CAPÍTULO II: O DISCURSO INSTITUCIONAL E SEU ALVO
2.2. Problematizando dizeres institucionais
2.2.1. A (re)captura
Neste subitem, tecemos considerações a respeito do processo seletivo e dos critérios utilizados para selecionar jovens para o programa JE. Com o estudo desses critérios, pode-se perceber a que tipo de jovem o Programa visa.
Inicialmente, a título de uma contextualização mais ampla, consideramos relevante mencionar que, além do Jovens Embaixadores, a Embaixada dos EUA no Brasil tem outros programas inseridos em sua chamada “missão diplomática” em relação ao Brasil. A esse respeito, segundo o site da Embaixada, em 2015,
[a] Missão Diplomática dos EUA oferece programas nos seguintes segmentos principais: Líderes, professores, estudantes e jovens. Além disso, oferecemos vários programas para incentivar o estudo do inglês. Seja qual for seu interesse, a Missão Diplomática dos EUA no Brasil precisa de sua ajuda para construir o relacionamento EUA/Brasil a fim de garantir um futuro brilhante para os dois países.
Promover integração entre líderes
Compartilhar melhores práticas com diretores de escolas e professores Oferecer oportunidades a estudantes
Atuar junto aos jovens
Ensinar inglês e compartilhar a cultura americana Orientar sobre estudos nos EUA
Esse excerto traz uma lista de itens, que parecem ser objetivos da Missão Diplomática dos EUA no Brasil, muito embora não sejam apresentados como tal. Essa impressão é causada pelo fato de que os itens estão elencados em verbos na forma infinitiva, o que produz o efeito de sentido de que são ações elencadas para serem executadas, no âmbito dos programas da Missão. Assim como no caso do JE, esses outros programas parecem focar o estímulo de estudantes e professores a conhecer, vivenciar e se identificar com a cultura norteamericana, sempre na/através da LCI, pois envolvem cursos ou estágios nos EUA. O discurso é o mesmo empregado no JE: com um caráter neoliberal, prega-se a cooperação entre os países (como se pode observar em promover a integração [...], compartilhar [...], atuar junto a [...] e orientar) e o sucesso pessoal e profissional, como se pode perceber em Líderes, oportunidades, atuar e melhores práticas. Inclusive, o trecho a fim de garantir um futuro brilhante para os dois países simula que os dois países se encontrariam em pé de igualdade, mas a ideia de um futuro brilhante é altamente questionável, pois dificilmente esse ideal e os planos seriam os mesmos para os jovens dos dois países. A atribuição do adjetivo Líderes aos participantes (a serem) selecionados aponta para a ideia de que estes seriam socialmente bem relacionados e, portanto, potenciais divulgadores de uma boa imagem dos EUA. Ao mesmo tempo, essa adjetivação produz um efeito de sentido de superioridade concedida aos
participantes dos programas, ao supostamente terem chances de serem economicamente bem sucedidos através de seu engajamento como JEs (já que o termo Líderes remete ao jargão empresarial) e, além disso, apelando para o desejo de reconhecimento, que é bastante típico do adolescente e, muito mais, do jovem de baixa renda.
Da mesma forma, é questionável a ideia de se garantir um futuro brilhante, já que nada é garantido; o que há são atitudes fortemente incentivadas. Além disso, todos os itens sugerem que estão sendo oferecidas condições melhores; portanto, supõem que o que se tem, no Brasil, não é bom, ou é de qualidade inferior ao que a Embaixada e/os EUA têm a oferecer. Independentemente de se ter ou não condições boas ou ruins e se precisar ou não de ajuda, a maneira como são colocados os objetivos e os modos de operacionalização do programa apontam para uma posição, assumida pela Embaixada, de superioridade, de quem tem algo que é bastante atrativo para o outro a quem supostamente faltam atrativos.
A seleção dos jovens que participam a cada ano se dá através de um processo seletivo lançado em todo o Brasil, visando a contemplar representantes de todos os estados. Os cinquenta melhores colocados no processo são premiados com uma viagem de três semanas aos EUA, enquanto os semifinalistas (cerca de 130 jovens) ganham um curso de imersão na LCI na Casa Thomas Jefferson, um BNC, em Brasília. O nosso estudo focará os finalistas, pela sua experiência do contato presencial com o Outro-estrangeiro.
Quanto aos objetivos do programa, consta o seguinte no site da Embaixada norteamericana:
[o] Programa Jovens Embaixadores busca beneficiar alunos brasileiros da rede pública de ensino que são exemplos em suas comunidades por meio de sua liderança, atitude positiva, consciência cidadã, excelência acadêmica, [sic] e conhecimento da língua inglesa.
