4.1 O ideal narcisista
4.1.3 Falso-self: a crosta do eu
Uma característica importante do narcisismo defensivo é o espelhar-se em demasia no próximo e se distanciar, também em demasia, da própria interioridade. É a Consciência identificada com a persona, que só se reconhece no mundo social. Essa pessoa tem pavor da solidão e somente existe por intermédio do outro. É o indivíduo que se afastou da própria alma. Percebo, no consultório, que pessoas com essa característica possuem necessidade de estar constantemente desempenhando e interagindo com outras pessoas para se sentirem vivas. Não possuem um sentido de si mesmos. Entram em ansiedade, e a sensação de vazio domina, juntamente com ideias de desvalia. Sentem-se na obrigação de encontrar alguém, seduzir e ser reconhecidos na sua potência. Não se encontram em um bom livro ou em um estado contemplativo, ou em qualquer circunstância em que a companhia seja o si mesmo. Tais pessoas são de tal modo identificadas com suas personas, que não encontram prazer, nem sentido, no repouso das atividades e no afrouxar do desempenho. Podem, realmente, entrar em desespero, quando se veem sós, como se estivessem entrando em uma casa vazia e estranha.
A análise, em todo o seu processo, tende a propiciar, ao analisando, o desenvolvimento de uma atitude heroica do consciente em relação ao inconsciente. A análise propõe, assim, uma nova atitude. Ela começa a dar frutos, quando aparecem os símbolos que buscam a integração do consciente com o inconsciente. Existe, portanto, uma forma de heroísmo em que o indivíduo ganha espaço interno: o herói volta-se para dentro de si mesmo e distancia-se da ilusão de que ele é apenas sua própria exterioridade. Ao penetrar o seu mundo interno e romper com a malha coletiva, constituída de símbolos que o mantêm seguro, à margem de si mesmo, o herói rompe com seu medo de assumir o que tem de mais íntimo e singular. O processo de tornar-se o que se é, de fato, pode ser entendido como uma maneira de interpretar o processo de individuação definido por Jung. Becker faz um belo resumo desse homem que se entrega à interioridade e se reconhece como não sendo apenas uma imagem:
Há o tipo de homem que tem grande desprezo pela “imediação”, que tenta cultivar sua interioridade, tenta fundamentar seu senso de valor pessoal em algo mais profundo e mais interior, criar uma distância entre si mesmo e o homem médio. Kierkegaard chama esse homem de “homem introvertido”. É um homem um tanto o mais preocupado com o que significa ser uma pessoa, ter individualidade e singularidade. Gosta de solidão e se retira periodicamente para refletir, talvez para nutrir ideias sobre o seu eu secreto, sobre o que este eu poderia ser. Este, em resumo, é o único problema verdadeiro da vida, a única preocupação humana que vale a pena: qual é o seu verdadeiro talento, seu dom secreto, sua autêntica vocação? De que maneira a pessoa é realmente ímpar? E como pode expressar essa singularidade, dedicá-la a algo que está além de si mesma? Como é que a pessoa pode tomar o seu ser interior privado, o grande mistério que ela sente no seu íntimo, suas emoções, seus anseios, e usá-los para viver mais distintamente, para enriquecer tanto a si mesma quanto a humanidade com a qualidade característica de seu talento? (BECKER, 2007, p. 110).
É tarefa da análise dissolver a identificação da Consciência com a persona. Voltar-se para si não é uma tarefa fácil. Buscar os próprios talentos, achar em si o que se tem de singular e desenvolver o caminho da própria realização implica uma atitude de coragem, cujo preço nem todos estão dispostos a pagar. De maneira geral, existe um grande dilema que a maioria de nós conhece. Trata-se de escutar a voz interna e segui-la ou optar pelo mais razoável e seguir o caminho já bem delineado, em ressonância com a opinião coletiva. Becker prossegue:
Na adolescência, na maioria de nós lateja esse dilema, e o expressamos com palavras e pensamentos ou com sofrimentos e anseios sufocados. Mas, em geral, a vida nos suga atirando-nos a atividades padronizadas. O sistema social de heróis em que nascemos traça trilhas para nosso heroísmo, trilhas com as quais nos conformamos, às quais nos moldamos para que possamos agradar aos outros. Tornamo-nos aquilo que os outros esperam que sejamos. Em vez de trabalhar o nosso segredo interior, vamos, aos poucos, cobrindo-o, esquecendo-o, enquanto nos tornamos homens puramente exteriores, jogando com sucesso o padronizado jogo dos heróis, no qual caímos por acidente, por conexões familiares, por um patriotismo reflexo, ou pela simples necessidade de comer e pela ânsia de procriar. (BECKER, 2007, p. 110).
