse dans la
structure du Conseil oecuménique des Églises, i n J . C . M U R R A Y — E .
S C H I L L E B E E C K X — A. F. C A R R I L L O D E A L B O R N O Z — P . - A . L I É G É , La
liberté religieuse, 2 0 2 - 2 1 8 , e s p . 2 0 4 - 2 0 8 . C o m i n e g á v e l p e r t i n ê n c i a A . F
C A R R I L L O D E A L B O R N O Z d e n u n c i a u m u s o p e j o r a t i v o e apenas d i r i g i d o aos o u t r o s da palavra " p r o s e l i t i s m o " : " N ó s d e n u n c i a m o s e c o n d e n a m o s o uso desta palavra para d e s i g n a r p e j o r a t i v a m e n t e e c o m r e p r o v a ç ã o n o s o u t r o s exactamente a
mesma actividade q u e n ó s c h a m a m o s e n t r e nós, c o m r e v e r ê n c i a , 'a o b r i g a ç ã o sagrada
LIBERDADE RELIGIOSA E ECUMENISMO 111
aumentada pelo desequilíbrio entre Igrejas maioritárias e m i n o - ritárias, ou entre Igreja de Estado e outras Igrejas no interior de u m mesmo país"S9. Depois de se perguntar c o m o p o d e m as Igrejas abordar este problema n u m espírito ecuménico, de m o d o que a unidade da Igreja não seja ainda mais afectada, o mesmo texto alude expressamente à situação experimentada nos últimos tempos pelas Igrejas do Leste europeu: " E m particular na Europa oriental, as Igrejas v ê e m os representantes e as representantes de novos movimentos religiosos importunar os seus fiéis c o m uma propa- ganda prolífica e com a miragem de vantagens materiais para os incitar a 'converter-se'. Mas certas Igrejas e sociedades missionárias ocidentais, que tinham desde há muito t e m p o estabelecido relações fraternas com as Igrejas da Europa oriental graças ao m o v i m e n t o ecuménico, multiplicam presentemente as suas actividades missio- nárias na Europa de leste. Este zelo é muitas vezes percebido pelas Igrejas históricas destes países como uma agressão"90. Estamos, pois, diante de u m problema que causa tensões difíceis e dolorosas entre as Igrejas, que condiciona os caminhos de busca da plena unidade visível entre os cristãos, que afecta as respostas necessárias à exi- gência de u m testemunho cristão c o m u m no m u n d o , que provoca enfim uma perda de credibilidade n o anúncio cristão do a m o r universal de Deus.
E convicção cristã c o m u m que o direito à liberdade religiosa não pode deixar de incluir a liberdade de testemunho religioso, c o m o expressão q u e n a t u r a l m e n t e d e c o r r e da responsabilidade crente de anunciar Jesus Cristo e m todas e quaisquer circuns- tâncias91. Os caminhos de aproximação ecuménica, que constituem u m grande sinal e uma enorme esperança do nosso tempo, não
Réconciliation, don de Dieu et source de vie nouvelle. Deuxième Rassemblement Oecuménique Européen — Graz, 23-29 Juin 1997. Document de Travail (Premier projet), Octobre 1996, n° 38, 13.
'"' IB., n° 39, 13. A q u e s t ã o d o p r o s e l i t i s m o está t a m b é m d e a l g u m m o d o r e l a c i o n a d a c o m o c h a m a d o " u n i a t i s m o " , u m p r o b l e m a q u e t e m e s t a d o u l t i - m a m e n t e n a o r d e m d o dia d o d i á l o g o e n t r e c a t ó l i c o s e o r t o d o x o s . C f . Der
Uniatismus — eine überholte Unionsmethode — und die derzeitige Suche nach der vollen Gemeinschaft, in U n a Sancta 4 8 (1993) 2 5 6 - 2 6 4 ; M . B A S A R A B , Uniatismus und Proselytismus auf der Tagesordnung des internationalen katholisch/orthodoxen Dialogs, in
U n a Sancta 45 (1990) 3 2 1 - 3 2 3 .
" " A nossa i n t e n ç ã o n a t u r a l d e n ã o ' f a z e r p r o s e l i t i s m o ' n ã o i m p e d e o u n ã o limita a nossa r e s p o n s a b i l i d a d e cristã essencial d e p r e g a r J e s u s C r i s t o s e m p r e e e m toda a p a r t e " : A. F. C A R R I L L O D E A L B O R N O Z , La liberté religieus, 61.