Esses objetivos de estímulo a uma conduta aparentemente desejável, baseada numa suposta relação de consenso internacional, se consolidam no conjunto de rígidos critérios para a seleção dos jovens que irão participar do programa, como se vê a seguir, em trecho do site da Embaixada.
Pré-requisitos para o programa de 2014/2015:
Ter entre 15 e 18 anos (candidatos não poderão ter mais que 18 ou menos que 15 anos no dia 31 de janeiro de 2015).
Jamais ter viajado para os Estados Unidos. Ter boa fluência oral e escrita em inglês. Ser aluno do ensino médio na rede pública.
Pertencer à camada sócio-econômica menos favorecida. Ter excelente desempenho escolar.
Ser comunicativo.
Possuir boa relação em casa, na escola e na comunidade.
Estar engajado, por pelo menos 1 ano, em atividades de responsabilidade social/voluntariado.
Percebe-se, nesses objetivos e critérios de seleção declarados, um projeto de estímulo à boa conduta, através da premiação pontual a jovens que sejam “exceções”. São critérios bastante específicos e restritivos, se pensarmos que essas características são raramente encontradas todas em uma mesma pessoa, especialmente no Brasil, país em que, sabidamente, há grande carência de recursos no sistema político-educacional, sobretudo na rede pública de ensino. Observemos, por exemplo, o sintagma excelência acadêmica, que remete à ideia de perfeição, a partir de um desejo de completude (sempre inatingível, como se poderá observar mais adiante). Ora, o adjetivo acadêmica implicaria o desempenho discente em um curso de nível superior, o que não é o caso de nenhum candidato a JE, já que o público-alvo são alunos do ensino médio. A observação desse sintagma reitera uma possível produção de efeito de sentido de que se espera dos jovens um nível de comprometimento com a vida estudantil incompatível com sua faixa etária e com as condições intelectuais que teriam enquanto estudantes do ensino médio.
Em relação ao critério que estabelece que o jovem candidato não deve [j]amais ter viajado para os Estados Unidos, observamos que este parece ter a função de garantir que o país receptor lhe seja apresentado apenas através do foco da Embaixada, que é um olhar específico, enviesado, já que proposto pelo Programa e, portanto, discursivizado pela instituição proponente. O jovem que não teve um contato prévio com a LCI, no país de origem, terá, em seu período de três semanas, acesso a um recorte de uma LC, ou, dizendo de outra forma, ele terá acesso a um país narrado pelo seu poder público, através da voz da sua Embaixada. E, do país, ele só verá aquilo que for definido pela Embaixada como o que deve ou interessa ser mostrado. Ou seja, seu contato com a LCI dar-se-á a partir da voz e do olhar do Outro-Embaixada dos EUA.
Problematizamos o sintagma responsabilidade social, presente no último pré- requisito elencado pela Embaixada, como carregado de um sentido próprio nos campos da economia e da assistência social. Ao buscar aporte teórico para apreender o funcionamento desse sintagma no contexto desta pesquisa, entendemos que o termo remete ao âmbito empresarial. A esse respeito, Eon (2015, p. 1) afirma que
[a] responsabilidade social é quando empresas, de forma voluntária, adotam posturas, comportamentos e ações que promovam o bem-estar dos seus públicos interno e externo. É uma prática voluntária pois não deve ser confundida exclusivamente por ações compulsórias impostas pelo governo
ou por quaisquer incentivos externos (como fiscais, por exemplo). O conceito, nessa visão, envolve o benefício da coletividade, seja ela relativa ao público interno (funcionários, acionistas, etc.) ou atores externos (comunidade, parceiros, meio ambiente, etc.) (EON, 2015, p. 1).
Apesar das palavras aparentemente despretensiosas citadas acima, Eon (2015, p. 2) afirma, mais à frente, em seu texto:
[é] importante frisar que o conceito não deve ser confundido com filantropia ou simples assistência social [...].. Não há viés assistencialista uma vez que há uma lógica embutida de desenvolvimento sustentável e crescimento responsável. A maior parte das empresas que adotam posturas socialmente responsáveis auferem um crescimento mais sustentável, ganhos de imagem e visibilidade e são menos propícias a litígios ou problemas judiciais (EON, 2015, p. 2).
