A emergência do discurso solidarista, tal qual vimos acima, correspondeu ao que José Fernando FARIAS nominou de “a descoberta da solidariedade” (1998, p. 187 e ss.).
Até então, e em linhas gerais, a solidariedade não era compreendida senão em seu sentido comum, decorrente do só fato de viver em sociedade, ou da só virtude de amor ao próximo.
O pensamento solidarista, ao promover a edificação científica da solidariedade, de uma forma coerente e estruturada, logrou descobrir ou construir algo bastante novo: a ideia de uma solidariedade forte, a todos vinculante, tradutora de uma cooperação necessária na vida em sociedade. Rapidamente, porém, vetada ao esquecimento nas décadas subsequentes à institucionalização do Estado Social, a solidariedade conheceu um período de pouco prestígio.
Não obstante o Estado de Bem-Estar representasse o “reconhecimento institucional da solidariedade” (LUCAS, 1994, p. 27), a redução do termo à sua dimensão vertical inibia, como dito, o interesse de exploração científica do tema.
Tanto por isso, há quem hoje se questione, pessimistamente, se teria “a parábola da solidariedade em sentido jurídico chegado ao fim”.114
Cremos, em boa companhia, que a parábola se encontra mais acesa que nunca. Não sem razão, nas últimas décadas, autores como Felice GIUFFRÈ, Serio GALEOTTI e José Casalta NABAIS têm visualizado um movimento de
“redescoberta da solidariedade”.
Efetivamente, na literatura jurídico-constitucional contemporânea, sobretudo na doutrina estrangeira, os estudiosos têm se voltado com cada vez maior interesse para a análise juscientífica da solidariedade, apreendendo-a como princípio, direito ou dever consagrado no ordenamento positivo e exigente de aprofundamento doutrinário.
Nos tempos que correm, o denominador comum dos estudos
114 A interrogação é de Guido ALPA, citado por GALEOTTI (1996, p. 3).
desenvolvidos em torno do tema reside, precisamente, naquilo a que designamos de caráter multidimensional da solidariedade, uma exigência que – parece-nos – apresenta-se como inafastável no atual modelo de Estado Democrático e Social de Direito. Trata-se de aspecto que, hoje, está cada vez mais vivo no quadro teórico da solidariedade.
Exemplo dessa tendência pode ser encontrada em artigo publicado na década de 90 por Serio GALEOTTI, professor de Direito Constitucional da Universidade de Roma, que se dedicou com profundidade a estudar “il valore della solidarietà”115. Segundo exercício de previsão aventurado pelo autor, o que teríamos nos anos subsequentes – anos que, agora, estamos a vivenciar - é o desenvolvimento crescente da solidariedade entre os cidadãos, grupos sociais e entidades em geral, ao lado e sem prejuízo da solidariedade oriunda do Estado:
Se pudéssemos arriscar uma olhada ao futuro, diremos que, nos próximos anos, ao lado do imprescindível papel da solidariedade paterna ou estatal, crescerá mais e mais o papel da solidariedade que chamei de fraterna: seja daquela solidariedade-dever dos cidadãos (a que o Estado sempre e necessariamente recorrerá), seja daquela que se exprime como o <terceiro setor>, o setor da economia non profit, o campo dos serviços à pessoa, onde se manifesta a solidariedade mais autêntica e genuína, a que vem não por cálculo utilitarístico ou por imposição de uma autoridade, mas por livre e espontânea expressão da profunda socialidade da pessoa. (GALEOTTI, 1996, p. 23; tradução nossa)
No início do século XXI, em conferência proferida no ano de 2003, na V Giornate Europee di Diritto Costituzionale Tributario, Felice GIUFFRÈ descreve um cenário que confirma as previsões de GALEOTTI. O catedrático da Universidade de Catania refere à proposta de passagem, presente no debate político italiano, da fórmula do Welfare State assistencialista a um modelo dito Welfare Community ou Welfare Mix, no qual as comunidades locais e entidades sociais estariam engajadas na prática da solidariedade social. Convicto da insustentabilidade do modelo de bem-estar, mas não menos seguro da necessária atenção às demandas sociais, GIUFFRÈ aposta na lógica da subsidiariedade e enfatiza a desejável participação do setor público, dos setores privados lucrativos
115 Neste sentido: GALEOTTI, Serio. Il valore della solidarietà, In: Diritto E Società, Padova, v. 1, 1996, p. 1-3
e não lucrativos de utilidade pública na realização de interesses sociais.
Reproduzimos:
A assunção da subsidiariedade como dispositivo dinâmico de repartição de tarefas e de funções de interesse público consente, então, à reorganização dos serviços sociais sobre a base de uma nova combinação dos relativos ‘fatores de produção’. Não mais tanto os institutos e mecanismos públicos de fornecimento das prestações sociais, mas sistemas integrados que, na lógica do Welfare Mix, preveem a participação do setor público, dos setores privados lucrativos e não lucrativos de utilidade social (GIUFFRÉ, 2003, p. 9; tradução nossa)
Para ele, a “redescoberta da solidariedade, como princípio jurídico, coincide com a mais acurada reconstrução de seu precípuo significado, para integrá-lo aos princípios da liberdade e igualdade, no seio de inspiração personalista” (GIUFFRÈ, 2003, p. 1). Segundo se extrai de sua conferência, o ressurgimento da solidariedade se afina com o percurso de personalização do ordenamento e do reposicionamento da pessoa humana como categoria jurídica central dos textos constitucionais.
