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Parte I Fundamentação Teórica do estudo sociológico da imagem corporal

1. A relevância sociológica e social do corpo

É na sociologia contemporânea que o corpo e as temáticas que lhe estão associadas assumem um papel de destaque, embora os assuntos de ordem corporal não tenham passado ao lado dos grandes nomes da sociologia clássica, como Marx, Durkheim ou Weber, ainda que de uma forma marginal. Entretanto, com a ramificação da sociologia pelas denominadas sociologias sectoriais, desenvolvidas no período entre guerras e afirmadas depois da II Guerra Mundial, surge um espaço que dá lugar, na década de 1980, à Sociologia do Corpo (Turner, 1996a). Aliás, “porque o corpo é extensivo ao social, porque toda a prática social é também, de uma forma ou de outra, levada à acção pelo corpo, porque as práticas corporais correspondem à constituição de tipos de corporeidade, ligadas a diferentes modos de vida, é fácil perceber que a Sociologia tem interesse em prestar atenção a estes fenómenos” (Berthelot et al., 1985:1).

Assim, contra a noção de que a sociologia ignorou sistematicamente o corpo, é possível, como analisaremos adiante, encontrar reflexões importantes nos autores clássicos sobre as relações entre actividades sensuais, alienação, repressão e construção das sociedades (Shilling, 2001). No entanto, estas primeiras aproximações aos fenómenos corporais não foram suficientes para construir uma abordagem sistemática. É com um renovado e específico interesse pelo corpo que se desenvolve a sociologia do corpo. Este interesse pode ser brevemente explicado por uma conjunção de factores como os debates do feminismo, o crescimento de uma cultura de consumo, alterações demográficas como o envelhecimento da população e as doenças crónicas, bem como o advento do pós-modernismo e a crise de significado em torno do corpo (Williams e Bendelow, 1998). Turner (1992) enfatiza sobretudo o impacto da teoria social feminista e do pós-modernismo na teoria social em geral. Especificamente para a sociologia do corpo, o autor defende que a crítica do dualismo cartesiano, a pós-modernização do aparelho conceptual, a desconstrução das denominadas ‘grandes narrativas’ e os debates feministas sobre a inadequação das visões convencionais masculinas sobre o corpo têm convergido como movimento crítico na produção do consenso de que o corpo é socialmente construído.

Numa área ainda tão recente, existe já um despontar de críticas ao conceito de uma disciplina sectorial intitulada sociologia do corpo. Estas críticas partem do princípio de que a sociologia do corpo implica tratar o corpo como um entre vários temas que os sociólogos podem estudar a partir de uma visão exterior, mantendo a separação entre corpo e mente, como entidades distintas. Na teoria sociológica, o corpo tem surgido como um elemento do ambiente e o actor social tem sido tratado como um agente racional sem corpo (‘disembodied’), excepções feitas a alguns autores como Goffman, Mead ou Bourdieu (Turner, 1992).

Assim, para Le Breton, um dos sociólogos do corpo mais importantes em França, os sociólogos devem rejeitar a ideia de que o corpo é um mero atributo pessoal porque devem considerar o corpo, a sua denominada realidade objectiva e as significações que lhe são atribuídas como socialmente construídas (Le Breton, 1991). Tal como Le Breton, também Détrez (2003) faz uma tentativa de definição do corpo: não existe num estado natural e só pode ser percebido numa rede de significações sociais, no sentido em que “o termo construção social não visa colocar em causa a realidade dos fenómenos biológicos. É mais evidenciar a dialéctica entre o indivíduo e o grupo, a natureza e a cultura. Com efeito, o corpo aparece como a interface entre a individualidade, no que ela tem de mais único, e o grupo, mas igualmente entre a biologia e o social” (Détrez, 2003). Advogam os autores então uma sociologia que se foque em situações em que o corpo é trazido para a acção em sociedade, centrando-se em questões alargadas de identidade e diferenciação social – é uma sociologia aplicada ao corpo e não uma sociologia do corpo per se (Dumas, 2005).

Numa apresentação sumária dos principais domínios de pesquisa da Sociologia do Corpo, Le Breton (2004) identifica três grandes domínios de pesquisa: 1) o das lógicas sociais e culturais do corpo, que aborda as técnicas corporais, os gestos, a etiqueta, a expressão de sentimentos, as percepções sensoriais, as técnicas de entretenimento e as inscrições corporais; 2) o dos imaginários sociais do corpo, que abarca as teorias do corpo, as aproximações biológicas da corporeidade, a diferença de sexos, o corpo como suporte de valores, o racismo e o corpo deficiente; 3) o corpo como espelho da sociedade, que engloba temas como as aparências, o controlo político da corporeidade, as classes sociais e as relações com o corpo, a modernidade e o risco e aventura. Seria então no último domínio, do corpo como espelho da sociedade, que

poderíamos inscrever a nossa forma de o abordar, relacionado com o domínios das aparências. No entanto, é ainda importante compreender outras influências neste pensamento sobre o corpo.