Como se pode perceber, a responsabilidade social vem a ser um conjunto de atitudes que uma empresa toma, como as de proteção à criança, ao meio-ambiente, ao trabalhador, enfim, o fato de “[a]gir de modo aceito como correto pela sociedade” (EON, 2015, p. 3), que, por sua vez, será a consumidora de seus produtos ou serviços. Há, aí, a contrapartida da construção de uma imagem socialmente bem aceita, o que irá garantir ou alavancar os lucros da empresa. Eon (2015, p. 2) até cita as variadas certificações socioambientais que uma empresa pode pleitear ao ter comprovadas ações “socialmente responsáveis”. Entre elas, as “mais cobiçadas” atualmente, segundo o autor, são o Selo Empresa Amiga da Criança, o ISO 14000, o AA1000, o SA8000 e o ABNT-ISO 26000. Esses certificados são comumente ostentados por muitas empresas em seus produtos ou em suas variadas formas de comunicação com seus clientes, uma vez que “atest[a]m sua boa prática empresarial”, segundo o autor. São “selos” que podem fazer diferença para uma empresa, no sentido de que podem atrair a simpatia do cliente e, assim, influir positivamente na decisão de compra de um produto ou serviço.
Friedman (1970, p. 6) reflete que, na prática, a doutrina da responsabilidade social é muito mais um disfarce para ações que, na realidade, têm por base outros motivos, diferentes daqueles que normalmente motivariam essas ações. O economista exemplifica sua afirmação pensando que uma empresa, ao destinar verbas para conferir benefícios à comunidade em que se insere, pode, como consequência, conseguir os melhores funcionários, economizar na folha de pagamentos e reduzir eventuais perdas referentes a furtos ou sabotagem, além de reduções fiscais concedidas legalmente. Entendemos que o autor provavelmente se refere à imagem positiva que projeta a empresa na comunidade, além de mencionar a real contrapartida governamental que é a redução de impostos, praticada em muitos países.
Garcia (2004, p. 7) afirma que “[a] combinação entre interesses privados e virtudes públicas está em alta no mundo dos negócios e [...] as empresas querem ver seus nomes ou de seus produtos associados à ideia de responsabilidade social”. Ademais, a autora pontua, também, que em alguns países, a responsabilidade social se dá devido a mudanças sociais que exigem maior engajamento das empresas “a favor” da sociedade, podendo resultar em ações concretas, como uma maior preocupação em relação aos produtos e sua adequação ao uso pelos consumidores, bem como maior zelo em relação a questões trabalhistas e ambientais. Em outros países, afirma Garcia (2004, p. 8), ela consiste de “estratégias de marketing que buscam associar o produto ou a empresa a um conjunto de valores favoráveis”. A autora conclui que, em comum, ambas as abordagens têm buscado “relativizar o aparente antagonismo entre interesses privados e compromissos públicos”.
Retomando nosso olhar sobre os critérios de seleção do Programa Jovens Embaixadores, a nosso ver, o conjunto de critérios para a seleção dos candidatos à “viagem- prêmio”26 delineia esse programa dos governos federais dos países envolvidos como uma maneira de uniformizar e disciplinar jovens, tendo o discurso do “marketing do bem” como um poderoso instrumento de captura, estratégia do poder disciplinar, num processo de docilização dos corpos e mentes para que sejam produtivos, como teoriza Foucault (1999) e conforme discutido no Capítulo I desta tese. Também podemos pensar no processo seletivo do JE como numa estratégia típica do que Foucault chama de tecnologias de poder, que, por sua vez, figuram entre outros tipos de tecnologias, constituindo o que o autor chama de governamentalidade (FOUCAULT, [1982] 2004), já abordada em 1.6.2. Além disso, esses critérios rigorosos e exigentes produzem o efeito de sentido de que o programa funciona como um prêmio para os alunos que são muito bons, destacando-se dos demais. Dessa forma, coloca o programa, assim como o país que o promove, num patamar de superioridade em relação ao país receptor. No material referente ao programa JE, no site da Embaixada dos EUA, percebe-se que é esperada dos jovens uma conduta que, inclusive, sirva de modelo para outros jovens, já que se buscam alunos que sejam exemplos em suas comunidades.
Como se pode ver, a maneira como se dá o agenciamento dos jovens a esse tipo de poder, através do programa, pode ser observada a partir da disposição das informações a respeito do mesmo, principalmente na rede social Facebook e no site da Embaixada dos EUA. Além dos textos escritos na página do Programa no Facebook e no site da Embaixada, outros
26 Chamamos a viagem de “viagem–prêmio” devido à maneira como esta é representada no dizer da Embaixada
dos EUA e dos próprios JEs, isto é, como um prêmio aos jovens que se adequam ao que é esperado da Embaixada: são bons alunos, bons filhos e bons cidadãos.
tipos de conteúdo midiático também funcionam de maneira aparentemente bem eficaz no agenciamento dos jovens, como postagens individuais dos próprios jovens e vídeos no YouTube.