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O primado da afectividade

No documento Relatório Final de Estágio Profissional (páginas 80-85)

4. Realização da prática profissional

4.1 Do planeamento à realização Os desafios da turma

4.1.1 A turma – o mapa do meu trilho

4.1.1.5 O primado da afectividade

Todo o processo educativo decorre sob a égide de um conjunto de relações interpessoais, estabelecidas entre os diversos agentes educativos. Deste modo, a eficácia do processo ensino-aprendizagem passa pelo sucesso no plano da relação pedagógica, sendo que esta, tal como corrobora Sêco (1997) está dependente da relação afectiva.

Neste seguimento, a experiência vivenciada, nestes últimos meses, impele-me a inferir que a qualidade da relação pedagógica exerce uma influência determinante na aprendizagem dos alunos. Isto é, quanto mais sólida, franca e consistente forem as interacções e as relações estabelecidas entre professor e aluno(s) mais envolvidos estes estarão na sua aprendizagem. No mesmo sentido, Sêco (1997) afirma que a afectividade é uma condição basilar na relação educativa e um factor determinante do desempenho escolar. Neste sentido, para que tais relações sejam instituídas, urge conhecer e compreender quem são os nossos alunos, reconhecendo que a sociedade e a escola de hoje não são iguais às de outros tempos. O modo como a educação é encarada sofreu uma mutação assinalável. Presentemente, para alguns dos educandos, a escola é uma obrigação, um castigo. Segundo Sampaio “a escola é para eles (alunos) um local obrigatório, mas com sentido nem sempre compreensível.” (1996, p.10). Ademais, a incerteza na concretização dos

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projectos vocacionais dos alunos perspectiva-se, cada vez mais, como uma miragem, incrementando a sua incompreensão face ao valor da escola. Perante tal conjectura, o professor contrai um papel adicional, o de influenciador de pensamentos e consequentemente motivador da aprendizagem. Assim, posso concluir que na actualidade, o modo como o professor exerce influência sobre os alunos, levando-os a um envolvimento superior na sua aprendizagem, ocupa o coração do processo de ensino. O mesmo será dizer que o relacionamento poderá ser a ponte para a motivação e interesse dos alunos pela sua aprendizagem. Neste enquadramento, Cunha (1996), refere que relação pedagógica se assume como o âmago e o cerne da actividade profissional do professor

Deste modo, perspectiva-se que ser professor implica bem mais do que leccionar aulas e transmitir conteúdos programáticos. Ao professor é-lhe conferido o dever de criar para os alunos um clima promotor de aprendizagens profícuas, sendo que esta tarefa passa, não raras vezes, pela edificação de relações consistentes com os alunos. De resto, a consistência e a sensatez da actuação do professor confere sentido e estabilidade às relações interpessoais, pois os alunos predizem aquilo com que podem contar da parte do educador.

Reportando-me às minhas vivências afirmo que estes aspectos foram significativos na minha prática pedagógica. Inicialmente, as minhas preocupações ao nível da minha actuação remetiam-se, quase na totalidade, à leccionação das aulas, sendo que os processos de interacção com os alunos não eram por mim rentabilizados. Nos meses iniciais foi necessário um esforço acrescido para manter a disciplina e o interesse dos alunos na aula. Contudo, esta atitude revelou ser incoerente: Pois tinha tanta preocupação na planificação e realização das aulas que o esforço em manter uma conduta adequada/ empenhamento dos alunos me levava a descuidar a questão relacional e, consequentemente, a qualidade da minha intervenção.

Passado algum tempo esta preocupação foi-se desvanecendo. Isto porque rapidamente me apercebi que o compremetimento dos alunos com a sua aprendizagem era o meio mais eficaz para controlar condutas comportamentais menos adequadas. Acresce que, também percebi que este

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compremetimento está indubitavelmente relacionado com a relação pedagógica estabelecida entre os intervenientes e com o papel que os alunos desempenham no seu trilho de aprendizagem. Diversas vezes o autoritarismo e a distância são estratégias a que os professores recorrem com vista à criação de um clima de respeito no espaço de aula. No entanto, na minha concepção de ensino, o respeito é algo que se obtém, algo que é conquistado e não imposto. Daí que considere muito mais produtivo erigir relações de confiança e de comprometimento com os alunos do que manter uma postura autoritária. Neste sentido, o mesmo é dizer que a confiança é a pedra de toque das relações pedagógicas. Importa assim que o professor consiga alcançar uma autoridade aceite em contraponto com uma autoridade imposta.

No entanto, com a prática pedagógica apercebi-me que estas relações não são conseguidas somente no espaço e no tempo de aula. Estas reclamam a interacção com os alunos em convívios informais, criados, por exemplo, em visitas de estudo e actividades extra-curriculares desenvolvidas na escola. O que resulta na necessidade de um investimento pessoal avultado e, consequentemente, de tempo disponível para que tal seja exequível. Contudo, perante a conjectura actual onde o professor acumula cada vez mais funções, esta disponibilidade requerida transforma-se em indisponibilidade. Ou seja, o professor está mais remetido para tarefas de ordem burocrática e administrativa, acabando por dedicar menos tempo (porque não tem!) às questões relacionadas directamente com o processo de ensino-aprendizagem, nomeadamente às questões relacionais com os alunos.

