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Outros despertares potentes na juventude ocorreram com grandes amigos. São pessoas com quem desenvolvi aprendências viscerais na convivência. Ressalto dois pontos relevantes: a) a seqüência em que são citados nesse relato não obedece a qualquer ordem de importância ou cronológica e, b) o fato de não terem ocorrido separadamente, de forma estanque. Como já apontado anteriormente, cada uma dessas pessoas e contextos são portos de chegada e partida, são hipertextos propulsores de tessituras da trama complexa da aprendizagem não-linear. Marcel Arriaga despertou-me, ainda na adolescência, para a conscientização de que estávamos numa ditadura militar e para a necessidade da mobilização e militância política, na juventude. Sempre foi uma referência de coragem e diálogo com a modernidade. Sá Rodrigues, com sua crítica irônica e sagacidade, apresentou-me o cinema como possibilidade interessante de refletir sobre a sociedade, a cultura e a própria vida; e o rock´n’roll como potência criativa de virtuoses musicais. Com Francisco Franco, Fran, as aprendências assentaram-se na necessidade do conhecimento da história da arte, suas expressões subjetivas e mobilizadoras e no olhar sensível para o mundo. Marcinha, “das Gordas”, me encantava com sua capacidade de escuta e opinião, fazendo-me pensar com cautela sobre

decisões importantes na adolescência, consolidando lastro de amizade na partilha em diferentes momentos posteriores.

As interações com a família Oda, nisseis e sanseis, vizinhos da mesma rua durante a infância e a juventude foram seminais na perspectiva transcultural. Eu e Johnny, seu filho nos tornamos colegas na 1ª. série, com sete anos. Esse encontro desdobrou-se em uma grande e amorosa amizade entre nós e nossas famílias, a ponto de sermos afetuosamente adotados, ele pela minha, como filho japonês, e eu pela dele, como filho brasileiro. Apesar de sermos todos brasileiros, a família Oda, de hábitos abrasileirados, preservava seus costumes com vigor, tanto na hierarquia familiar e suas atribuições, quanto na alimentação, laser e outros hábitos. A escrivaninha de S. João Oda, mecânico de automóveis e caminhões, patriarca da família, era um universo de curiosidades e mistérios a serem desvelados por mim, assim como seu quarto, repleto de literatura japonesa. Sempre atento as nossas curiosidades estava pronto em sua postura de autoridade inquestionável, a nos esclarecer, não sem comentar algo que nos provocasse, como outras perguntas, por exemplo. Ria muito com meu interesse pela cultura nipônica. Essa escrivaninha e esse quarto eram territórios proibidos para as crianças. Vivíamos burlando essa rigorosa norma para seguir com nossas investigações infantis. O gohan, o chá de algas, os frutos do mar, na juventude os saquês, o udon e o tempurá elaborados pela delicadeza de D. Rosa, passaram a fazer parte de meu cardápio. Os banhos de ofurô, somente permitidos algumas vezes em função do controle de água e energia elétrica, as infinitas, animadas e ultra organizadas bincadeiras e gincanas nos undokai eram experiências mobilizadoras para interagir com as diferenças. As visitas à casa do bassan (avô), em um sítio de cultivo de uvas numa cidade vizinha eram momentos de interações em embates de significados culturais poderosos para aprendências com a cultura no cotidiano. O desejo de estudar na gakon (escola japonesa) me mobilizou durante muito tempo, sem que meus pais permitissem em função da necessidade de dar conta da escola brasileira primeiro, já que minha implicação com ela, naquele momento, deixava a desejar. Era um assíduo usuário dos livros da família, onde poderiam ser encontrados desde gibis diversos até enciclopédias atualizadas e outros livros de história, geografia e

costumes. Enquanto isso Johnny e Akêmi, os filhos e amigos orgânicos, interagiam nas eternas reuniões e festas de minha família. Afirmo com convicção que essas interações foram minhas primeiras aprendências no movimento transcultural.