Becker aponta, assim, o conflito arquetípico entre a voz do Self e a voz do falso-self. “Falso-self” é um conceito psicanalítico. “Persona defensiva”, por sua vez, é o conceito correspondente na Psicologia Analítica. Ambos referem-se ao fato de a exterioridade de um indivíduo não traduzir a sua interioridade. Se “persona” significa máscara, ela é defensiva quando esconde os verdadeiros propósitos ou anseios do
sujeito. Um exemplo corriqueiro de uma atitude do falso-self: a pessoa chega à casa de amigos com fome e, quando lhe oferecem algo para comer, recusa, dizendo-se satisfeita. Quem recusa a satisfação do verdadeiro anseio é o falso-self, ou, como denominou Donald Winnicott84 (2005, p. 54), o “self educado” ou “socializado”; o
contraponto do self pessoal privado, que é aquele “que só aparece na intimidade”, nas palavras do pediatra e psiquiatra que se dedicou ao estudo e à prática da Psicanálise.
O falso-self, por ser constituído pela expectativa alheia, cria-se e molda-se de acordo com o ideal de outro sujeito, ainda que esse outro seja apenas uma representação. Ele surge na infância, ao interiorizarmos as expectativas de nossos pais e buscarmos corresponder a elas. A estruturação do falso-self apenas começa nesse ponto, pois é reforçada por outros vetores de símbolos que encontramos em nossa vida afetiva e social e com os quais nos identificamos na edificação da estrutura da personalidade criativa e defensiva.
Quanto mais nosso eu exterior é diferente do que somos e sentimos, maior é o falso-self. Quanto mais adaptados às expectativas das normas sociais, mais nos dissociamos de nossa essência e passamos a sustentar esse eu ilusório que blinda o ego e impede a sua relação espontânea com o outro e com o inconsciente.
Ao mesmo tempo, se formos totalmente indiferentes aos modelos de adequação impostos pela cultura, teremos dificuldades de adaptação ao mundo familiar e social, que são as esferas possíveis de desenvolvimento humano. Somos seres sociais e todo o nosso aprendizado consiste em uma síntese entre o cumprimento dos papéis sociais e a nossa essência, que precisa ser refletida por intermédio de uma persona. A síntese criativa dessas duas polaridades é tarefa do ego, que também se encarrega de buscar a síntese de outras tensões. A individuação também pode ser entendida como o caminho que percorremos na busca de adaptação, sem perdermos a essência – ou a busca da essência, sem perder o contato com a adaptação. Os sonhos costumam nos alertar, quando uma dessas polaridades sobrepuja a outra.
84
Donald W. Winnicott (1896-1971), um pediatra inglês, tornou-se psicanalista e desenvolveu um extenso trabalho voltado à Psicologia do bebê e da criança, tendo feito parte do grupo de psicanalistas ingleses que conciliavam as ideias de Sigmund Freud com as de Melanie Klein, de quem foi discípulo. Ele enfatizava a importância do ambiente (e da mãe como ambiente) e da resposta do bebê a esse ambiente no seu desenvolvimento como ser humano. Sua extensa obra inclui os livros A Criança e seu Mundo e Os Bebês e suas Mães.
A educação familiar, religiosa e escolar, bem como os núcleos sociais que abusam do poder de coação que possuem, gerando medo para obter controle, contribuem para a formação do falso-self e para as fixações de uma Consciência infantilizada.
Notamos quando uma pessoa não está muito perto de si mesma. Basta estarmos centrados e com alguma disponibilidade para o outro, para o percebermos como um instrumento desafinado, que soa diferente do restante da orquestra. Talvez daí surjam as caricaturas. Os políticos no palanque, o executivo com a voz impostada numa reunião de trabalho ou o pai que chega à sua casa e não se desfaz da persona de profissional de sucesso são bons exemplos de falso-self.
Lembro de uma mulher que recorreu à análise e que possuía uma persona impecável em termos de conduta e desempenho. Ela havia concluído sua pós- graduação com excelentes notas e era reconhecida por sua destreza profissional e acadêmica. Sua interioridade, porém, era diametralmente oposta. Ela não reconhecia seus sentimentos e sua espiritualidade era embotada. Sua preocupação maior era a adequação ao mundo que deveria, no entender dela, idealizá-la. Ela evitou a análise, quando percebeu que sua postura sedutora e blindada não iriam remover o analista de seu papel. Antes de desistir da análise, contudo, relatou-me que sonhara que dormia em uma rede, mas, em vez de pijama, vestia tailler, seu típico traje de trabalho. O sonho mostrava, claramente, que ela não se desfazia de seu falso-self (a roupa profissional) nem na vida privada. Mais ainda, o sonho assinalava a sua falta de contato com a sua interioridade e seu exagerado anseio de corresponder à expectativa do mundo. A rede simbolizava seu lugar de descanso, onde ela deveria devanear ou imaginar coisas agradáveis para si. Assim, o sonho convidava a Consciência a refletir quanto sua atitude estava desequilibrada em relação aos seus símbolos e, consequentemente, à sua interioridade.