Presentemente, posso afirmar que me encontro numa posição privilegiada, situando-me na interface entre o ser professora e ser aluna, deste modo facilmente me consigo colocar no papel dos alunos por inerência da idade e da, ainda, minha condição de aluna. Rentabilizando este facto, procurei reforçar os elos relacionais com os alunos no sentido de estes servirem de acrescento ao bom funcionamento das aulas e, consequentemente, à aprendizagem dos alunos. Decorrido este tempo entre o início, e agora, no final, considero este foi um dos investimentos que fiz que se revelou fundamental para este ano lectivo. Este teve um efeito muito positivo no

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empenhamento e envolvimento dos alunos na sua aprendizagem, tal como ilustra o excerto que se segue:

“No âmbito da disciplina de Educação Física, tendo em conta os critérios gerais e específicos de avaliação de Educação Física, a professora referiu que na

generalidade dos alunos da turma o empenhamento nas aulas sofreu uma evolução positiva.” (…) No domínio das habilidades motoras é possível verificar uma melhoria no seu desempenho, sendo esta melhoria proporcional ao grau de empenhamento e envolvimento dos alunos nas tarefas da aula. No caso da Badminton e da Ginástica, este aspecto adquire

especial realce dado que bastantes alunos compareceram por sua iniciativa

no pavilhão desportivo, num horário extra aula, para aperfeiçoarem o seu nível de desempenho” (Texto anexo à acta da reunião de Conselho de Turma

do dia 12 de Abril, p. 1).

Tal como já foi expresso anteriormente, não foi apenas no espaço da aula que edifiquei relações mais sólidas com os meus alunos. A minha participação nas actividades extra curriculares, com os alunos e a colaboração com estes em actividades por si desenvolvidas foi, também ela, promotora de ligações interpessoais que foram fundamentais ao processo de ensino- aprendizagem no espaço de aula. Mencione-se a título de exemplo o acompanhamento dos alunos na visita de estudo e no Corta-Mato, os treinos extra-aula, o acompanhamento do torneio de Futebol em que participaram e a interacção com alguns alunos no seu projecto de empreendedorismo. Estas participações propiciaram a proliferação de elos de ligação sucessivamente mais vincados e consistentes. O excerto que apresento em seguida espelha este sentimento de fortalecimento de relações, que fui vivenciado na visita de estudo a Sintra:

“Este cenário permitiu-me conhecer melhor os alunos em contextos informais. Ao estarem na aula diversas vezes o seu comportamento está condicionado, as suas preferências afectivas nem sempre são consideradas, em suma, a sua atitude é diferente. (…) Ademais, estes convívios permitem criar laços de

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diferenciação de papéis no processo educativo. Este reforço de confiança

vai, a meu ver, beneficiar o acto educativo, uma vez que o ensino é um processo que envolve a comunicação e tomada de decisões, envolvendo a interacção entre os diferentes agentes visando a consecução de objectivos formativos” (Reflexão do acompanhamento dos alunos na visita de estudo a Sintra, p. 1)

Adicionalmente aos níveis de envolvimento superiores, esta intervenção também se repercutiu na leccionação de algumas unidades didácticas, designadamente na Ginástica e na Dança, que pela sua especificidade requerem uma proximidade corporal e uma confiança no professor acrescida. Na realidade, estas modalidades são propícias a que o professor estabeleça níveis de contacto corporais superiores, pela necessidade de utilização do feedback quinestésico.

Noutros casos, os contactos estabelecidos com os alunos foram, também, importantes noutros domínios, pois, reflexo da sociedade tão complexa como a nossa, convivi com alunos que denunciavam alguma falta de atenção da família. Estes manifestam carências sob o ponto de vista afectivo. Nestes casos a relação de confiança que, com o tempo, fui estabelecendo com eles fizeram de mim uma ouvinte, uma confidente e algumas vezes a “voz amiga falante” que os compreendia e aconselhava.

Todos estes focos permitiram-me obter o entendimento que as funções não lectivas auxiliam a construção do que é ser professor, sendo que as interacções, o afecto e as relações de confiança instituídas entre os actores educativos constituem um envolto de mais valias para o processo de ensino- aprendizagem. Neste sentido, permito-me evocar Goleman (1996), citado por Sêco (1997), quando refere que “aquilo que mais nos move é o afecto” (p.58). Na realidade, tal como refere Cunha (1996) cabe ao professor não desistir de ninguém, pedir muito a todos e adaptar-se a cada um. Em suma, a docência requer do professor a capacidade de chegar a todos e a cada um dos alunos, necessitando para isso de gerir um número incomensurável de variáveis.

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