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2 A MÍDIA INDEPENDENTE NO BRASIL

2.4 A redemocratização

Com o fim da ditadura, o país teve de se adaptar a uma nova república, diferente daquela que antecedeu ao regime, com uma nova Constituição (1988). As dificuldades de organização política foram constantes neste recomeço. No caminho para a experiência democrática, a presidência foi assumida por José Sarney (1985-1990), vice de Tancredo Neves, eleito pelo voto indireto, mas que não assumiu o cargo da presidência por questões de saúde que levaram ao seu falecimento.

A questão econômica foi a grande preocupação dos governos que se seguiram. Uma inflação altíssima levou a seguidas propostas de planos econômicos numa tentativa de contenção. O jornalismo, por sua vez, teve o importante papel de explicar a população sobre a economia, os reajustes e os pagamentos. Sarney ampliou seu mandato para cinco anos, hoje reduzido para quatro. Houve farta distribuição de concessão de rádios e retransmissoras de televisão para grupos políticos (ROMANCINI e LAGO, 2007). Porém, posteriormente a insatisfação com o governo foi geral com denúncias de casos de corrupção.

É inegável que o investimento na modernização da imprensa foi intenso. As redações se transformavam e o desenvolvimento do capitalismo auxiliou este processo. O mercado de trabalho se ampliou com jornalistas em ambientes de comunicação diversos, engajando-se também, para além das redações dos veículos, em assessorias de imprensa. O jornalismo começa a assumir uma postura mercadológica e a notícia começa a funcionar como produto, o que gerou mudanças técnicas e gráficas de aperfeiçoamento: mais tabelas, gráficos, fotos maiores, novas formatações. Confeccionavam novos cadernos especializados em moda, esportes, cultura e temas diversos. Nessa caracterização do campo jornalístico como mercado, formava-se o cenário de competitividade entre os grupos que se modelam e monopolizam a comunicação brasileira.

O próximo presidente surgiria de uma construção midiática. Fernando Collor, ex- governador de Alagoas, assume em 1990 e teve grande destaque na imprensa nacional, começando em 1989 a ocupar o programa na rádio e TV do PRN- Partido da Reconstituição Nacional. Logo começou a ultrapassar significativamente a oposição: Lula e Brizola. A grande mídia, por sua vez, apresentou uma imagem de um candidato jovem, dinâmico, de liderança. A primeira eleição direta pós-redemocratização elegeu este candidato:

A grande imprensa apoiava Collor, seja de modo explícito, como em editoriais de jornais como O Globo, o Jornal do Brasil ou O Estado de S. Paulo, seja numa cobertura que destacava criticamente as propostas de Lula, enquanto o “discurso de Collor era examinado de modo menos que superficial” (LATTMAN- WELTMAN, 1944, p.44 apud ROMANCINI e LAGO, 2007, p.187).

Collor ainda utilizou da imprensa para criar uma imagem negativa do opositor Lula, acusando-o de desejar o aborto de sua filha com a ex-namorada Miriam Cordeiro. A jornalista Maria Helena do Amaral, que trabalhava para Collor, denunciou que Miriam havia recebido dinheiro para dar essa declaração e foi afastada da campanha, recebendo ameaças (ROMANCINI e LAGO, 2007). Diante do sucesso de suas estratégias, alcançou a presidência em 1990, tornando-se o presidente mais jovem do Brasil, com então 40 anos. Logo que assumiu, propôs medidas de congelamento de preços e salários, aumentou os impostos e bloqueou por dezoito meses os saldos das contas correntes que excedessem 50 mil cruzeiros (moeda que ele reintroduziu). Isso gerou uma insatisfação, principalmente quando o presidente processou o jornal “Folha de S. Paulo”. A Folha acusou Collor de intimidar a atividade da imprensa quando o ex-presidente enviou fiscais de receita para a redação cobrando faturas publicitárias.

As denúncias de corrupção se intensificaram e a grande imprensa, que havia contribuído para sua eleição, faz o oposto e trabalha para seu afastamento. A “Folha” e o “Estado de S. Paulo” pediram diretamente a renúncia de Collor. A população foi às ruas, episódio que ficou conhecido como “os caras pintadas”, colorindo os rostos com as cores da bandeira e exigindo que Collor saísse da presidência. Em 1992, veio o impeachment, constituindo um ato inédito no país. Collor foi considerado culpado no julgamento por crime de responsabilidade e teve seus direitos políticos de candidatura cassados por oito anos. Não se intimidou após esse período e retornou à política, sendo eleito para senador de seu estado de origem, Alagoas, e, em 2018, foi apontado como um possível candidato à presidente da República pelo Partido que estava filiado desde 2016, o Partido Trabalhista Cristão (PTC), mas não se candidatou.

A sucessão veio com seu vice Itamar Franco, que, entre outras coisas, escolhe como Ministro da Fazenda o até então senador de São Paulo, Fernando Henrique Cardoso, reconhecido nacionalmente como um dos responsáveis a elaborar o Plano Real conseguindo, após décadas de inflação, controlar a alta de preços, seguindo até os dias de hoje como parâmetro na condução da economia. FHC, como é chamado, alcançou tanta popularidade que conseguiu chegar à presidência permanecendo por dois mandatos (1995-2003). Em seu governo houve uma grande movimentação pela privatização do setor de telecomunicações, o que culminou na criação da Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL). Esse período é apontado como um impulsionador da oligopolização do setor da comunicação.

A gestão seguinte de Luiz Inácio Lula da Silva, também por dois mandatos consecutivos (2003-2010), apresentou alguns questionamentos interessantes no âmbito comunicacional. No primeiro mandato a atenção esteve mais voltada à digitalização da TV. O seu programa de governo do segundo mandato se dedicou ao debate da democratização da comunicação. Neste documento consta que “será garantida a democratização dos meios de comunicação, permitindo a todos o mais amplo acesso à informação, que deve ser entendida como um direito cidadão”. (PROGRAMA DE GOVERNO, 2006, p.13). O governo, então, criou a Agência Nacional para o Cinema e Audiovisual (Ancinav) e o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ). Este último durou pouco tempo pois os conglomerados de mídia acusavam o governo de atentar contra a liberdade de imprensa com esse mecanismo. O governo não conseguiu apoio para retirar do papel a ideia de democratização e até hoje o debate existe sem a efetiva medida para alcançar uma comunicação descentralizada e democrática.

A sua sucessora Dilma Rousseff, em que pese o campo da comunicação, apresentou algumas medidas que de alguma maneira estimularam o surgimento de rádios comunitárias e

TVs educativas (CRUVINEL, 2017). Em seu governo também houve o desligamento do sinal analógico e a migração para o digital. Em seu segundo mandato não concluído, a mídia teve papel fundamental contribuindo para seu impeachment em 2016 (GONÇALVES, 2016). Com sua saída, Michel Temer, até então seu vice, assume a presidência. Entre suas medidas iniciais, modifica o Ministério das Comunicações (de foco exclusivo da área comunicacional) e o incorpora à pasta do Ministério da Ciência e Tecnologia, tornando-se o “Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC)”. Em 2017, a ofensiva foi contra a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), importante conglomerado de radiodifusão pública, eliminando seu Conselho Curador, destituindo o diretor-presidente Ricardo Melo e reduzindo o orçamento. A popularidade do agora ex-presidente esteve cada vez mais baixa, envolvendo-se em escândalos e sendo alvo de protestos por todo o país.

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