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2 NOSSA DESCOBERTA: INSTINTO ANTROPOFÁGICO EM DIREÇÃO À

2.1 A revolução social: não somos espanhóis, nem somos portugueses!

2.1.1 As “comunidades imaginadas” pelos colonizadores

Há pela definição de Eric J. Hobsbawn (1990) dois tipos de nacionalismo: o lingüístico e o étnico. O último não tem razão sem o primeiro. O autor reserva boa parte da obra para esmiuçar a origem do nacionalismo linguístico. Desse importa aqui breves digressões que preparam o terreno para o discernimento do nacionalismo étnico.

Não sem antes problematizar as implicações dessas duas classificações em dois momentos circunstanciais: a colonialidade e seu correspondente revés, a independência das colônias. A primeira providência dos colonizadores, depois do saque às riquezas naturais e minerais das Índias Ocidentais, foi justamente o ensino do latim aos aborígenes. Mais que um meio de se comunicar e disseminar o evangelho, o interesse primordial foi imputar aos nativos caracteres próprios da

Metrópole como a língua e a religião, capazes de formar a consciência de pertencimento àquela.

Por outro lado, no auge do nacionalismo moderno, a descendência e o lugar de origem corroboraram para mobilizar os sentimentos de independência que fomentaram as revoluções na América Hispânica no séc. XIX e na Ásia e África no séc. XX. Trato disso na parte final. Agora retomo a teoria pelo princípio etimológico.

A etimologia do vocábulo foi definida inicialmente como adjetivo da língua falada em determinado país. Assim, observa Hobsbawn, que não há vestígios dessa significação até 1884, data em que o Dicionário da Real Academia Espanhola dispõe sobre o verbete lengua nacional nestes termos: “a língua oficial e literária de um país e, à diferença de dialetos e línguas de outras nações, é a língua geralmente falada.” (1990, p. 27)53. Por esse conceito é possível identificar duas premissas que serão recorrentes no contexto do nacionalismo, isto é, a característica da homogeneidade formal mediante a língua oficial e a demarcação material geográfica decorrente da comparação com outras nações.

A aproximação do termo nação com o conteúdo étnico sucede à confusão entre ele e a palavra pátria. Conforme Hobsbawn, o mesmo dicionário espanhol, edição de 1726, trata essa última como tierra, ou seja, “[...] o lugar, o município ou a terra onde se nascia [...].” (1990, p. 28).

Com efeito, a fórmula que relaciona língua e lugar de origem produz a compreensão do termo “estrangeiro” que na lição de Hobsbawn “[...] enfatizam o grupo de descendência comum, movendo-se portanto na direção da etnicidade [...].” (1990, p. 29). É a diferença que impõe a identificação de outras comunidades e indivíduos que não pertençam à uniformidade nacional.

A partir desse dado emerge outro elemento característico do nacionalismo, isto é, o sujeito destinatário enquanto unidade coletiva: o povo. Nesse ponto o nacionalismo assume a natureza política e o conceito moderno, legado pelas revoluções, os Estados-nação.

53Desde sua primeira aparição na gramática em 1884 o termo nação adquire o significado de “Estado

comum e supremo”. Na versão espanhola e definitiva do termo de 1925 a definição expressa também o conceito de origem e língua. (HOBSBAWN, 1990).

As principais produções acerca da teoria do nacionalismo, dentre as quais se destacam Eric J. Hobsbawn, Ernest Gellner e Patrick Geary concordam no aspecto metodológico que consiste na distinção entre os conceitos de Estado e nação. Considerando que Gellner (2001) reconhece independência, mas coexistência entre eles, começo pelo último.

A nação, assim como o Estado, não é inerente ao ser humano, mas consequência de momento e lugar próprios. Gellner usa a metáfora do “Homem sem Sombra” para chamar a atenção para a relevância da nacionalidade. Assim, conforme o autor, a condição nacional é aferível a partir do comparativo entre dois nativos:

1. Dos hombres son de la misma nación si y sólo si comparten la misma cultura, entendiendo por cultura un sistema de ideas y signos, de asociaciones y de pautas de conducta y comunicación. 2. Dos hombres son de la misma nación si y sólo si se reconocen como pertenecientes a la misma nación. E notras palabras, las naciones hacen al hombre; las naciones son los constructos de las convicciones, fidelidades y solidaridades de los hombres. Una simple categoría de individuos (por ejemplo, los ocupantes de un territorio determinado o los hablantes de un lenguaje dado) llegan a ser una nación si y cuando los miembros de la categoría se reconocen mutua y firmemente ciertos deberes y derechos en virtud de su común calidad de miembros. Es ese reconocimiento del prójimo como individuo de su clase lo que los convierte en nación, y no los demás atributos comunes, cualesquiera que puedan ser, que distinguen a esa categoría de los no miembros de ella.(GELLNER, 2001, p. 20).

Igualmente, Gellner oferece a meu ver a melhor definição, acerca do Estado, quando recorre à lição de Max Weber54, haja vista que é efetivamente a competência de controle social, que internamente prevê a subordinação do cidadão às leis e no plano internacional suscita o fechamento das fronteiras para os “estrangeiros”, a contingência para o surgimento da unidade política central.

Diante dessa definição pode-se afirmar que a emergência do nacionalismo advém da pluralização de Estados no plano mundial, sendo que, para conservar a ordem nesse quadro aparente de caos, a estratégia política é potencializar a autonomia interna e garantir a equidade externa nas relações entre nações.

