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Analisou-se, nesse capítulo, um Recurso Extraordinário em que fora reconhecida a Repercussão Geral no tema 280: Provas obtidas mediante invasão de domicílio por policiais sem mandado de busca e apreensão. Essa, é um requisito de admissibilidade do Recurso, na forma do art. 102, §3º da CRFB/88 e do art. 324 do Regimento Interno do STF no qual o Requerente deve demonstrar que a questão jurídica discutida possui relevância social, política e econômica que ultrapassam os limites do caso em si.

Esse instituto é deveras semelhante ao previsto no sistema anterior à 1988, que era a arguição de relevância e funciona como um filtro dos recursos que são conhecidos pela Corte Constitucional, à semelhança do writ of certiorari do direito americano (PRESGRAVE, 2013). Para Marinoni e Mitidiero (2013), a repercussão geral foi inserida no sistema como uma técnica processual que, homenageando a igualdade e racionalidade da prestação jurisdicional, estimula a compatibilização vertical das decisões judiciais, possibilitando uma tutela efetiva.

Desse modo, considerando o processo de objetivação do recurso extraordinário18 já discutido, é imperioso destacar que, na condição de principal instrumento do controle difuso de constitucionalidade e em razão da relevância social que extrapole o caso concreto, os precedentes do Pleno do STF em seu julgamento passam a ter eficácia obrigatória, erga

omnes (DIDIER JÚNIOR; CUNHA, 2017, p. 430).

Observa-se, no entanto, que o acórdão proferido em sede de recurso extraordinário não está no rol do art. 927 do CPC, que enumera os precedentes obrigatórios. Em conformidade 18 Para Didier Júnior e Cunha, não há mais necessidade de se considerar esse processo de objetivação como uma

evolução do Recurso Extraordinário, pois ele é “apenas mais uma peça no complexo sistema de formação de precedentes obrigatórios no Direito Brasileiro e isso é o que deve ser destacado” (2017, p. 431).

com Lemos (2017), isso se deve a possibilidade de julgamento do recurso pelas turmas, aliado ao fato de que a obrigatoriedade de tal acordão equipará-lo-ia à súmula vinculante. Não é pertinente ao estudo maior deliberação sobre o assunto, aqui pontuado apenas para que se explicite, a despeito de vinculação legal, que o uma decisão oriunda do Pleno do STF detém uma autoridade de precedente, na perspectiva argumentativa, posto que há, notadamente, sedimentação do entendimento da Corte19.

Assim, embora a solução encontrada no julgamento afete somente as partes, o precedente, julgado pelo Pleno da Suprema Corte passa a ser aplicado a todos e por todos. Ou seja, no caso analisado, a tese fixada será levada em consideração em todos os processos que versem sobre obtenção de provas mediante busca e apreensão sem mandado judicial, salvo se for superada pelo STF, enquanto o resultado concreto, especificamente, limitar-se-á ao Recorrente, fazendo transitar em julgado.

Em termos práticos, há dois julgamentos posteriores ao RE 603.616/RO que merecem breve análise: o Recurso Especial 1.558.004/RS, de relatoria do Ministro Rogério Schietti Cruz e o Habeas Corpus 496.420/SP relatado pela Ministra Laurita Vaz, ambos da Sexta Turma do STJ.

O primeiro, até por sua natureza, revolve diversas questões de direito e de interpretação, fazendo uma análise profunda do caso concreto e do precedente do STF, o qual critica. O ministro relator deixa claro, de início, sua visão crítica sobre a jurisprudência permissiva do ingresso em domicílio sem consentimento do morador, asseverando que o entendimento precisa ser aperfeiçoado, dentro dos limites estabelecidos pela CFRB/88 e pelo STF. E, em atitude acertada, direciona parte da argumentação para o delito de tráfico de drogas como crime permanente, argumentando que:

Em verdade, se, de um lado, a dinâmica e a sofisticação do crime organizado exigem uma postura mais efetiva do Estado, a coletividade, sobretudo a integrada por segmentos das camadas sociais mais precárias economicamente, também precisa, a seu turno, sentir-se segura e ver assegurada a preservação de seus mínimos direitos e garantias constitucionais, em especial o de não ter a residência invadida, a qualquer hora do dia, por agentes das forças policiais, sob a única justificativa, extraída de apreciações pessoais dos invasores, de que o local supostamente é um ponto de tráfico de drogas ou que o suspeito do tráfico ali possui droga armazenada (BRASIL, 2017b, p. 21).

19 Para Lemos (2017, p. 421-423), o que for decidido quanto ao mérito de Recurso Extraordinário pelo Pleno do

STF tem efeito vinculativo, enquanto que se a decisão for proferida somente por uma turma do STF não há vinculação, mas apenas autoridade persuasiva.

No sétimo capítulo de seu voto, Schietti Cruz questiona a ausência de previsão normativa ou jurisprudencial para justificar a invasão de domicílio e, à luz de decisões do Tribunal Supremo Espanhol, apresenta ideias para reflexão sobre a possibilidade de reduzir as arbitrariedades por meio da normatização da busca e apreensão nos casos de flagrante delito. Decidindo sobre o caso concreto, entende que não foram configuradas as fundadas razões, mas apenas vagas suspeitas sobre o comércio de tráfico de drogas, negando provimento ao recurso que foi interposto pelo Ministério Público Estadual (BRASIL, 2017b).

Já o Habeas Corpus, também em respeito a sua via estreita, apresenta fundamentação mais modesta, mas é cirúrgico na interpretação do RE 603.616/RO, especialmente porque se preocupa em extrair a ratio decidendi do julgamento para só então aplica-lo ao caso concreto. A relevância do caso está, sobremaneira, no recorte temático: denúncia anônima. A ministra relatora entendeu, e foi acompanhada à unanimidade na sexta turma, que essa modalidade de informação de inteligência policial, se for o único elemento prévio à invasão do domicílio, não constitui fundadas razões.

O julgamento de mérito do RE 603.616/RO é, portanto, inegavelmente paradigmático e vem suscitando debates nas cortes nacionais. Ocorreu em 05 de novembro de 2015, sendo publicado apenas em 10 de maio de 2016, momento no qual há de se esperar que os magistrados e demais profissionais do direito estivessem familiarizados com a decisão e aptos a aplicá-la, atentando-se a vinculação, pelos motivos expostos brevemente acima. Adiante, em um recorte temporal e espacial, examinaremos como o Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Norte tem enfrentado a questão.

3 APLICAÇÃO DO TEMA 280 DO STF NO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO RIO