Somente a vivência psicológica pode dar sentido à realidade simbólica tanto do Self quanto do inconsciente coletivo. Caso contrário, o entendimento não passará de um mapa muito distante do território. A Filosofia não o entende em sua essência simbólica, pois ele não é passível de um entendimento unicamente intelectual. Somente uma vivência intransferível, permeada pela dor, pelo espanto e pelo encanto de sua beleza dará ao indivíduo o entendimento mais claro da base misteriosa e simbólica de sua psique.
De maneira geral, o neurótico distanciou-se dessa realidade simbólica. Para ele, ela não faz o menor sentido. Lembro-me de uma senhora sexagenária, muito racional, rígida e obsessiva, inconsciente de suas feridas narcísicas, que teve sérias complicações afetivas no desenvolvimento do seu Self. Ela dizia que detestava sonhar. Queixava-se de não ter tido uma boa noite e vivia em estado maníaco, trabalhando e viajando em demasia. Pessoas que agem dessa maneira apenas escutam seus pensamentos e reflexões. Estão dissociadas de sua realidade afetiva e inconsciente. Demonstram o que a Psicologia chama de atitude unilateral da Consciência. Tal atitude promove o aumento da sombra e sua projeção nos objetos externos. Traduzindo: “o inferno são os outros”, como diria Sartre66.
Recordo-me, também, de um homem de 45 anos, tomado por um forte complexo materno negativo. Ele era frequentemente tomado por seu complexo, mas tal dinâmica lhe era inconsciente. Ele se queixava de sonhar com a mãe falecida (e muito viva em seu complexo) quase todas as noites, nas quais acordava gritando seu nome. Ele não via sentido nos sonhos; não desejava integrar, em sua Consciência, os símbolos que apontavam a sua unilateralidade egocêntrica de
66 Jean-Paul Sartre (1905 – 1980) foi um filósofo francês existencialista. Na peça Entre Quatro Paredes, de 1945,
coloca três personagens confinados, após suas mortes. O que desejam é sair do confinamento, justamente porque “o inferno são os outros”. Escreveu também A Transcendência do Ego e Freud, Além da Alma, entre diversos ensaios, tratados de filosofia, romances e peças teatrais.
apenas fazer o quisesse, na hora que desejasse. Em ambos os casos, ainda que observadas as diferenças estruturais entre eles, existia uma onipotência narcísica típica do homem moderno, que despreza a vida simbólica.
Os sonhos buscam, geralmente, compensar a unilateralidade da Consciência, almejando, assim, o equilíbrio do Self. Nesses dois casos, contudo, não existia a conexão da Consciência com o inconsciente, tanto o pessoal quanto o coletivo. Eram pessoas literais, que não conheciam a própria sombra e, portanto, a projetavam em quem estivesse mais próximo deles. Já os psicóticos graves, por sua vez, possuem uma dinâmica oposta. São inundados pelas imagens que brotam do inconsciente coletivo. Confundem, então, a realidade interna com a externa. Pelo viés psicológico, a semente do ego de tais pessoas foi brutalmente traumatizada no início da formação do Self daquele indivíduo.
Não são incomuns, nos indivíduos que apresentam episódios psicóticos, os delírios místicos, a profunda devoção religiosa (muitas vezes transformada em longos rituais obsessivos), a extrema acuidade espiritual e, dependendo da gravidade do quadro, um distanciamento afetivo de tudo que os cerca. Nesses casos, a libido volta-se para a interioridade do sujeito, potencializando, assim, o afluxo de imagens produzidas pelo inconsciente coletivo. Atendi uma paciente esquizofrênica que sempre sonhava ou delirava que um casal de estranhos fazia sexo em sua cama, enquanto ela não estava em casa. Esse casal é, justamente, o casal arquetípico que não foi totalmente humanizado no desenvolvimento do seu
Self.
3.2.1 Deus e o homem
Jung apresentou uma explicação da estrutura coletiva em um seminário realizado em Zurique no começo do século XX:
Para o inconsciente coletivo, poderíamos usar a palavra Deus. [...] Prefiro não usar palavras pomposas; estou bastante satisfeito com a humilde linguagem científica, pois ela tem a grande vantagem de trazer toda essa experiência para a nossa vizinhança imediata.
