• Nenhum resultado encontrado

PARTE 1 – TURISMO, ESPAÇO E TEMPO

3. O TURISMO NA FLECHA DO TEMPO

3.2 A questão do tempo no conceito de moment de lieu

atores, de lugares e práticas que sintetiza os sucessivos sistemas de turismo.

3.2 A questão do tempo no conceito de moment de lieu  

  A presente pesquisa parte do estudo do turismo aliado ao tempo. Tendo como proposta pensar o turismo “com” o tempo, compreende-se ser relevante refletir sobre como o conceito de tempo é usado nas pesquisas do MIT e quais formas de abordagem serão priorizadas nesta pesquisa. Trata-se de uma abordagem difícil e raramente se observa a reflexão desta questão por pesquisadores do turismo, tornando-se um diferencial desta equipe de pesquisadores franceses. Geralmente, a questão do tempo é observada nas pesquisa de turismo como algo externo, sem um posicionamento concreto em relação a ele.

Para os autores da Equipe MIT, o tempo não pode ser apreendido como um fluxo exterior à sociedade, tampouco como um elemento meramente subjetivo ou “vivido”. Para eles, o tempo é concebido como um conceito que permite expressar as relações com durações distintas, uma vez que o tempo é apropriado e produzido em determinadas condições societais. Dessa maneira, para os autores, os tempos são múltiplos e, em razão disso, as temporalidades dos acontecimentos também são variadas.

Partindo desse princípio, o conceito de moment de lieu se institui a partir do efeito temporal do contexto social sobre os atores e também sobre os lugares. Observemos, para tanto, as especificidades dessa proposição. O turismo é uma prática social realizada e incorporada por diferentes atores. Seus comportamentos, sua relação com os lugares somente são passíveis de análise quando observados sob o viés do contexto social que lhes é inerente.

Considera-se assim, que determinados comportamentos voltados ao turismo, a difusão de certas práticas, somente são possíveis em razão da condição temporal que as envolve, mas que também se ajudou a construir.

Assim, ao observarmos a consolidação de algumas estâncias turísticas compreende-se que as mesmas são frutos de um movimento mais amplo dos processos decorrentes das transformações sociais relacionadas ao uso do tempo livre e, posteriormente, a divisão do trabalho e seus desdobramentos. Dessa maneira, a prática turística em suas diferentes modalidades se materializa de acordo com o contexto social que lhe é intrínseco. Mas, este contexto também é fruto de uma construção social, afinal, o tempo livre e seus usos são

inventados, isto é, são criados pela sociedade e se transformam em razão da constante evolução em que vivemos.

Da prática do Grand Tour ao turismo de massa, observa-se distintos mecanismos de uso do tempo. Os homens de cada época, de cada categoria social, interpretam o uso do tempo livre e contribuem com a formação de destinos de prazer e lazer segundo um contexto. Ao observar o turismo sob esta perspectiva, devemos focar em como os indivíduos e as sociedades interpretam os esquemas antigos e os reintegram em um conjunto coerente de representações e novas práticas. Assim, ao observar o surgimento e ampliação da prática turística em Campos do Jordão, ressalta-se que este processo só foi possível em razão da apropriação e reinvenção das práticas observadas em um outro período, em um outro lugar.

Quer dizer, as transformações decorrentes dos tempos sociais e seus usos, os movimentos decorrentes do processo de industrialização observados em um período anterior na Europa, permitiram que um conjunto de atores, internos e externos ao território jordanense, se apropriassem e reinventassem as práticas turísticas. Assim, o gosto pela montanha, o usufruto da hotelaria, a facilidade de acesso renovada por novos transportes são bons exemplos de elementos que são incorporados na construção do território do turismo jordanense em razão de um dado contexto sócio-temporal.