Dentro do contexto da Conquista é possível especular que o Tratado de Tordesilhas assinado em 1494 para estabelecer os limites da política colonial entre Portugal e Espanha, que conferiu poderes de gerência sobre o território ameríndio,

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No famoso livro Naciones y nacionalismo (2001) Ernest Gellner define o Estado, de acordo com o ensinamento de Weber, como sendo “el agente que detenta el monopolio de la violencia legitima dentro de la sociedad.” (2001, p. 15).

dividindo a América em espanhola e portuguesa, seja o indicativo do comportamento de estados-nação (nesse caso tratavam-se de impérios) para resguardar a autonomia perante terceiros. Em uma época marcada por guerras entre impérios que disputavam o controle de territórios a unificação permitiria a aproximação entre colonizadores e colonizados mediante a perspectiva de autoproteção mútua55.

Portanto, todas as sociedades relativamente complexas precisam satisfazer a condição nacional para conferir aos seus sujeitos direitos/obrigações domésticas e poderes extraterritoriais aos seus agentes oficiais. Então, o nacionalismo foi por assim dizer um arranjo político no momento de transição da sociedade feudal para o sistema capitalista.

A conclusão de Hobsbawn é que se formam, então, “[...] dois conceitos muito diferentes de nação: o revolucionário-democrático e o nacionalista.” (1990, p. 34-5):

A equação Estado = nação = povo ajustava-se a ambos, mas para os nacionalistas a sua inclusão na criação de entidades políticas derivava da existência anterior de algumas comunidades distintas de outras, estrangeiras, enquanto que para a visão revolucionário-democrática o conceito central era o de soberania do povo-cidadão = Estado, a qual constituía uma “nação” em relação ao restante da raça humana. (1990, p. 35).

Mais acima utilizei a doutrina de Hroch, citado por Geary, sobre os três estágios da ideologia nacionalista. Advirto que as referências até aqui trabalhadas, com exceção de Anderson, têm como foco a Europa, não havendo nenhuma novidade diante da gênese do nacionalismo, em que pese se deixe claro que, mesmo o Estado-nação sendo fruto da Revolução Francesa, nenhum país europeu emergido posteriormente se construiu à custa de revoluções nacionais, uma vez que os países da cortina de ferro foram desmembrados após o declínio do comunismo soviético.

Nesse momento retomo a referida citação porque condizente com a conclusão retro de Hobsbawn, para demonstrar como os dois conceitos de nação serviram de forma diferente, percorrendo a mesma lógica de Hroch, para operar (o nacionalista) e enfrentar (o revolucionário-democrático) o sistema colonial, respectivamente.

Os títulos que precederam o presente fornecem fortes indícios de como a ideologia nacionalista foi construída nas colônias pela Metrópole. O primeiro estágio, que se refere ao conhecimento da língua, da cultura e da história ocorreu de forma radical, isto é, pela sua contundente negação, pois sem o reconhecimento da existência desses elementos antes do “encontro” com as Índias Ocidentais não houve o que aprender.

Logo, o processo de genocídio dos povos originários e a invisibilização da identidade56 pré-colombiana, somados à adoção do latim em detrimento do uso dos dialetos maternos, permitiu a construção de uma narrativa original e temporal, ou seja, a partir das nações-colônias espanhola e portuguesa, numa primeira fase, e inglesa, francesa e holandesa, numa segunda.

Destarte, no cenário colonial da América ibérica o que se viu foi o tipo nacionalista, que compreende toda e qualquer unidade geográfica fora dos limites fronteiriços da Metrópole, habitada por indivíduos que carregam elementos culturais e se encontram sob os poderes políticos dela. Esse quadro de protonacionalismo começa a ruir com a insurgência em 1804 de São Domingos. É a primeira chama do nacionalismo revolucionário-democrático.

Assim, pode-se concluir que colonialismo e nacionalismo seguem a lei física das massas, isto é, são duas coisas que não podem ocupar ao mesmo tempo o mesmo espaço57. A nação idealizada na Europa não é a mesma utopia difundida na América. No Velho Mundo a finalidade mister foi a demarcação de limites para o exercício do poder político central com flagrantes compromissos e interesses comerciais. No Novo Mundo ela é vista na origem como a desvinculação política da Metrópole, principalmente, para empregar os ideais liberais a todos indistintamente.

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Amílcar Cabral, líder da frente nacional pela libertação de Guiné e Cabo Verde, legou para as futuras gerações africanas o manual de enfrentamento ao domínio imperialista intitulado Nacionalismo e Cultura (1999). A cultura, segundo ele, é a arma ideológica do povo dominado para reagir. Nesse texto, o autor explica como acontece na prática referida dominação mediante a liquidação do povo dominado. Inclusive o autor cita a frase atribuída a Salazar sobre a inexistência da África. Igual preconceito foi visto com o apartheid: “Para fugir a esta alternativa – que poderia ser chamada o dilema da resistência cultural – o domínio colonial imperialista tentou criar teorias que, de facto, não passam de grosseiras formulações de racismo e se traduzem, na prática, por um permanente estado de sítio para as populações nativas, baseado numa ditadura (ou democracia) racista.” (CABRAL, 1999, p. 101).

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Nesse aspecto Maria Ligia Prado (2009) identifica a principal diferença entre a formação dos Estados Nacionais nos dois continentes. Para a autora “a independência política e a formação dos Estados Nacionais na América Latina ocorreram a partir do rompimento do sistema colonial e foram dirigidas por setores dominantes da colônia descontentes com a impossibilidade de usufruir as ‘novas vantagens’ que o capitalismo do novo século lhes oferecia.” (PRADO, 2009, p. 2).