Na infância e pré-adolescência interagi vigorosamente com uma família de alemães e holandeses, proprietários do restaurante Recanto Holandês, onde novas aprendências transculturais afetaram meu ser-sendo-no-mundo. Através de Tjerk Hides, colega de escola, engenhoso, astuto e criativo para os embates cotidianos, grande amigo, passei a conviver com a cultura germano-saxônica abrasileirada, onde intensas aprendências emergiram e me afetaram: o sabor acre-doce dos pratos, o rigor autoritário na educação dos filhos, a atribuição de responsabilidades e a conseqüente cobrança com as questões da casa e do restaurante e o acolhimento dos amigos brasileiros dos quatro filhos. Externavam seu amor pelo Brasil e pelas oportunidades que tinham aqui.

Com Johnny Oda e Antônio Camilo (Tona), vivenciei a partilha das tensões do final da adolescência e início de juventude, muitas madrugadas dialogando e aprendendo sobre nossos conflitos. Benedito Ribas, Benê, expunha o refinamento do olhar para as tensões entre tradições e rupturas no movimento orgânico da cidade, promovido pelas intervenções humanas. Fabinho Furlan demonstrava a solidariedade guerreira e destemida nos confrontos cotidianos. Fernando Assagra, Dinga, com seu preciosismo com a direção no trânsito, procurando sempre estar centrado, com atenção quase inabalável, despertava- me para a necessidade de compenetração nas atividades corriqueiras. Em Wagner Rodrigues, Wagnão, provocava-me seu desprendimento em atitudes de enfrentamento do instituído, sem limites e barreiras. Leila, Leiloca, encantou-me com sua paciência e desapego na convivência para desconstrução de preconceitos, entregando-se com afeto à existência, desafiando o mundo como mulher. Desnaturalizou minhas pretensões machistas, demonstrando sabedoria ao lidar como minhas inseguranças e infantilidades. O casal Gilcy e Ivan, foi parceiro de morada. Nesse espaço construíamos narrativas sobre nossas trajetórias existenciais, num transculturalismo propiciado pelo acatamento das alteridades como práticas de

convivência. Aprendências emocionantes e intensas. Mais adiante, com Clóvis Berti, Roberto, Betão e Fábio Mazza, Batata, militantes da contracultura mogiana, percebi a necessidade de endurecer sem perder a ternura. Denise Hanashiro, pérola-sol-nascente, mobilizou-me com a delicadeza, sensibilidade, feminilidade e sagacidade, para o trato da vida e para a relação com o outro. Nossas interações ocorreram através de nossas intencionalidades musicais, nos envolvendo em discussões sobre a modernidade, o amor, a paixão, as contradições e as impurezas cotidianas, cuidando para que essa temática fosse permanente em nossos encontros não planejados, Denise sempre trazia algo novo para interagirmos. Solidariedade e disponibilidade, estar com e para o outro, é a síntese de minhas aprendências com as irmãs Margarete, Cris e Bete, as Margas, vizinhas e parceiras de educação, de paixões e desamores, de enfrentamento das diversidades. Com D. Lola e Seu Noel, tocou-me o acolhimento e perseverança como revigoramento para continuar seguindo, sempre. Regina e Luciana, duas de suas filhas, me mobilizavam com a determinação para buscar seus objetivos. Noeli, meu vínculo com essa família, grande amor, provocou-me para aprendências com seu carinho e cuidado, companheirismo e priorização das relações familiares como prioridade em sua vida. A inteligência de Arlinda e seu encanto possibilitaram-me vivenciar o amor e a paixão sem a posse do outro. Aprendências na relação de desejo e prazer em interações desnaturalizadas. Maria Lúcia Freitas, grande amiga, sagaz e destemida, provocou-me com seus etnométodos criativos para interações nas adversidades e prazeres da vida como mulher, mãe e profissional com refinamento, sofisticação e despojamento. Grandes aprendências que me mobilizaram para a importância da convivência, da partilha, do ser com outro, foram as interações com a família Simões. Através de Luciana, aluna e filha dessa família, passamos a conviver intensamente, dividindo nossas alegrias e tristezas, avanços e retrocessos, desprendimentos recíprocos, solidariedade partilhada, fazendo-me sentir, praticar e consolidar o princípio da alteridade como possibilidade de transculturalismo, mobilização essa que é ressignificada constantemente em minha prática educacional.

Essas pessoas povoam meu imaginário. Essas representações são o amálgama de minha identidade. Estão tatuadas com o cinzel das interações e incrustadas em meu ser-no-mundo. São aprendizagens recorrentes em minha prática.

2.6. LEITURAS, PROFESSORAS E PROFESSORES