Isto é, tais elementos se materializaram e se difundiram a partir de influências externas ao lugar, ações de atores na organização desses elementos no lugar e, por fim, em razão da presença de viajantes que buscaram estes elementos. Sendo assim, os elementos que formam a prática turística são frutos das ações de determinados atores que colaboraram com a inovação de certas práticas e permitiram sua reprodução por outros atores. Dessa maneira, pode-se afirmar que ao mesmo passo em que se tem um conjunto de atores que realizam estratégias e ações para o turismo no território estudado, essas mesmas práticas e representações servem de referência para uma sociedade em relação a qual se está situado.

Deve-se levar em consideração, portanto, duas temporalidades: uma bastante pontual, com uma duração bem específica e identificável e a outra mais longa, com um tempo de consolidação maior. A primeira, curta e pontual, geralmente se refere a uma aceleração súbita do tempo, muitas vezes devido à ação de uma personalidade notável, que lança o lugar em uma nova dimensão (MIT, 2002). Quando importantes médicos e políticos se inspiraram em modelos europeus para lançar a Suíça brasileira, observamos a apropriação e reinvenção de certas práticas que transformam o lugar.

A segunda, expressa numa duração intermediária, envolve o tempo necessário para o surgimento e constituição da novidade, isto é, o tempo que leva para a difusão da prática.

Assim, a fama de Campos do Jordão enquanto destino de saúde reconhecido nacionalmente é observado segundo uma duração mais longa. Por conseguinte, o desejo de um novo uso para lugar também permite a observação dessas diferentes temporalidades.

Dessa forma, a presença da Cia de Melhoramentos em Campos do Jordão e as ações de algumas personalidades políticas em prol do turismo também são exemplos dessa primeira temporalidade, que gera uma duração bastante específica que é capaz de dar novos usos ao lugar, reimprimindo e renovando práticas observadas em esquemas antigos, outrora utilizados pela saúde. Por conseguinte, observa-se também a segunda duração, fator que observamos no território estudado, por exemplo, a partir do movimento em prol da difusão do turismo e criação de uma “mentalidade turística” iniciados na década de 1950 que visam consolidar a nova prática.

Esse movimento, de infusão e difusão do turismo permite conceber o efeito temporal das condições societais, em um dado momento, sobre as práticas individuais. Dessa maneira, o estudo da prática turística nesta forma de abordagem permite tanto as análises no âmbito do indivíduo e seus tempos individuais, quanto de gerações e de sociedades e seus tempos coletivos. Assim, o tempo que demanda a invenção, adoção e difusão da prática turística é observado segundo uma duração variável (MIT, 2002).

A observação do turismo a partir dessa lógica permite, segundo a equipe MIT, compreender o movimento de desenvolvimento do turismo, que é caracterizado por um mecanismo de diversificação das práticas. Mais do que uma sucessão, as práticas turísticas

“evoluíram através da diversificação, criando práticas renovadas que se conectam com novas lógicas segundo as épocas19” (MIT, 2005, p. 314).

Ao estudar Campos do Jordão sob esta lógica, pretendeu-se compreender o movimento de criação e recriação do turismo neste território, observando como o território media, adapta e modifica os eventos que permitiram desenvolver o turismo durante o período proposto para aprofundamento dos estudos desta tese. Mas este movimento foi observado sempre considerando o vínculo da criação e renovação das práticas com o sistema espacial. Isso

                                                                                                                         

19 [...] les pratiques touristiques ont évolué en se diversifiant, créant des pratiques renouvelées se connectant selon les époques avex des logiques nouvelles.

porque o espaço é a base da prática turística, que é formada a partir do gosto frente ao espaço, cujo interesse foi socialmente e temporalmente construído.

Há de se considerar neste processo de construção do interesse social pelo território estudado, a importância das qualidades do espaço para o desenvolvimento da prática em questão. O turismo traz a marca do território onde está localizado, mas é também fator de organização espacial. Ou seja, a atividade é tanto estruturante como estruturada em relação ao seu ambiente ou suporte espacial. Mas deve-se considerar que o espaço, nessa proposição, não é apenas um suporte. “Ele tem suas próprias leis de distribuição, diferenciação e suas propriedades características [...], e também está em jogo entre os atores do turismo20” (BERNARD, BOUVET, DESSE, 2014, p.11).

