CAPÍTULO III: UM CASO DE AMOR COM A LÍNGUA-CULTURA DO OUTRO
3.3. Transformar-se no contexto de uma outra discursividade
Partindo da visão discursiva de que o sujeito produz sentidos ao enunciar e da perspectiva lacaniana do sujeito como clivado por ter seu dizer atravessado pelo inconsciente,
consideramos importante, para este estudo, abordar a questão da narrativização de si e do outro.
Ao escrever ou falar, o sujeito diz e se diz, produzindo sentidos (cujos efeitos não consegue controlar, a não ser ilusoriamente) a respeito de si e do outro. Essa narrativização implica um movimento de memória e esquecimento, que possibilita ao sujeito inventar e se (re)inventar a cada edição do “mesmo”. O papel da memória nesse processo pode ser entendido a partir de Freud ([1924] 1925), que, através da figura do brinquedo conhecido como Bloco Mágico39, explica cada edição do “mesmo” fato ou experiência como uma nova e diferente incursão na memória. A narração de algo implica a ativação do aparelho mnêmico e o que se crê ser uma reedição do mesmo nunca traz o mesmo, já que as circunstâncias de cada enunciado são sempre outras, sempre diferentes em relação a outros movimentos enunciativos do “mesmo” fato ou experiência. Derrida (1971, pp. 186-187), remetendo ao Bloco Mágico de Freud, afirma que a memória é constituída a partir da repetição de impressões, que se gravam no aparelho psíquico do sujeito e têm a função de resistir à ruptura (isto é, ao esquecimento). Mas o autor pontua que se fazem frequentes explorações ao que está gravado na memória, ou seja, aos traços nela sulcados, e que cada exploração carrega diferenças em relação às gravações anteriores, a exemplo do traço sobre a cera do Bloco Mágico. Derrida considera, portanto, que “não há exploração sem diferença” e afirma que “a diferença entre as explorações [...] é a verdadeira origem da memória e do psiquismo”.
Assim, o sujeito, ao (se) dizer, em diferentes ocasiões, está sempre fazendo explorações mnêmicas e diferindo, nos dois sentidos derrideanos do verbo, isto é, trazendo diferença(s), de alguma forma, e adiando, ou seja, deslizando entre sentidos, a cada exploração, ao mesmo tempo em que protege o sujeito, “diferindo o investimento perigoso” (DERRIDA, 1971, p. 186).
O sujeito, assim, reinventa o outro e a si mesmo, numa narração que faz parte da constituição de sua própria identidade, de sua verdade sobre si, que ele constrói e reconstrói o tempo todo. Ao escrever(-se) ou falar(-se), é nos interstícios de diferença (entre uma narração e outra) que o sujeito (re)constrói sua historicidade, pela escrita, pela voz ou por outras formas
39 O bloco mágico, como explica Freud, era um brinquedo, usado para se escrever ou desenhar, que consistia de
uma superfície de cera, sobreposta por duas folhas, que podiam ser levantadas e separadas da superfície de cera: uma de papel encerado e outra de papel transparente. O adjetivo “mágico” no nome do brinquedo se deve ao fato de que se podia escrever sobre a folha transparente, com um objeto pontiagudo, produzindo traços, mas que, com o levantamento das folhas, os traços pareciam se apagar, pois já não se viam mais nas folhas; porém, estavam marcados na superfície de cera. Freud compara a superfície de cera do brinquedo ao inconsciente, ao observar que, embora os traços sejam aparentemente apagados, eles podem ser vistos, com boa iluminação e sob um determinado ângulo do olhar, a exemplo do inconsciente, no qual marcas são feitas e nunca apagadas, embora não possam ser vistas na “superfície” do sujeito, a partir do registro consciente.
de linguagem. E entendemos que isso se aplica não apenas nos momentos de relatos de fatos ou experiências passadas, mas, também, na narrativização do novo, que implica rearranjos a partir do já vivido, que sempre deixa traços, marcas indeléveis de si. A escrita produzida pelo sujeito, assim como sua voz, que ele escande e ouve, operam como o outro que o constitui e o altera a cada enunciado, como considera Barroso (2014, pp. 22-23):
[q]uando escrevemos (ou falamos) sobre nós mesmos e/ou sobre o outro, somos leitores/ouvintes de nossos próprios escritos/falas. Produzem-se verdades através dessa escritura, que é, assim, a criação de si e do outro pela escrita (ou pela fala), a ficção de si e do outro. O sujeito, nesse processo, inscreve-se na discursividade da língua na qual está (se) dizendo, seja ela sua LM ou uma LE: provocam-se mudanças no autor e no leitor do texto, com deslocamentos subjetivos, através das palavras, que assumem múltiplos sentidos (BARROSO, 2014, pp. 22-23).