Essa mudança de perspectiva do sistema jurídico, a que temos assistido nas Constituições típicas do modelo de Estado Democrático e Social de Direito, encara o homem não como indivíduo isolado, mas como pessoa humana socialmente situada. Em tal passada, GIUFFRÈ sustenta que, reconhecida a
“necessária socialidade de toda a pessoa humana”, os homens são destinados a
“completar e a aperfeiçoar um ao outro mediante uma recíproca solidariedade”
(2003, p. 3; tradução nossa). O autor visualiza, por isso, ao lado da consagração expressa do princípio da solidariedade na Carta Italiana, uma consagração implícita da subsidiariedade, princípio que decorreria do próprio sistema constitucional.
Localizamos semelhante noção em Javier de LUCAS, em magistral artigo publicado em 1994 sob o título La polémica sobre los deberes de solidaridad, fruto de investigação destinada ao Ministério da Justiça espanhol, acerca da justificação doutrinária do serviço civil. Estudando a crescente importância do voluntariado e do terceiro setor no Estado contemporâneo, LUCAS é firme em sustentar, de um lado, que a “cidadania não pode ser concebida em
termos passivos”, que delegue a responsabilidade social exclusivamente aos poderes públicos e, de outro, que “as necessidades de uma sociedade cada vez mais próxima em perspectiva global não podem ser satisfeitas só através dos canais institucionais clássicos”. (LUCAS, 1994, p. 62; tradução nossa).
Na mesma toada, embora em termos mais genéricos, o espanhol Gregorio PECES-BARBA, eminente constitucionalista espanhol e um dos membros da Constituinte Espanhola de 1978116, compreende a solidariedade como princípio lastreado na ideia de cooperação e na criação de relações jurídicas de integração, tendo o mérito de propiciar “canais de comunicação na sociedade que permitem um diálogo ilustrado entre pessoas que se respeitam e se reconhecem” (1999, p. 279; tradução nossa).
Em linha com esse pensamento, também o lusitano José Casalta NABAIS, em artigo dedicado ao estudo do tema da solidariedade social, cidadania e direito fiscal, não poupa tintas para advertir sobre a necessária construção coletiva, cidadã, da solidariedade. Emblemáticas a esse respeito são essas suas palavras:
(...) a dimensão solidária da cidadania implica o empenhamento simultaneamente estadual e social de permanente inclusão de todos os membros na respectiva comunidade de modo a todos partilharem um mesmo denominador comum, um mesmo chão comum que assim os torne cidadãos de corpo inteiro dessa comunidade. (...) Por um lado, a cidadania não é abandonada à sociedade civil, nem é remetida exclusivamente para a estadualidade social. O que implica, quanto ao primeiro aspecto, que a solidariedade não pode ser vista como um sucedâneo, mas uma compensação para o desmantelamento do Estado Social que, segundo um certo discurso e sobretudo uma certa praxis atual, seria exigida pelo mercado, o que há que rejeitar in limine. (...) é justamente em relação às situações de exclusão social que a pretensão de intervenção exclusiva da solidariedade estadual se revela mais claudicante. Daí que, sobretudo neste setor, se imponha a convocação da sociedade civil, a promoção de formas de intervenção ou de atuação que apenas se encontram ao alcance desta, como é, designadamente, o caso do voluntariado social e comunitário. (NABAIS, 2005, P. 125-127).
Entre nós, Maria Celina Bodin de MORAES sem divergir desse raciocínio, afirma que “os direitos só existem para ser exercidos em contextos
116 A Constituição Espanhola de 1978, aliás, consagra o princípio da solidariedade. A palavra aparece por diversas vezes no diploma constitucional (art. 2º, art. 45, art. 156 e art. 158).
sociais, contextos nos quais ocorrem as relações entre as pessoas, seres humanos ‘fundamentalmente organizados’ para viverem em meio a outros”. (2006, p. 166). Para a professora de Direito Civil da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, o princípio da solidariedade equivale “ao instrumental adequado e necessário para atribuir a cada um o direito ao 'respeito' inerente à qualidade de homem, assim como a pretensão de ser colocado em condições idôneas para exercer suas próprias aptidões pessoais, assumindo as posições a esta correspondentes”. (MORAES, 2006, p. 166).
Em síntese, a compreensão contemporânea da solidariedade em sentido jurídico converge a encarar o termo de uma forma ampla e multifacetada, como um estado de coisas a ser buscado por todos, Estado, indivíduos e grupos, de forma cogente. Pois a solidariedade, hoje, bem mais que uma fórmula fraca de virtude ou fato social, constitui norma jurídica fundamental do ordenamento, erigida como valor, princípio ou objetivo estruturante do Estado Democrático e Social de Direito.
Contudo, ainda é necessário um passo avante na reflexão, pois o conteúdo jurídico da solidariedade em dado ordenamento não pode ser estudado sem o recurso aos textos e contextos constitucionais que a consagram, em especial às normas jurídicas (princípios e regras) que compõem o seu núcleo significativo.