2 NOSSA DESCOBERTA: INSTINTO ANTROPOFÁGICO EM DIREÇÃO À
2.1 A revolução social: não somos espanhóis, nem somos portugueses!
2.1.2 A (re)construção da identidade originária pelos colonizados
A doutrina eurocêntrica não irá avançar para além do pragmatismo teórico do nacionalismo. O “problema nacional”, como prefere Amílcar Cabral (1999), dos países colonizados somente pode ser enfrentado por meio do nacionalismo revolucionário. Nesse caso a América Latina58 concebeu, no final do séc. XIX, dois estudos que devem ser vistos como a teoria periférica do nacionalismo.
O primeiro deles, de autoria do cubano José Martí, datado de 1891, denomina-se “Nossa América” (1983). Se a preocupação da teoria do nacionalismo coaduna-se aos elementos de poder e Estado, digno de registro é a definição dada pelo autor sobre o déficit de legitimidade59 do antigo regime colonial: “As repúblicas purgaram, nas tiranias, sua incapacidade de conhecer os elementos verdadeiros do país, de derivar deles a forma de governo, e de governar com eles. Governante, num povo novo, quer dizer criador.” (MARTÍ, 1983, p. 196).
O segundo, produzido em 1903, pelo brasileiro Manoel Bomfim, intitula-se “A América Latina: males de origem” (2008). Fica evidente no texto do autor que o nacionalismo revolucionário decorre do ódio das vítimas coloniais. O mal de origem da América Latina é proporcionalmente igual ao progresso e desenvolvimento econômico que a Europa obteve durante o período colonial à custa do sangue e suor aborígene e negro. Pois, então, a “consciência nacional”, tão falada por Cabral, que
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O leitor pode estranhar que pela primeira vez tenha se deparado com essa terminologia. Ocorre que mantendo a coerência cronológica somente é possível se referir ao nosso continente como América Latina depois de 1860, data que segundo o historiador francês John L. Phelan, o termo foi cunhado para distinguir a parte sul do Rio Grande do lado inglês da América. Sobre isso ver LEITE, George de Cerqueira. A guerra da identidade, FLACSO-Brasil, 2009.
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Martí contrapõem-se a arte de bem governar quando o soberano dispõe apenas da técnica política, mas é despossuído de identidade nacional: “Para tudo isso, onde quer que se governe, é preciso prestar atenção para governar bem; e o bom governante na América não é o que sabe como se governam o alemão e o francês, mas sim aquele que sabe de quais elementos está constituído seu país, e como pode guiá-los conjuntamente para chegar, por métodos e instituições nascidas do próprio país, àquele estado desejado, onde cada homem se conhece e a cumpre sua função, e todos desfrutam da abundância que a Natureza colocou para todos no povo que fecundam com seu trabalho e defendem com suas vidas. O governo deve nascer do país. O espírito do governo deve ser o do país. A forma de governo deverá concordar com a constituição própria do país. O governo não é mais que o equilíbrio dos elementos naturais do país.” (MARTÍ, 1983, p. 195).
consiste no motor dos processos de independência, regurgita do sofrimento da sociedade colonizada60.
Nesse momento indago-me se o nacionalismo não se caracteriza como fenômeno específico com aplicabilidade restrita às circunstâncias históricas e políticas da Europa? E vislumbro que se algo semelhante ocorreu nos países periféricos, esse movimento seja tão singular quanto o europeu, conhecido como descolonização. E sendo assim, esse processo também possui modus operandi próprio.
Em primeiro lugar, conforme Frantz Fanon “a descolonização é sempre um fenômeno violento.” (s/d, p. 5). É por essa razão que não se reconhece a uniformidade nos processos de independência da América Latina. Os países da América Espanhola seguiram a máxima fanoniana. Já o Brasil, colônia lusitana, tomou outra direção61. Isso, quiçá, explique porque o Brasil teve de recorrer, anos mais tarde, ao mito da democracia racial de Gilberto Freyre para celebrar a mestiçagem como núcleo da identidade nacional.