Todos vocês sabem o que é o inconsciente coletivo: em vez de sonharem com o Tio Fulano ou a Tia Beltrana, vocês sonham com um leão, e então o analista lhes diz que esse é um tema mitológico, e vocês entendem o que é o inconsciente coletivo. [...] Esse Deus já não está a milhas de espaço abstrato na distância, numa esfera extramundana. Essa divindade não é um conceito num manual de teologia ou na Bíblia; é uma coisa imediata, acontece em seus sonhos à noite, faz com que vocês tenham dores de estômago, diarreia, constipação e uma gama inteira de neuroses. [...] Se tentarem formulá-lo, pensar no que é o inconsciente, afinal acabarão concluindo que ele é aquilo em que estavam interessados os profetas; soa exatamente como algumas coisas do Velho Testamento. Ali, Deus envia pestes contra as pessoas, queima-lhes os ossos durante a noite, fere-lhes os rins, provoca toda sorte de distúrbios. Então, chega-se naturalmente a um dilema: Será isso Deus, realmente? Será que Deus é uma neurose? [...] Ora, esse é um dilema chocante, admito, mas, quando se pensa com coerência e lógica, chega-se à conclusão de que Deus é um problema extremamente chocante. E essa é a verdade: Deus tem chocado as pessoas para além da compreensão. Pensem no que Ele fez com o pobre e velho Oseias. Ele era um homem respeitável, e teve que se casar como uma prostituta. Provavelmente, sofria de um tipo estranho de complexo materno. (Jung, apud EDINGER, 1999, p. 63)
De maneira “pomposa” ou não, a religião tem o seu jeito de explicar o Arquétipo Central. Ele costuma ser representado por símbolos de um poder soberano e legislador. Toma a forma de Zeus, Deus, Cristo e Buda, entre outros. O ego pode apenas se conectar com o Arquétipo Central por intermédio de autorrepresentações desse arquétipo, isto é, por símbolos que o representem. Podemos somente estabelecer uma leve conexão com o representado. O ser humano não suportaria vê-lo tal como ele é e, por isso, não o vê. Assim como relatam os místicos, a expressão do numinoso é intensa e complexa demais para ser definida ou mesmo contemplada. O encontro de Moisés com Javé, na Primeira Aliança, é exemplar:
“Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo”. E prosseguiu o Senhor: “Há aqui um lugar perto de mim, onde você ficará, em cima de uma rocha. Quando a minha glória passar, eu o colocarei numa fenda da rocha e o cobrirei com a minha mão até que eu tenha acabado de passar. Então, tirarei a minha mão e você verá as minhas costas; mas a minha face ninguém poderá ver”. (Êxodo 33, 20-23).
A glória do Inefável é insuportável para a Consciência humana. Ela não foi feita para contemplá-lo ou, melhor dizendo, não foi aparelhada para tanto. O próprio Poder cobre com sua mão a pisque, protegendo-a, e só se revela de maneira que
ela possa experimentar, pela inspiração, o que lhe é suportável. Ao mesmo tempo, existe um lugar, perto d’Ele, escolhido por Ele, sólido como uma rocha, seguro o bastante para nos sustentar. Esse lugar pode ser entendido como uma possibilidade de estarmos próximos d’Ele, sem nos queimarmos ou nos cegarmos com a intensidade de Sua luz e esplendor. Podemos entender, simbolicamente, que as costas da Divindade são as representações que temos d’Ela. A Sua verdadeira identidade, a Sua face, não pode ser conhecida. Não por uma lei, mas por uma incapacidade de criatura.
A Psicologia que entende a fundação do homem em Deus e não reduz esse homem, portanto, a um feixe de tensões que abranja apenas o conflito entre os opostos (os instintos versus a censura social) precisa, por vezes, apelar para o discurso místico para se fazer entender, já que Deus não pode ser conhecido nem definido pelos parâmetros da ciência. Jung, de sua parte, contenta-se em abordar o tema pelo viés psicológico. Quando ele se refere ao drama de Oseias como um complexo materno, podemos entender que seu conflito é, simultaneamente, humano e divino.
De acordo com essa visão psicológica, temos que admitir que as imagens que nutrem nossos sonhos são causas de si mesmas. Podem, sim, ser representações dos instintos, do corpo e dos conflitos humanos, mas também podem falar da encarnação do Espírito de Deus no homem. Essa ideia nos deixa pouco à vontade, já que, muitas vezes, por influência da religião e da ciência, Deus não parece ter nada a ver com a interioridade do homem, e vice-versa. Aprendemos que Deus não é parte desse feixe de conflitos que caracteriza o ser humano.
Ampliei e, em paralelo, reduzi o Deus-Arquétipo Central, conceituando-o, simultaneamente, como o Inefável e como o Centro Organizador da Psique. Esse centro, sim, pode receber as projeções do que se tem de mais sagrado na cultura ou na pessoa especificamente.
Há, assim, um Self que pode e deve ser divinizado. Ele é o bem supremo e possui infinitos rostos. No centro da mandala de uma pessoa sempre está o seu bem supremo, em relação ao qual ela nutre um sentimento religioso. Em outras palavras, nesse centro, não existe um símbolo nuclear fixo, pois é necessário que esse núcleo seja mutante ou que, nesse núcleo, o símbolo nele contido seja mutante. Quando um objeto permanece no centro de um indivíduo e passa a ser, para ele, sua divindade, ocorre a idolatria ou o pecado. Algo tem de acontecer para
deslocar do altar aquele que lá se instalou. Muitas vezes, as pessoas buscam a análise, quando estão exauridas por idolatrarem um falso deus que está esgotando suas energias. Não é preciso que o ídolo seja uma pessoa. Pode, também, ser a autoidealização, o dinheiro ou a persona.