112 DIDASKALIA
s i g n i f i c a m a desistência da o b r i g a t o r i e d a d e de u m t e s t e m u n h o crente da própria convicção, a partir da experiência confessional q u e dá identidade concreta ao existir dos cristãos. " N a crescente
koinottia e c u m é n i c a — assinala j u s t a m e n t e u m d o c u m e n t o recente
do G r u p o C o m u m de T r a b a l h o entre a Igreja Católica e o C o n - s e l h o E c u m é n i c o das I g r e j a s — d e v e h a v e r t a m b é m u m a p o s s i b i l i d a d e de t e s t e m u n h a r o E v a n g e l h o u n s aos o u t r o s e m fidelidade ã sua própria tradição e às próprias convicções. U m tal t e s t e m u n h o r e c í p r o c o p o d e r i a e n r i q u e c e r - n o s e d e s a f i a r - n o s a r e n o v a r o nosso m o d o de p e n s a r e a nossa vida, e isso sem
polémica relativamente àqueles q u e estão n u m a outra tradição"9 2.
P e r c e b e - s e b e m q u e n ã o p o d e h a v e r u m t e s t e m u n h o cristão c o m u m c o n v i n c e n t e se n ã o t i v e r p o r b a s e esse d i n a m i s m o missionário enraizado na própria experiência crente, a partir do c o n t e x t o confessional c o n c r e t o que cada u m vive.
Mas c o m a m e s m a convicção c o m q u e acentua a necessidade d o t e s t e m u n h o da p r ó p r i a fé, o p e n s a m e n t o v e r d a d e i r a m e n t e e c u m é n i c o rejeita t a m b é m o proselitismo e n q u a n t o preversão do t e s t e m u n h o religioso p e l o uso de processos i n c o r r e c t o s e n ã o e v a n g é l i c o s c o m o o b j e c t i v o d e f o r ç a r a l g u é m a m u d a r de c o n v i c ç ã o religiosa. Se o e c u m e n i s m o c o m o busca c o m u m da verdade p e d e u m claro t e s t e m u n h o daquilo e m q u e se acredita, "ele p e d e t a m b é m q u e o t e s t e m u n h o da sua p r ó p r i a fé seja a c o m - p a n h a d o pelo mais p r o f u n d o respeito das convicções de o u t r e m ,
pelos seus direitos, pela sua liberdade e a sua dignidade"9 3. Pressu-
p o n d o m o d o s de agir q u e c o m p o r t a m alguma forma de coacção, de tentativa desonesta o u m e n o s leal de persuasão, p r e t e n d e n d o assim d e a l g u m m o d o i m p o r aos o u t r o s a v e r d a d e p e l a f o r ç a , o proselitismo p o d e atingir a liberdade de religião das pessoas ou
p r e t e n d e r manipulá-las9 4, e m última análise ele "representa u m uso
não cristão da força e m matéria religiosa"9 5. O já referido d o c u -
m e n t o do G r u p o C o m u m de T r a b a l h o Igreja C a t ó l i c a / C o n s e l h o E c u m é n i c o das Igrejas é, p o r isso m e s m o , p e r e m p t ó r i o ao recusar " q u a l q u e r violação da liberdade de religião e todas as formas de
92 Die Herausforderung des Proselytismus, n ° 11, 4 8 2 .
93 A . F. C A R R I L L O D E A L B O R N O Z , Vers une conception oeuménique, 190.
94 Die Herausforderung des Proselytismus, n ° 16, 483.
95 J . C . M U R R A Y , Le problème, 51. C f . H . K L A U K T E , Anmerkungen und
LIBERDADE RELIGIOSA E ECUMENISMO 113
intolerância religiosa, b e m c o m o qualquer tentativa de i m p o r aos outros uma fé ou uma praxis religiosa ou de manipulá-los em n o m e de uma religião ou de colocá-los sob pressão"96. N a mesma linha de pensamento, ao interrogar-se na sua parte conclusiva sobre as tarefas pastorais q u e i m p e n d e m s o b r e as Igrejas c o m o i n t e r p e l a ç ã o r e s u l t a n t e d o f e n ó m e n o das seitas e dos n o v o s m o v i m e n t o s religiosos, o mesmo d o c u m e n t o e c u m é n i c o considera necessário que os cristãos reflictam mais c o n s c i e n t e m e n t e sobre o m o d o " c o m o p o d e m reagir em termos pastorais, mas t a m b é m de forma decidida a práticas religiosas forçadas levadas a cabo p o r pessoas ou grupos que não respeitam o princípio da liberdade religiosa"97.
