2 A ESCRITA BIOGRÁFICA ENTRE CONTEXTOS E POSSIBILIDADES: UM ESTUDO SOBRE A TRAJETÓRIA DO AUTOR E A PRODUÇÃO DA OBRA
2.2. AS INFLUÊNCIAS: OS AUTORES LIDOS E AS RELAÇÕES COM A
2.2.3. A rede 49 de contatos estabelecida com os bienhechores
Sabe-se que a rede de colaboradores que o jesuíta argentino formou ao longo de seus anos de pesquisa é bastante extensa. Entretanto, poucas são as informações disponíveis sobre aqueles que compunham o círculo de relações de Furlong. Procuramos, a despeito destas dificuldades, reconstituir esta rede de colaboradores, com o propósito de compreender o ambiente em que Furlong se encontrava inserido e identificar os intelectuais com os quais o autor mantinha contato frequente.
A partir dos trabalhos de Geoghegan (1979) e de Mayochi (1979; 2009), pode-se presumir que um dos primeiros intelectuais com quem Furlong teve contato foi Enrique Peña50. Algumas páginas acima, transcrevemos um conselho que Peña deu ao jovem jesuíta,
sendo que, ao que tudo indica, o historiador Peña era “varón de presencia aristocrática y poseedor de selectísima biblioteca” (GEOGHEGAN, 1979, p. 36). Ao frequentar o acervo pessoal de Peña, o jesuíta argentino entrou em contato com Samuel Lafone y Quevedo51 e
Luis María Torres52, que também o consultavam para suas pesquisas. Sobre Torres não
encontramos maiores informações. Contudo, sabemos que Lafone y Quevedo tinha origem inglesa e que Furlong visitava o amigo no Hotel Los Dos Mundos, onde residia e também realizava seus estudos.
Posteriormente, no Instituto de Investigaciones Históricas de la Universidad de
Buenos Aires, o jesuíta argentino conheceu a Emilio Ravignani e a Juan Canter. Segundo Furlong, Ravignani foi um notável estudioso, que dedicou boa parte de seu tempo às questões políticas, dado o fato de que ocupou diversos cargos públicos (GEOGHEGAN, 1979). Já no caso de Canter, as relações com o jesuíta foram rompidas em função de apreciações divergentes.53
49 Nos utilizamos, aqui, da expressão “redes” no sentido de que procuramos mapear as relações estabelecidas por
Furlong com outros intelectuais argentinos. Entretanto, não pretendemos explorar todas as possibilidades do conceito, tão caro à Micro-história, apenas oferecer aos leitores deste trabalho um rápido panorama dos contatos do historiador argentino.
50 No Complejo Museográfico Provincial ‘Enrique Udaondo’, em Luján, existe uma biblioteca que leva o nome
de Enrique Peña.
51 Lafone y Quevedo foi humanista, arqueólogo, etnógrafo e linguista. Era catedrático de Etnografía na
Universidad de Buenos Aires e diretor do Museo de la Plata. Foi membro da Junta de Historia y Numismática e ocupou diversos cargos públicos.
52 Foi diretor do Instituto de Investigaciones Históricas de la Universidad de Buenos Aires e do Museo de La
Plata.
53 É interessante notar que, em nenhum momento, Geoghegan (1979) deixa claro quais teriam sido estas
divergências políticas entre Furlong e Canter. Já no caso de Ravignani, o autor comenta que suas relações com o jesuíta argentino sempre foram afetuosas.
Entre os anos de 1920 e 1930, outro bibliófilo cedeu sua biblioteca pessoal para que Furlong pudesse realizar seus estudos. Trata-se do médico Miguel Angel Fariní54, que, em
diversas ocasiões, deixou o jesuíta consultar seu acervo enquanto atendia a seus pacientes. Ao realizar o levantamento dos principais colaboradores de Furlong, aqueles que, com certeza, abriram seus arquivos e bibliotecas pessoais para que realizasse suas pesquisas, Geoghegan (1979) constatou que o jesuíta argentino teve acesso aos acervos de Clemente Fregeiro, Félix F. Outes, Alejo Gonzáles Garaño, Antonio Dellepiane, Antonio Larrouy e Mario Belgrano, além dos já referidos.