A descolonização, ainda para Fanon, promove o caos, é o estado de desordem no inconsciente individual e no imaginário coletivo, “...é verdadeiramente criação de homens novos62.” (s/d, p. 7).
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Bomfim, no capítulo batizado como “Reação contra o Estado-metrópole”, explica como se conformou a aversão da colônia, retratada nos inúmeros conflitos, reconhecendo o peso de uma classe em especial, os próprios colonos, que também se revoltaram em face da espoliação praticada pelo Estado: “Voltemo-nos ainda uma vez para a história a ver como nasceu, como se formou, naturalmente e logicamente, e como vem de longe essa indisposição e ódio contra o Estado. Vem dos primeiros dias da colônia; acompanhou as suas primeiras manifestações de vida – é a reação natural do organismo parasitado contra o parasita. Quando as novas nacionalidades deram os primeiros sinais de vida, já o Estado-metrópole era esse odiento aparelho de espoliação e tirania – feroz na opressão, implacável na extorsão. Em certas partes, o estabelecimento colonial começou pela destruição completa de uma civilização, arrasando-se tudo, para apurar nas cinzas de dois impérios alguns sacos de ouro; e, logo, o sangue, as iniqüidades, o furor e a crueldade dos representantes da metrópole indispuseram, para sempre, os naturais com as gentes da península, principalmente com os detentores do poder.” (2008, p. 158).
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Leon Pomer enfatiza que diferente das outras nações latino-americanas a transição no Brasil decorreu sem conflito armado: “... não haverá guerra pela independência e o antigo aparelho administrativo colonial passa a constituir-se no ‘novo’ Estado independente. A cúpula dirigente continua, atravessa incólume a linha que separa as duas etapas históricas. Os donos do poder político e econômico continuam os mesmos, ainda que às vezes mudem as pessoas.” (1983, p. 10).
62 Cabral ao externar sua admiração pela vitória da Revolução Cubana sentenciou: “[...] nenhuma
força do mundo será capaz de destruir a Revolução Cubana, que, nos campos e nas cidades, está criando não só uma vida nova, mas também – o que é mais importante – um Homem novo, plenamente consciente dos seus direitos e deveres nacionais, continentais e internacionais.” (1999, p. 73).
Frantz Fanon expressa com propriedade essa situação, pois além de ser negro é de origem martinicana, uma ilha caribenha que sofreu com a dominação colonial. Mas, especialmente, porque conheceu a história da revolução de São Domingos, colônia francesa localizada também no Caribe. Todavia, o que a colonização, o nacionalismo, a obra de Fanon e os negros têm em comum?
A resposta se descobre ao saber um pouco mais sobre esse levante de 1804, o qual é o exemplo mais nítido de como as nações pós-coloniais não se construíram pela língua ou origem étnica. Pelo contrário, ainda que compartilhassem desses elementos, foram consequências da repugnância dos oprimidos silentes durante anos de tortura e indignidade, que se revolveram contra os representantes da Metrópole, seus irmãos de língua e pátria.
A obra “Os jacobinos negros” (2000) de C. L. R. James aparece nesse contexto como o roteiro emblemático da formação da nação haitiana pelas mãos dos escravos, e que comporta similitudes com todas as lutas nacionalistas operadas na África no século XX. A revolta liderada por Toussaint L’Ouverture63
é a confirmação da descolonização (Fanon) ideológica (Hroch).
