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Sinalizo mais uma vez que os nomes das três educadoras e do educador,participantes da pesquisa foram substituídos por pseudônimos, mantendo a tradição dessa linha metodológica. Vida, Sonho, Urbe e Sertão são os protagonistas dessa pesquisa social.

Defino Vida numa palavra: intensidade. Desde o momento em que a contatei por indicação de colega comum, senti que travaríamos um diálogo de grande profundidade. Quando lhe explicitava o meu projeto e a razão de ouvir

educadores inscritos nas questões da cultura, sentia seu interesse e curiosidade pela questão.

Mulher madura, afro-descendente, profissional consciente de suas origens e para quem trabalha, argumenta as razões de sua atuação na educação de jovens e adultos, ou da classe trabalhadora, como gosta de afirmar, com muito comprometimento político e cultural. Profunda conhecedora das demandas e desejos desse segmento da sociedade soteropolitana que tem a oportunidade de estudar no EJACAV, doou-se de forma generosa a essa pesquisa. A teorização de sua prática é extremamente consistente e vigorosa. Tem leituras sobre docência e sobre o potencial da área na qual trabalha - Língua Portuguesa.

Em todos os momentos em que estivemos juntos durante a pesquisa, teve postura ética com muita criticidade sobre os caminhos da educação, dos professores e professoras e, principalmente, dos alunos. É fundante, para ela pensar sobre a práxis e a conquista de espaço e momentos de reflexão nas escolas, para que práticas democráticas que promovam as vozes oprimidas, silenciadas, estejam a serviço da diversidade de forma crítica.Vinculamos-nos como seres humanos que somos e como educadores que interagem com as questões do currículo com centralidade na cultura valendo-nos da força transformadora dos diálogos nas tensões dos significados culturais cotidianos. Levando em conta minha convivência com Sonho, com alunos e colegas comuns, bem como os registros impressionistas de meu diário de campo durante a pesquisa, afirmo sua grandeza como pessoa. Mora só, é esteio da família, não só financeiramente, mas também administrativa e psicologicamente. Seu trabalho é profundamente consistente, repleto de conexões com os seus “dilemas inalienáveis”, ou seja, sua existência interagindo no cotidiano. Consciente e orgulhosa de sua condição feminina, de sua negritude e de sua ousadia como professora reflexiva, confiou de coração aberto suas itinerâncias a mim, pesquisador e colega de educação no Centro Educacional Vitória Régia.

Sua leveza no trato crítico e transformador da complexidade das questões da Língua Portuguesa é sedutora. Ao falar de si e de sua implicação nas questões culturais, demonstra grande capacidade reflexiva e externa, sem melindres, desconhecimento sobre algumas questões. Entretanto, sua condição de mulher, negra, professora e cidadã crítica impulsionam-lhe para as buscas nesse sentido.

Nas entrevistas, sempre de coração aberto e verbalizando a importância dessa pesquisa e o contentamento de estar participando dela, sendo ininterruptamente provocada e transformada, contribuiu consideravelmente, refletindo e explanando seus atos de currículo com muita clareza, não sem contradições e impurezas. Fui tocado profundamente por sua sensibilidade e expediente para interagir com seu alunado e colegas, praticando o que afirmou durante a teorização de “sua prática”.

Minha relação com Urbe já existe há 10 anos, desde que ingressei no colégio onde atuamos. A identificação com seu trabalho foi amor à primeira vista: densidade, criticidade, análise histórica, multirreferências para trabalhar os programas de História, bem como sua relação afetuosa com os alunos. São inúmeros os recursos da pedagogia cultural dos quais se serve para tratar de temas que excedem o conhecimento histórico, atingindo cidadania, convivência, diversidade e criticidade. Temos muita afinidade na forma de provocar o conhecimento histórico engajado na pedagogia crítica, através da música, do universo imagético e cinematográfico

Sua forma destemida de se colocar e de enfrentar a vida como professora, mulher, afrodescendente, à frente de sua família, a torna uma figura guerreira, ao mesmo tempo que deixa vazar grande sensibilidade diante das coisas belas e horrendas da vida. Nesses momentos, quando não está sobre seus saltos altos, autoritários e arrogantes, explicita sua humanidade. Sua forma de trabalhar com as questões da cultura lhe inscreve num movimento moderno e potente de mobilização para a criticidade.

Sertão foi indicada por uma companheira de trabalho. Quando consultava colegas sobre professores com perfil definido para essa pesquisa, ela de pronto o indicou. Afirmou ser a pessoa/professor que procurava, pois conhecia seu trabalho no colégio do bairro de São Caetano onde trabalhavam juntos. Sertanejo de formação e urbano por provocação, poeta, cordelista, cantor e professor de Língua Portuguesa, mostrou-se, antes de tudo, um ser humano consciente de necessidade de se fazer com o outro, no movimento solidário e implicado. Utiliza sua arte como provocação da criticidade diante das tensões emergidas dos embates de significados hegemônicos entre tradição e ruptura, permanências e transformações, sertão e cidade. Seu coracérebro conectou-se ao projeto com muita honestidade. O trabalho que desenvolve com o alunado faz emergir as questões da cultura de forma empírica e poética, deixando canais abertos para ressignificação de sua prática através de caminhos que se configuram numa pedagogia cultural. Foi muito interessante interagir com seu estado poeta de ser professor.

Seus depoimentos são mobilizadores para descortinar a dinâmica do trans- sendo, uma vez que essas pessoas/professoras e professor vão se constituindo em tais depoimentos contribuições seminais a essa investigação, ao tratar das questões da cultura via seus atos de currículo, personificando o conceito de tranculturalismo em movimento. Seguimos, então, com as articulações entre suas narrativas nas categorias eleitas nessa investigação, teorizando suas práticas no diálogo com os teóricos da cultura e do currículo, lastreando a argumentação na direção das questões da cultura como possibilidade de transculturalismo crítico, que responde à indagação fundante da presente pesquisa: como educadores pensam as implicações das questões da cultura nos atos de currículo, para lidar com a diversidade caleidoscópica e polifônica que os desafia cotidianamente para o transculturalismo crítico?