E claro que não basta simplesmente condenar, mesmo que em c o m u m , o p r o s e l i t i s m o , para q u e as d i f i c u l d a d e s r e a l m e n t e existentes sejam definitivamente superadas, e seria t a m b é m ilusório p e n s a r - s e q u e os p r o b l e m a s c o n c r e t o s p o r ele c a u s a d o s o u fomentados possam ser resolvidos a nível de mera legislação civil98. F u n d a m e n t a l para u m a m e l h o r i a da a c t u a l s i t u a ç ã o e verdadeiramente promissor em termos de f u t u r o é aqui o desen- v o l v i m e n t o , p o r parte dos cristãos e q u a l q u e r q u e seja a sua pertença confessional ou o seu e n r a i z a m e n t o cultural, de u m a m e n t a l i d a d e v e r d a d e i r a m e n t e e c u m é n i c a , a b e r t a a t o d a s as consequências q u e a liberdade do acto de fé, a l i b e r d a d e de consciência e o direito à liberdade religiosa implicam. Nessa o r d e m de ideias não pode deixar de ser u m dado indiscutível e u m sinal irreversível de u m a consciência amadurecida do p o n t o de vista h u m a n o e cristão a convicção de que t ê m de ser definitivamente abolidos na tarefa evangelizadora quaisquer métodos contrários ao respeito que m e r e c e o acto livre que é o r e c o n h e c i m e n t o da v e r d a d e , isto é, m é t o d o s q u e não passem p e l o c o n v i t e , pela proposta, pelo testemunho sereno da palavra e da vida, pelo diálogo
acerca da Verdade maior que sempre de n o v o nos interpela99. Desse
modo, procurando ultrapassar o proselitismo mas sem cair n u m a
% Die Herausforderung des Proselytismus, n ° 15, 4 8 3 . C f . t a m b é m Der Uniatismus, n" 25, 2 6 1 .
1,7 Die Herausforderung des Proselytismus, n ° 32, 4 8 7 .
"8 C f . J . C . M U R R A Y , Le problème, 5 1 ; A . F . C A R R I L L O D E A L B O R N O Z , Vers une conception oecuménique, 191.
'''' C f . E. S C H I L L E B E E C K X , La notion de vérité et la tolérance, in J . C . M U R R A Y — E. S C H I L L E B E E C K X — A. F. C A R R I L L O D E A L B O R N O Z — P . - A . L I É G É , La liberté religieuse, 150.
114 DIDASKALIA
atitude de indiferença missionária que contradiria a própria fé — o u , d i t o de f o r m a p o s i t i v a , r e d e s c o b r i n d o a d i f e r e n ç a e n t r e evangelização legítima e proselitismo — , o autêntico testemunho cristão não p o d e deixar de acontecer no respeito m ú t u o , na transparência de processos, na capacidade de dizer-se uns aos outros a verdade n o amor, n o espírito da tolerância divina c o m o única possibilidade de autêntica busca de Deus100.
Para que isso seja realidade quotidiana, para que essa nova mentalidade se confirme e se desenvolva, há, sem dúvida, muitas iniciativas a empreender e inúmeros passos práticos a dar, tanto no aspecto individual c o m o ao nível do comportamento das Igrejas. A superação profunda de mentalidades proselitistas t e m de passar por programas adequados de formação cristã e ecuménica, por atitudes de efectiva abertura à realidade eclesial realmente existente n u m determinado espaço geográfico, pelo esforço de compreensão da história na perspectiva da o u t r a Igreja, pelo cuidado em não d e t u r p a r a r e a l i d a d e das o u t r a s Igrejas. E e m o r d e m a essa indispensável mudança de mentalidades não menos importantes são as diversas iniciativas concretas — de oração em c o m u m , de cultura espiritual, de diálogo teológico, de pastoral missionária, de acção caritativa — que u m verdadeiro ecumenismo, na consciência do muito de c o m u m que já u n e os cristãos, deve suscitar101. Funda- mental é, n o entanto, a reflexão c o n j u n t a que os cristãos não p o d e m deixar de fazer — sob pena de p o r e m em causa a sua própria credibilidade — sobre o serviço que são chamados a prestar aos homens e à sociedade e m que se inserem, u m serviço que tem de deixar transparecer em todos os m o m e n t o s e em quaisquer circunstâncias a força misericordiosa e reconciliadora do plano salvífico de Deus a favor da humanidade e de toda a criação.