O ano de 1804 celebra a vitória da revolução. O seu projeto começou antes de 1791 quando efetivamente ela emerge. Não é coincidência a proximidade com o modelo inspirador, isto é, a Revolução Francesa de 1789. Contudo, segundo relata James, a motivação de Toussaint foi precisamente outra. O livro do padre Raynal escrito em 1790 com o extenso título “História filosófica e política dos estabelecimentos e do comércio dos europeus nas duas Índias”, onde o autor fazia apologia à rebelião de escravos para libertar a África e os africanos. L’Ouverture, tocou-se com a seguinte mensagem:
Se apenas o interesse pessoal predomina entre as nações e os seus senhores, é porque um outro poder existe. A natureza fala em sons mais fortes do que a filosofia ou do que o interesse pessoal. Já existem duas colônias estabelecidas de negros fugitivos onde a força e os tratados protegem-nas de serem tomadas. Esses relâmpagos anunciam o trovão. Um comandante corajoso é tudo de que precisam. Onde está esse grande homem que a Natureza deve aos seus molestados, oprimidos e atormentados filhos? Onde está? Ele aparecerá, não duvidem! Ele
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Escravo até os 45 anos de idade é comparado a Napoleão Bonaparte. C. L. R. James comenta no prefácio de “Os jacobinos negros”: “...Beauchamp, na Biographie Universelle, chama Toussaint L’Ouverture de um dos mais notáveis homens de uma época repleta de homens notáveis. Ele dominou desde a sua entrada em cena até as circunstâncias retirarem-no dela. A história da revolução de São Domingos será, portanto, em grande medida, um registro das suas façanhas e da sua personalidade política.” (2000, p. 15-16).
apresentar-se-á erguendo o estandarte da liberdade. Esse venerável sinal reunirá em torno dele os companheiros dos seus infortúnios. Mais impetuosos do que as torrentes, eles deixarão em todas as partes a marca indelével do seu justo ressentimento. Em todas as partes, as pessoas abençoarão o nome do herói que terá restabelecido os direitos da raça humana; em todas as partes, erguerão troféus em sua homenagem. (JAMES, 2000, p. 38).
A história está repleta desses heróis que sobrevieram à Toussaint, como Artigas, Belgrano, Bolívar, os irmãos Carrera, Martí, San Martín, Tupac Amarú, entre tantos outros64. A descolonização se fez por homens, inspirados em teorias65 tal como L’Ouverture. Esse componente teórico-prático é o que caracteriza a nacionalidade dos projetos de independência das colônias, observa Cabral. Para esse intelectual africano, responsável pela luta em Guiné e Cabo Verde contra as forças portuguesas,
[...] a libertação nacional e a revolução social não são mercadorias de exportação. São (e sê-lo-ão cada dia mais) um produto de elaboração local – nacional – mais ou menos influenciável pela acção de factores exteriores (favoráveis e desfavoráveis), mas determinado e condicionado essencialmente pela realidade histórica de cada povo, e apenas assegurado pela vitória ou a resolução adequada das contradições internas de vária ordem que caracterizam essa realidade. (CABRAL, 1999, p. 77).
Quando Cabral conclama a revolução social ele está se referindo ao primeiro passo para a total libertação dos povos dominados pelo colonialismo. Para ele, a autodeterminação dos povos abre caminho para projetar o horizonte de progresso da África “[...] a sua evolução económica, social e cultural [...].” (1999, p. 67). Essa observação é importante, pois antecipa as variantes empíricas do que décadas mais tarde norteia os prolegômenos dos estudos pós-coloniais.
Enfim, para que se possa finalizar esta reflexão e orientar as subseqüentes, proponho a seguinte hipótese: o que para o Centro é tido como Modernidade, Sociedade de Classes e Nacionalismo, para a Periferia as mesmas ocorrências são mais bem definidas como Colonialismo, Racismo e Independência. O começo e o fim desses projetos foram violentos e nenhum até o presente alcançou o ideal progressista. A única coisa em comum que as sociedades acometidas por esses eventos herdaram foram restos mortais e a categorização da espécie humana em inúmeros binômios antagônicos como o caso de ocidental/oriental, branco/negro,
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Sobre os líderes independentistas ver POMER, Leon (1983).
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Cabral em discurso durante a participação na Conferência Tricontinental realizada em Havana no auge da Revolução Cubana lembrou: “É que, se é verdade que uma revolução pode falhar, mesmo que seja nutrida por teorias perfeitamente concebidas, ainda ninguém praticou vitoriosamente uma Revolução sem teoria revolucionária.” (1999, p. 77).
desenvolvido/subdesenvolvido, nacional/estrangeiro, as quais permanecem organizando o padrão de poder entre indivíduos, e desses para com o Estado, bem como as relações de soberania no plano internacional.