Tavares (2014, p. 52) argumenta que a inscrição do sujeito na discursividade de uma LE implica uma possível posição discursiva diversa daquela ocupada na língua materna e, consequentemente, uma sutil reconfiguração da subjetividade. Segundo Coracini, (2010b, p. 44), as mudanças que ocorrem no sujeito são tão profundas que inclusive sua própria LM é ressignificada. Foucault (1992, p. 144) considera que, “[p]elo jogo das leituras escolhidas e da escrita assimiladora, deve tornar-se possível formar para si próprio uma identidade [...]”. Assim, essa escritura – também na língua estrangeira e seja ela em linguagem escrita, oral ou outra – tem papel fundamental no processo de constituição subjetiva e na construção identitária. É preciso, aqui, pensar que a construção da identidade implica, necessariamente, a alteridade, uma vez que o sujeito se constitui a partir do Outro, isto é, da imagem de si, conforme refletida pelo Outro, e nas identificações com este.
Acreditamos que o estudo dos processos de subjetivação na perspectiva foucaultiana nos possibilite verificar se há ressignificação subjetiva em termos de mudança de posição dos sujeitos participantes, favorecida pelo contato presencial com o Outro-estrangeiro e sua LC. Para entender a questão da ressifignicação subjetiva, no contexto de subjetivação, pensemos, com Foucault (1995, p. 235), que “[h]á dois significados para a palavra sujeito: sujeito a alguém pelo controle e dependência, e preso à sua própria identidade por uma consciência ou conhecimento. Ambos sugerem uma forma de poder que subjuga e torna sujeito a” (FOUCAULT, 1995, p. 235).
Como seres inseridos numa engrenagem social, estamos sempre sujeitos a algum tipo de controle, seja este exercido pelo Outro, no que tange às relações com o Outro – relacionado direta ou indiretamente a alguma instituição – ou por nós mesmos. Quanto mais
consciência/conhecimento o sujeito tem de si, maior o seu cabedal de mecanismos de controle de sua própria subjetividade, através de técnicas de disciplina de si.
Por outro lado, segundo Revel (2005, p. 82), a partir de seu estudo da obra de Foucault,
[o]s “modos de subjetivação” ou “processos de subjetivação” do ser humano correspondem, na realidade, a dois tipos de análise: de um lado, os modos de objetivação que transformam os seres humanos em sujeitos – o que significa que há somente sujeitos objetivados e que os modos de subjetivação são, nesse sentido, práticas de objetivação; de outro lado, a maneira pela qual a relação consigo, por meio de um certo número de técnicas, permite constituir-se como sujeito de sua própria existência (REVEL, 2005, p. 82).
A partir das duas últimas citações, de Foucault e de Revel, observamos que, embora esse “constituir-se” implique, em algum nível, uma certa autonomia psíquica e disciplinar, não significa ser dono e senhor de seu dizer e fazer, já que ser sujeito é ser assujeitado. Portanto, sob essa visada, ninguém é capaz de controlar totalmente sua própria vida, já que todos somos assujeitados a muitos Outros, sendo o primeiro deles a linguagem. Mas, por outro lado, também pensamos que, embora o sujeito seja sempre controlado por um Outro (seja este o Outro exterior a si ou o outro de si), há a possibilidade de fazer escolhas não tão atreladas ao controle do Outro. É o que entendemos da afirmação de Revel, em “constituir-se como sujeito de sua própria existência”. As tecnologias de si (FOUCAULT, [1982] 2004) determinam, no sujeito, uma relação consigo mesmo, relação na qual o sujeito pode ficar preso a uma identidade ou transformá-la para atingir determinados objetivos. Interessa-nos observar, nos participantes da pesquisa, o entremeio ou a intersecção entre esses dois pontos que mencionamos. Pretendemos, portanto, estudar se há a possibilidade da constituição de nova(s) forma(s) de subjetividade a partir de uma reinvenção de si, com as experiências vividas durante o programa JE e, talvez, até um deslocamento da posição de ser mais objetivado/assujeitado para a de ser menos objetivado/assujeitado e, portanto, mais “sujeito de sua própria existência”, isto é, menos controlado pelo Outro e, se há tal possibilidade, entender e explicitar como se dá esse deslocamento. Sabemos, segundo Foucault ([1983] 1995), que o poder, em si, não é apenas uma instância única e central, mas que também, e, sobretudo na atualidade, funciona na forma de relações de poder. Em relação aos governos federais dos dois países envolvidos nesta pesquisa, não pensamos o Estado como um lugar único de exercício de poder, mas uma instância à qual outras instâncias se referem – e também, independentemente da qual, se articulam.
CAPÍTULO IV: UM OLHAR PARA OS DIZERES SOBRE A RELAÇÃO COM A