1. Introdução
2.3 Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos como
2.3.1 A questão dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos
No Brasil, pode-se destacar que os direitos sexuais e reprodutivos têm sido promovidos, principalmente, a partir de duas interconexões: uma referente às políticas de saúde e outra no que tange ao controle de violência.
No que se refere às políticas de saúde, as questões referentes ao que se pode compreender como saúde sexual e reprodutiva passaram por três fases principais (MANDÚ, 2002), sendo um modelo eugênico-higienista desde o final do século XIX até meados do século XX e, depois, a reprodução compreende algumas políticas públicas como parte de um projeto médico até a década de 1970; e, por fim, a implicação da reprodução e da sexualidade à luz dos direitos sociais entre os anos 1980 e 1990.
Há que se considerar também, ainda nesta perspectiva, o impacto da AIDS no Brasil para a promoção de discussão relativa à saúde sexual. Desse modo, a sexualidade ganha centralidade ao ser direcionada do âmbito privado para o espaço público, no que se refere às questões de serviço de saúde. Embora se utilizando de uma linguagem da saúde, o advento da AIDS nos anos 1980, no Brasil, alarmou para a emergência dos direitos sexuais. Ou seja, a questão de garantia de direitos se conectou a uma pauta vinculada à promoção de saúde.
Desde então, as questões ligadas à saúde sexual para homossexuais e profissionais do sexo foram se ampliando, ganhando ainda mais destaque com a grande infecção de mulheres pelo vírus HIV. Deste modo, as políticas de prevenção e controle da epidemia se ampliaram, desde às pressões dos movimentos homossexual e feminista no início da doença.
Outro fator vinculado ao escopo dos direitos sexuais e reprodutivos foi o controle da violência. Esta questão se tornou alvo de políticas no Brasil, que têm sido respaldadas por investidas do poder público principalmente no que se refere à violência de gênero. A criação das Delegacias de Defesa da Mulher (DDM) já em meados da década de 1980 com atendimento especializado para atender mulheres vítimas de agressão se mostrou um importante instrumento pela mobilização de mulheres contra essa realidade presente no cenário brasileiro. (DEBERT, 2006).
40 Mais recentemente, houve a criação da lei 11.340/0628, conhecida como Lei Maria da Penha. Essa lei tem em seus objetivos a ampliação da proteção da vítima contra o agressor, até para que o processo movido contra este possa ser efetivado, corroborando assim para que a violência doméstica e familiar contra a mulher seja coibida.
A alteração do Código Penal Brasileiro para que o agressor seja preso em flagrante ou tenha prisão preventiva decretada, com pena máxima de três anos, e não mais o uso de penas alternativas, aponta como as mulheres se configuram como um grupo de investimento político contra a violência. Entretanto, há que se considerar a forma como essa violência tem sido pensada, na medida em que se restringe a “violência familiar” (DEBERT, GREGORI, 2008), de modo a invisibilizar outras formas de violência sofrida pelas mulheres, como o assédio sexual.
No entanto, quando a mesma questão da violência se volta para o público LGBT, a interferência do poder público tem se mostrado menos entusiástica. A violência contra pessoas LGBT, motivada por ódio ou preconceito, foi cunhada inicialmente pelo movimento como homofobia. Atualmente, as políticas do movimento social já diferenciam a violência "homofóbica" como específica contra homossexuais, a “lesbofobia” como prática de violência específica para com as lésbicas e a “transfobia” como prática específica contra travestis e transexuais.
A este respeito, o Grupo Gay da Bahia tem feito um trabalho importante ao lidar com as estatísticas de violência letal contra essas pessoas, com relatórios anuais29. Segundo Ramos (2005), esses dados têm sido utilizados como meios de reflexões para o aprimoramento de políticas de segurança para os LGBTs, bem como proposto a análise de violência não letal.
