2. JEAN PIAGET: A GÊNESE DO CONHECIMENTO
2.3. A questão do social: Empirismo, Inatismo e Construtivismo
Um outro litígio que acomete a teoria do conhecimento de Jean Piaget seria o pouco interesse demonstrado pelo social e a acusação de que ele não seria Construtivista, mas sim, Empirista ou até mesmo Inatista. Piaget (1987a, p.51) sobre isto destaca que:
Cinquenta anos de experiências fizeram-nos saber que não existem conhecimentos resultantes de um registro simples de observações, sem uma estruturação devida às actividades do sujeito. Mas também não existem (no homem) estruturas cognitivas a priori ou inatas: só o funcionamento da inteligência é hereditário e só engendra estruturas por uma organização de acções sucessivas exercidas sobre objectos. Daqui resulta que uma
epistemologia conforme com os dados da psicogénese não poderia ser nem empirista nem pré-formista, mas consiste apenas num construtivismo, com a elaboração contínua de operações e de estruturas novas.
O que se modifica dentro destas três Epistemologias é o tipo de relação que o sujeito traça para com os objetos com que interage. Para Piaget o cerne se fixa na ação que o indivíduo realiza para com os objetos, essa ação estaria na origem de qualquer conhecimento.
El problema de base de la epistemología es, esencialmente, el de las relaciones del sujeto cognoscente y del objeto por conocer. El empirismo, por ejemplo, pone el acento en el objeto, y llega a conclusiones en las que el conocimiento aparece como una copia del objeto. Yo quise verificar experimentalmente, si era cierto que todo conocimiento derivaba de la experiencia. Y llegué a la conclusión de que un conocimiento no es simplemente un registro y una huella que el objeto hace en el sujeto (PIAGET, 1976a, p.64).
Sobre essa questão de como se decorre a relação entre objeto e sujeito entre as Epistemologias Empiristas e Aprioristas, Menezes (2016, p.63) afirma que:
O apriorismo diferencia-se do empirismo no sentido de que o sujeito apresenta estruturas de conhecimento desde seu nascimento, enquanto que na epistemologia empirista o sujeito é tábula rasa. O empirismo confere uma importância enorme ao exterior, ao mundo físico, de maneira que o objeto determina o sujeito. No modelo apriorista a relação se inverte, pois é o sujeito que determina o objeto. A experiência não assume a centralidade do processo do conhecimento, mas sim o sujeito. Este é responsável pela atividade do conhecimento sem que o meio possua muita participação. É a partir da falta de concordância do tipo de relação que existe entre o objeto e o sujeito para que se origine o conhecimento que Piaget passa a construir o seu corpo teórico que dá importância sim à questão do social, mesmo que muitos acreditem que essa parte é algo que permanece em um segundo plano dentro de sua teoria. A questão do social pode ser explicada em parte pelo contexto que Piaget viveu na Europa, principalmente em Genebra. Uma realidade que se difere da maioria dos lugares do planeta, primeiro por sua instância de neutralidade em diversos momentos históricos, como as duas Grandes Guerras Mundiais e a questão da desigualdade reduzida se for traçado um paralelo com a maioria dos países. Como destacam Barrelet; Perret-Clermont ([19--], p.15) “o território de Neuchâtel foi sempre poupado pelas guerras, e a sua situação geográfica faz dele um espaço de transição entre as culturas francesa e a do Planalto Suíço [...]”.
Mesmo assim, o âmbito do social predomina na concepção de construção do conhecimento da Epistemologia Genética, mesmo que não de forma evidente, ela é
uma das instâncias que é estimada no processo da gênese dos conhecimentos. Jean Piaget não nega nem negligência a função do meio físico, nem a influência do meio social ou da linguagem, para ele, o ser humano constrói suas estruturas a partir da mescla destes fatores. Dentro destes pontos é que o ser humano sofrerá desequilíbrios que exercerão perturbações aos esquemas existentes.
Nos ideais piagetianos, não há nenhum conhecimento humano que seja concebido como cópia funcional, ou seja, que venha como um reflexo da realidade. Também não há estruturas pré-formadas pelas quais o sujeito somente necessita esperar seu organismo maturar para que seja possível aprender. Para Piaget existem formas hereditárias muito elementares (DELVAL (2008; 2013); PIAGET (1975; 1987; 2005)), como o esquema que permite ao recém-nascido praticar o ato da sucção do leite materno.
Essa primeira atividade mental consiste em ações sensório-motoras que “na melhor das hipóteses, envolverá certa integração sensório-motora, ligada à sensibilidade dos lábios e da boca” (PIAGET, 1987, p.44), ou seja, vão progressivamente assimilando novos elementos nestas estruturas hereditárias, sendo o bebê capaz de em pouco tempo coordenar diferentes esquemas na descoberta do mundo que o rodeia.
Por isso, fica evidente que Piaget (1987) concorda que os seres humanos possuem alguns reflexos hereditários como a sucção e a preensão que o recém- nascido apresenta como forma de conhecimento do ambiente e que são essenciais para questões básicas como a busca do alimento. Há em nós um conjunto de possibilidades, não de potencialidades, que poderão ou não se transformarem em estruturas a partir das experiências e ações tornadas possíveis ao sujeito que inicia sua vida.
Como Becker (2012b, p.147) traz: o “meio age apenas dentro do quadro de possibilidades do funcionamento herdado pelo sujeito. E a hereditariedade age apenas dentro das possibilidades dispostas pelo meio, físico ou social”. Com essa concepção se afasta a ideia de um Jean Piaget Inatista, pois o seu pensamento é permeado pelo entendimento que há uma coordenação de esquemas que permanecerá como um contínuo processo que tende a se tornar mais complexo e durará o tanto quanto o sujeito permanecer agindo sobre os objetos.
A explicação que afasta da conotação Apriorista ou Empirista dada a teoria piagetiana é percebida quando nos centramos na concepção geral do Construtivismo,
na qual o conhecimento procede da ação exercida sobre os objetos, sobre isso Becker (2011, p.14) destaca:
É a hipótese que, negando simultaneamente o empirismo e o apriorismo, afirma que as estruturas do conhecimento e, portanto, da aprendizagem, são construídas pelo sujeito mediante sua ação sobre o meio físico e social; portanto, mediante um longo processo de interação sujeito-meio.
A posição de Piaget é que o conhecimento procede do que fazemos com os objetos, ou seja, para ter construção tem que existir interação. Aqui vale o destaque para a questão do objeto, que na Epistemologia Genética é tudo aquilo que pode ser pensado pelo sujeito, ou seja, não possui a conotação de um objeto físico somente, ele pode ser uma ideia ou um conceito, por exemplo. Ao passo que algo pode ser refletido pelo indivíduo, ele passa a ser considerado um objeto ao qual é passível de interação. Por essas razões, Piaget não é Empirista mesmo que se refira a objetos (já que o conhecimento está na interação com este) nem Inatista mesmo que ele conceda importância à ação do sujeito (interação sujeito – objeto).
Diante das posições inatistas ou empiristas, dominantes no seu tempo, Piaget propôs uma explicação segundo a qual o conhecimento é o resultado da interação contínua entre o sujeito e a realidade que o cerca. Ao agir sobre a realidade, vai construindo propriedades da mesma, ao mesmo tempo em que constrói sua própria mente. Por isso, essa posição foi chamada construtivismo (DELVAL, 2012, p.119).
Sua teoria é considerada Construtivista, uma vez que, o conhecimento é uma construção permanente, um processo sem fim, em que cada indivíduo se encontra sucessivamente criando o seu conhecimento. Este saber não está pré-formado nem nos objetos nem nos sujeitos, mas sim, se permanece continuamente organizando o que se sabe sobre a realidade.