É nesse sentido, que os autores do MIT propõem o estudo a partir da definição das qualidades do espaço turístico, formado por condições específicas e por condições substitutivas. As condições específicas são aquelas que não são reproduzíveis, tais como uma paisagem, o relevo, o clima. Esses elementos, que são específicos e remetem à localização, não são dados, mas sim revelados por um olhar diferente direcionado pelos atores. Já as condições substitutivas designam as estruturas adaptáveis, construídas com a intenção de reforçar as qualidades específicas. Um hotel com vistas à montanha, seria portanto, uma condição substitutiva (MIT, 2005).

O encontro dessas condições, que formam as qualidades do lugar, também carregam o movimento que incorpora o passado e o presente em uma interação com outros lugares. No caso de Campos do Jordão observa-se como as condições específicas e substitutivas referentes ao período da saúde no território são adaptadas e recondicionadas ao período do turismo, revelando como elementos que correspondem a idades distintas são justapostos com o objetivo de lançar o território a uma outra dimensão, inserindo o destino Campos do Jordão no circuito do turismo nacional.

Dessa maneira, observou-se como o planejamento urbano, a configuração de determinadas instituições e as atitudes políticas presentes no território estudado, revelam a conjunção do tempo das diversas ações vindas de um período anterior e que se desdobram segundo novas lógicas, dando novas significâncias às fontes materiais sobre o espaço                                                                                                                          

20  S’il a ses propres lois de répartition, de différenciation et ses propriétés caractéristiques […], il est aussi enjeu entre les acteurs du

tourisme.  

analisado. Assim, considerou-se que o espaço, nestas condições, “deve ser apreendido como acumulação de tempos e como possibilidade do tempo se fazer” (SILVEIRA, 2003, p.1).

A opção por introduzir a dimensão temporal e espacial de forma combinada nas análises do objeto em questão, exigem, contudo, uma metodologia que permita estudar a totalidade do processo de moment de lieu em movimento. Embora os autores do MIT apresentem essa dinamicidade por meio dos conceitos de “ar do tempo” e “efeito do lugar”, considerou-se que uma terceira categoria de análise poderia complementar a coerência interna dos elementos analíticos ante o objeto estudado: os eventos.

Considerou-se, para tanto, que os eventos são os vetores da dinamicidade espacial e temporal, pois permitem unir a análise de objetos e ações de forma ampliada, buscando, sobretudo, empiricizar o tempo e o aproximá-lo da concretude do espaço. Trata-se assim, de uma categoria de análise que permite captar elementos fluídos e dispersos nas análises do turismo e agregá-los em um movimento de temporalização do espaço e espacialização do tempo. Para melhor compreender o conteúdo e extensão do “evento” enquanto categoria de análise, aprofundaremos seu estudo no item a seguir.

3.3 O estudo dos eventos: a totalidade em movimento  

  Passível de múltiplos significados, a palavra “evento” ganha diferentes sentidos e também outros nomes. Do latim, eventus, o vocábulo designa um acontecimento, o sucesso, um resultado, a saída, o desenlace, uma resolução ou um fim. Dada a natureza diversificada de suas acepções, observa-se também diferentes qualificações do vocábulo pelos autores que fazem o uso científico do termo.

Segundo Santos (1996, p.114), no âmbito da Geografia, enquanto “Lefebvre escreve a palavra momento, Bachelard fala de instante e Whitehead de ocasião”, designando diferentes sistemas de ideias na teoria dos eventos. Para o autor, é necessário que a teoria geográfica seja coerente e propõe a construção do conceito de evento sob uma nova perspectiva. Tal necessidade é, na verdade, reflexo de um movimento maior acerca dos avanços no entendimento formal do espaço e do tempo.

Até o início do século XX, espaço e tempo eram pensados de forma separada. O conceito de espaço-tempo surge após a revolução dos conceitos de física clássica com a teoria

Documentos relacionados