Por fim, podemos citar a Monseñor Pablo Cabrera55, intelectual argentino, que Furlong
conheceu ao passar por Córdoba e Jose Torre Revelo56, com quem trabalhou no Archivo General de Indias, no período em que esteve na Espanha estudando Teologia, além de intelectuais uruguaios57 com quem teve contato no período entre 1930 e 1935, quando atuou no Colegio del Sagrado Corazón, em Montevidéu.
O apoio de outra categoria de colaboradores foi fundamental para a publicação dos trabalhos de Guillermo Furlong. Trata-se dos que atuaram como mecenas ou, como prefere Geoghegan (1979), como bienhechores. Em diversos momentos, o jesuíta argentino contou com amigos e conhecidos, que se dispuseram a financiar a publicação de uma ou mais obras e também com editores que garantiram a impressão de seus livros e possibilitaram que estes viessem a público.
Sabe-se que alguns editores também facilitaram o pagamento da impressão de algumas de suas obras, apoiando, portanto, a divulgação da produção do jesuíta argentino. Segundo Geoghegan (1979), em alguns momentos, Furlong utilizou os rendimentos obtidos com a venda das obras já publicadas para financiar a publicação de outros trabalhos [que não os seus], como os de José Alberto Fuselli, Pedro San Martín e Miquel Cullen. Entretanto, quando
54 Geoghegan (1979) conta que o médico Fariní deixava que seus pacientes esperassem por atendimento para
que, primeiramente, pudesse atender a Furlong quando este visitava sua biblioteca.
55 É interessante notar que Furlong também travou relações Monsenhor Cabrera, que foi diretor do Museo Histórico de la Provincia de Córdoba, membro de instituições como o Instituto Histórico Argentino e catedrático de Etnografia Indígena na Universidad Nacional de Córdoba.
56 Segundo Ruiza (2013, s/p), o Instituto de Investigaciones Historicas contribuiu para que Torre Revello
desenvolvesse seus estudos. Nascido em 1893, “ganó el premio de la especialidad histórica de la Comisión Nacional de Cultura con sus obras El libro, la imprenta y el periodismo durante la dominación española y Orígenes de la imprenta en España y su desarrollo en América. Fue autor de obras tan variadas como La orfebrería colonial en Hispanoamérica, El archivo general de Indias: historia y clasificación de sus fondos o Investigaciones sobre las islas Malvinas”.
57 Mayochi (2009) afirma que Furlong teria construído uma sólida amizade com Juan Zorrilla de San Martín, e
travado relações com outros historiadores, como Pablo Blanco Acevedo, Carlos Pérez Montes, José M. Fernández Saldaña, Buenaventura Caviglia, Felipe Ferreiro, Horacio Arredondo, Ariosto D. González, Fernando Capurro e Eduardo Saltarain, os quais, em sua maioria, eram membros do Instituto Histórico y Geográfico del Uruguay.
50 não foi possível encontrar um mecenas que pudesse assumir as despesas de impressão, os editores tiveram grande tolerância em relação ao pagamento destes custos.
Entre os principais editores que colaboraram para a publicação das obras do jesuíta podemos encontrar seu “ex alumno e impresor favorito, el Sr. José Alberto Fuselli, [...] en cuyos Talleres Gráficos San Pablo ha impreso el padre Furlong la mayoría de sus trabajos. [...]”. Após a morte deste editor, seus colaboradores foram “Dr. Pedro San Martín, de la Editorial TEA, y al Dr. Miquel Cullen, de quien son los talleres gráficos Crisol, en los que después del deceso del señor Fuselli publicó el padre Furlong no pocos de sus trabajos” (GEOGHEGAN, 1979, p. 39).
2.3. A INSERÇÃO DE FURLONG NAS INSTITUIÇÕES LEIGAS: O INSTITUTO DE