Entretanto, no que se refere à violência motivada por preconceito contra pessoas LGBTs, as políticas públicas e a legislação ainda se mostram insuficientes. O Programa Brasil sem Homofobia, implantado em 2004, criado com o objetivo de ampliar as políticas públicas para ações de Direitos Humanos para este público, tem orientado a formação de centros de referência para a defesa dos direitos dessas pessoas.
Em relação ao legislativo, a principal demanda do movimento social tem sido a aprovação do projeto de lei PLC 122/2006, que criminaliza a homofobia nos mesmos moldes
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A íntegra da lei 11.340/06 encontra-se disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004- 2006/2006/lei/l11340.htm>. Acesso em 19/06/2013.
29 Os relatórios anuais encontram-se disponíveis no link:
<http://www.ggb.org.br/Assassinatos%20de%20homossexuais%20no%20Brasil%20relatorio%20geral%20comp leto.html>. Acesso em 21/07/2013.
41 que o racismo se enquadra como crime. Entretanto, o projeto segue em tramitação no Senado com forte oposição de bancadas ligadas a doutrinas religiosas. (NATIVIDADE; OLIVEIRA, 2009).
Assim, pode-se perceber que as questões envolvendo os direitos sexuais e os direitos reprodutivos desdobraram-se em ações voltadas para a saúde, especificamente a da mulher (MEYER, 2004), no modo a reposicionar questões relativas à reprodução e a sexualidade a implicações políticas, bem como em ações para o combate à violência por gênero, por orientação sexual e identidade de gênero. Há que se considerar a forma como estas ações são negociadas na esfera pública, em virtude do forte conservadorismo religioso cristão presente nas opiniões dos parlamentares brasileiros.
Já no que se refere às questões voltadas para a garantia de direitos no próprio âmbito jurídico, o cenário tem se mostrado menos conservador. O Poder Judiciário tem oportunizado cada vez mais às demandas de lésbicas, gays e pessoas travestis e transexuais. Esse vanguardismo do Poder Judiciário tem se expressado em diversas sentenças favoráveis às questões propostas pelos LGBTs, como o reconhecimento de uniões entre casais de pessoas do mesmo sexo para determinados casos envolvendo direitos e bens, bem como a autorização de mudança de nome no registro civil de pessoas transexuais. (FACCHINI; FRANÇA, 2007). Sobre isso, Carrara salienta que:
Embora o legislativo federal brasileiro se mostre particularmente avesso a legislar sobre questões relevantes para esses atores, a eles o judiciário vem estendendo, de modo notável, direitos antes negados. No que se refere aos chamados direitos de família, além do reconhecimento de direitos previdenciários, os recentes casos de reconhecimento do direito de adoção por ‘casais do mesmo sexo’ pela justiça nos estados do Rio Grande do Sul, São Paulo, Acre e Distrito Federal merecem ser registrados. As recentes autorizações legais para registro do nome de dois pais ou de duas mães, em certidões de nascimento e, portanto, em carteiras de identidade é uma ruptura simbólica das mais impressionantes no que tange aos valores convencionais relativos à filiação. Quanto às relações estáveis entre pessoas do mesmo sexo, um novo cenário se abriu recentemente, envolvendo o Supremo Tribunal Federal [...]. (CARRARA, 2010, p. 137).
Esse posicionamento do Poder Judiciário por meio do Supremo Tribunal Federal, em maio de 2011, foi um importante evento do cenário nacional, na promoção dos direitos sexuais. Seus desdobramentos na prática adotiva homossexual, por meio da possibilidade de também ser pleiteada de forma conjunta, provocará mudanças significativas nas representações de famílias e homossexualidades. No entanto, insta questionar o lugar que este reconhecimento pelo Estado tem sido dado: se seria uma busca por direitos civis ou uma conformação aos imperativos heteronormativos.
42 Há que se considerar, deste modo, que as políticas de saúde e as políticas de controle da violência de gênero e por preconceito à orientação sexual tem se efetivado como contribuição para a efetivação dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil.