5 Integração e participação na Escola
5.6 A reflexão como elemento impulsionador de novo
A reflexão, por ter sido contígua ao desenvolvimento de todas as tarefas a dar cumprimento nas quatro áreas de intervenção, foi a grande impulsionadora do meu crescimento profissional e pessoal. Todos os temas até então retratados, surgiram da necessidade constante de reflectir acerca dos distintos episódios decorridos no meu dia-a-dia.
Na realidade, a verbalização e a produção escrita referenciadas à prática foram decisivas na aquisição de uma maior autoconsciência profissional e pessoal. Segundo García (1999), a reflexão visa “desenvolver nos professores competências metacognitivas que lhes permitam conhecer, analisar, avaliar e questionar a sua própria prática docente”. Neste sentido, o processo reflexivo desencadeado a cada aula, unidade didáctica, avaliação, actividade ou interacção permitiu-me desvendar as minhas dificuldades e lacunas, justificar as decisões tomadas e estratégias utilizadas, tornando-me simultaneamente mais consciente do universo que é “ser professor”.
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No entanto, se a verbalização acerca das inquietações surgidas eram espontâneas, naturais e uma constante no Núcleo de Estágio, sua redacção foi envolta num conjunto de dificuldades. Neste domínio, cabe aqui uma palavra de apreço à professora cooperante, pois através das suas constantes correcções e orientações fui progressivamente colmatando esta limitação. A sua persistência no desenvolvimento da minha capacidade reflexiva incitou-me a analisar, questionar e a avaliar a minha prática, confluindo na passagem das reflexões de um nível técnico, meramente descritivo, quase exclusivamente relacionadas com o próprio ensino, para um nível reflexivo crítico ou emancipatório. Este último, entendido pelo mesmo autor, como um tipo de reflexão onde o sujeito se centra no modo como as questões éticas, sociais e politicas podem influenciar a sua prática, bem como a eficácia das mesmas. Ou seja, as minhas reflexões deixaram de se centrar unicamente na realização da aula, passando a incorporar outros sistemas circundantes à aula enquanto elementos que afectam o seu desenrolar, especificamente no que concerte ao valor que a sociedade delega à Educação Física, aos Programas Nacionais de Educação Física e a sua adequação face às condicionantes impostas pelas instalações da escola ou pelas políticas centrais. Esta evolução percepcionada, pode ser comprovada nos excertos de reflexões em que na primeira a descrição vigora e na segunda o pensamento crítico emerge:
“O primeiro aspecto alvo de reflexão e de uma futura alteração é a entrega dos coletes aquando a definição das equipas. Nesta aula designei equipas, já previamente planeadas, distribui-as pelos campos de jogo e só depois me desloquei a cada terreno de jogo para entregar os coletes. No meu ver poderia ter rentabilizado o tempo se tivesse distribuído imediatamente os coletes.” (Reflexão da aula 4, p. 1).
“O tempo de aula é reduzido para a aquisição de tanta informação, ademais como já foi realçado o papel da repetição é indubitável, daí que à semelhança do que acontece noutras disciplinas, a Educação Física reclama um trabalho extra aula aos alunos que ambicionam a excelência. A sociedade actual satisfaz-se com o alcançar de metas que lhe são decretadas por outros. O tentar ser e fazer
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sempre mais e melhor não se assumem como preocupações primordiais da comunidade. A sociedade só trabalha/investe se algo ou alguém exigir um determinado limiar a superar. A generalidade dos cidadãos resignam-se a
cumprir apenas o indispensável, o obrigatório, o mínimo e o medíocre. Esta é também a realidade que habita a escola. Sistematicamente os alunos
trabalham com base nos propósitos definidos para o seu futuro. Muitos investem somente o necessário para passar nos testes/ano lectivo, outros há que trabalham com as médias de ingresso no curso da sua preferência, no Ensino Superior. Raros são os que buscam a excelência e a perfeição, o óptimo em detrimento do bom.” (Reflexão da aula número 48, p.2)
Perante o exposto, é verificável que no início do Estágio Profissional as reflexões incidiam mais sobre mim, a minha postura e as minhas dificuldades, o que tinha corrido menos bem e o que teria de alterar. Progressivamente, fui-me descentrando da minha actuação, desenvolvendo simultaneamente a capacidade de compreensão do ensino em geral e da Educação Física, em particular, e mais minuciosamente ainda as práticas que ia desenvolvendo, as metodologias e estratégias de ensino que ia consumando e as irresoluções que iam permanecendo.
Deste modo, as reflexões foram requerendo, cada vez mais, uma atitude de interrogação e de confrontação. Confrontação decorrida essencialmente entre a teoria e a prática, exigindo de mim uma resposta pronta e adequada. Segundo Amaral et al (1996) um modelo de ensino reflexivo apresenta uma estreita ligação entre a teoria e a prática. Os mesmos autores defendem que “uma prática reflexiva leva à (re)construção de saberes, atenua a separação entre a teoria e a prática e assenta na construção de uma circularidade em que a teoria ilumina a prática e a prática questiona a teoria” (p. 99). O mesmo é dizer, que os sucessivos episódios ocorridos durante o Estágio Profissional serviram de mote para a minha consciencialização da necessidade de elevar os meus conhecimentos, e de os contrapor e questionar, sucessivamente, à luz de uma prática real.
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Considero, portanto, que o acto reflexivo se assumiu como o grande impulsionador e gerador de novo conhecimento, contribuindo para o meu desenvolvimento profissional e pessoal.
Sem um processo reflexivo, continuado e consciente, que nos preceitue a um questionamento sistemático, referente às práticas de ensino que desenvolvemos, não é possível a expansão do nosso conhecimento nem uma optimização das nossas competências pedagógicas. Segundo Vieira (2006) “este questionamento toma a experiência educativa como ponto de partida e de chegada, conferindo-lhe um lugar central na (re)construção do conhecimento e da acção do professor” (p. 17). Corroborando esta ideia estão Amaral et al (1996), quando afirmam que “não é (só) com a experiência que se aprende; mas com a reflexão sistemática sobre a experiência” (p. 157). Neste sentido, o Estágio Profissional foi uma fonte de aprendizagem, dado que se constituíu como uma experiência de ensino real, incitando-me simultaneamente a uma prática reflexiva adjacente.