Também o comportamento antissocial pode ser resultante do desequilíbrio entre o falso-self e o self verdadeiro. Winnicott, em uma de suas palestras, chamou a atenção para isso:
Talvez vocês conheçam [...] pessoas de suas relações, pessoas essas que vocês sabem estar indo bem, recebendo medalhas, elogios e distinções, mas que se sentem irreais, de uma forma ou de outra, e que, para se sentirem reais, precisam ser membros incômodos na sociedade; vocês
podem ver essas pessoas fazendo as coisas de um modo ruim e quase que desapontando deliberadamente todo mundo. (WINNICOTT, 2005, p. 56).
Não raro, figuras públicas idealizadas (como os religiosos que já mecionei, mas também atores, esportistas etc.), isto é, tidas como exemplos de retidão, deixam-se flagrar em situações que negam a imagem que construíram, confirmando a colocação de Winnicott. Mas também na vida cotidiana isso é comum. Era esse o caso de um homem que conheci, bem-sucedido na carreira e nos esportes, ou seja, que correspondia ao ideal da cultura. Entretanto, na vida privada, tinha ataques sádicos com os filhos e os empregados, contradizendo o alto ideal que perseguia e, de alguma maneira, alcançava. Não eram poucos os que se desapontavam com ele, quando ele mostrava sua outra face. Lowen afirma que essa outra face é rebelde e pode ser perversa:
O falso-self assenta na superfície, como o self apresentado ao mundo. Está em contraste com o verdadeiro self, que se situa por trás da fachada ou imagem. Esse self verdadeiro é o depositário dos sentimentos, mas deve ser escondido ou negado. Como o self superficial representa a submissão e conformismo, o self interior ou verdadeiro é rebelde e colérico. Essa rebelião e cólera subjacente nunca podem ser totalmente suprimidas, porquanto são uma expressão da força vital na pessoa. Mas, em virtude da negação, tampouco pode ser expressa diretamente. Pelo contrário, revela- se através da transformação narcisista em atos. E pode converter-se numa força perversa. (LOWEN, 1993, p. 51).
Na citação de Lowen, podem claramente ser percebidas as polaridades antagônicas: a da persona em oposição à sombra. Tais polaridades não precisam ser entendidas como patológicas, uma vez que a vida social nos impõe suas regras e, de alguma maneira, nos obriga a nos submetermos a elas. A patologia se caracteriza pela unilateralidade da Consciência, isto é, quando uma das polaridades sobrepuja exageradamente a outra. Nesse caso, o indivíduo, como sugere Lowen, nega o interior rebelde e colérico e apresenta ao mundo uma fachada de submissão e conformismo. Sua agressividade, portanto, está sendo impedida de se expressar livremente pela sua persona rígida de adequação.
Ao seu modo, Jung, ao explicar o que é a persona (a crosta pessoal), também resume o que acontece quando a ela sobrepuja a essência do indivíduo:
Esta crosta pessoal é uma função pronta da qual vocês podem se retirar, ou para a qual vocês podem entrar à vontade. De manhã eu posso dizer “Je sui
roi” [eu sou o rei], e à noite “Oh, dane-se tudo, é tudo sem sentido!”. Se as
pessoas estão idênticas com a crosta, elas nada podem fazer além de viver sua biografia, e nada há de imortal sobre elas; elas se tornam neuróticas e o demônio chega nelas. [...] As pessoas que estão identificadas com sua
persona são forçadas a fazer coisas espantosas por trás da tela, como uma
compensação, para pagar tributo aos deuses inferiores. (JUNG, 2004, p. 30).
Vale a pena compararmos a linguagem de Lowen com a de Jung. Ambos estão falando do mesmo mecanismo de relação consciente-inconsciente. Jung utiliza a metáfora religiosa: deuses e demônios. Lowen, por sua vez, procura distinguir o falso do verdadeiro e utiliza a linguagem psicanalítica. Além disso, Jung aponta para a espiritualidade. Fica implícito, em seu comentário, que a Consciência deve transcender as polaridades (entrar ou sair da crosta pessoal), o que implica em uma profunda liberdade e também em uma profunda observação de si mesmo. Ora nos percebemos como reis, ora como um nada, sem sentido. Devemos observar, segundo Jung, as duas polaridades, sem nos identificarmos, em demasia, com nenhuma das duas.
O falso-self é uma caricatura rígida e unilateral que criamos para garantir a autoestima. No entanto, por não ser reflexo de nossa centralidade mais profunda, ele pode contribuir para abalar essa autoestima. Por exemplo, uma pessoa amorosa ou serena, que perceba que tem um reforço social positivo por assim ser, pode manter-se amorosa e serena em situações em que sente raiva. Tal pessoa pode trabalhar e se exaurir em filantropias, sem conseguir se expressar de modo legítimo, reprimindo sua agressividade autêntica. Por ser unilateral, perderá a vivacidade de quem tem contato com o seu núcleo espontâneo. Quem conviver com ela sentirá a falta de fluxo afetivo genuíno, o que faz com que, com o passar do tempo, as pessoas se distanciem dela. Isso, por sua vez, minará sua autoestima.