Assim, o desenvolvimento recente de abordagens construtivistas à sociedade influencia seriamente uma mudança de perspectiva nesta, igualmente recente, sociologia do corpo. A ideia base construtivista de ultrapassar os dualismos clássicos leva a uma outra visão da relação entre o indivíduo e a sociedade. Partindo da recusa da oposição cartesiana de conceitos, “os quais, sendo constitutivos da sociologia, se revelam hoje pouco fecundos” (Corcuff, 1997: 8), “as realidades sociais são apreendidas como construções históricas e quotidianas dos actores individuais e colectivos” (idem: 22). A sociedade deverá então ser entendida como um processo construído historicamente por indivíduos que são historicamente construídos pela sociedade (Abrams, 1982). A ‘historicidade’ será aqui um conceito fundamental ao implicar um processo, no sentido em que o mundo se constrói a partir de construções passadas; estas formas sociais passadas são reproduzidas e transformadas enquanto outras são inventadas por via das interacções quotidianas, o que significa que o passado e o quotidiano se projectam no futuro. No mesmo sentido, se se quiser compreender os indivíduos no seu desenvolvimento e nas suas relações com os outros, deve-se tentar entendê-los num determinado contexto histórico.

Estas abordagens construtivistas têm por sua vez levado a questionar a identificação do corpo como área distinta e vários autores têm afirmado a necessidade de trazer o corpo para o núcleo da sociologia, interpretando quaisquer fenómenos através da sua acção (Corcuff, 1997). Por outro lado, também questionar conceitos tradicionalmente opostos leva a discutir a díade mente/corpo e a desenvolver uma nova abordagem ao corpo que se traduz numa ‘embodied sociology’ ou sociologia corporalizada. Este conceito de ‘sociologia corporalizada’ reflecte uma noção de ‘corporalização’ dos sociólogos e dos seus objectos de estudo, recusando a divisão de corpo e mente, através de um compromisso com a vivência do corpo e a sua existência no mundo, incluindo a forma como este molda a sociedade e é por ela moldado (Williams e Bendelow, 1998).

De facto, segundo Shilling (2000), é com o desenvolvimento de quatro factores principais que uma ‘sociologia corporalizada’ conquista terreno. Em primeiro lugar, os

académicos focaram-se nas diversas formas pelas quais as pessoas se relacionam com os seus corpos, tendo sido sugerido que a crescente maleabilidade do corpo depois da II Guerra Mundial estimulou uma tendência ocidental para perceber o corpo como um projecto9, o que significa que o corpo é tratado como algo para ser moldado como parte da auto-identidade do indivíduo. Exemplos de projectos corporais são o ‘body- building’, conhecido como ‘culturismo’ e as dietas, que são centrais no nosso estudo – ambos os exemplos mostram como os projectos envolvem questões de género na construção de identidades. Um segundo factor será a ‘segunda vaga’ do feminismo dos anos de 1960 e as análises feministas académicas do corpo e do género, realçando temas como o aborto e os direitos de saúde e fazendo a análise de como o patriarcado reduz o controlo feminino sobre os seus corpos. Em terceiro lugar, e como já foi mencionado, o envelhecimento das populações das sociedades ocidentais coloca questões de bem-estar relacionadas com a prioridade da distribuição de determinados medicamentos e tratamentos corporais, e mesmo com a eutanásia ou direito a morrer, que muitas vezes surge associada a estados de doença que agora é possível prolongar. O último grande factor a considerar neste aumento das preocupações com o corpo diz respeito a uma alteração na estrutura das sociedades capitalistas avançadas: o crescimento do consumo e das indústrias de lazer tornaram os ‘corpos consumidores’ tão importantes como os ‘corpos produtores’. O corpo é assim encorajado a consumir – através do fenómeno da publicidade, que também analisamos – para experimentar excitação, seja nos centros comerciais, nos ginásios ou em casa (Shilling, 2000).

É nesta perspectiva que abordamos o corpo, como básico para a compreensão de qualquer fenómeno que ocorra em sociedade mas, antes de mais, como sujeito e objecto de análise: as vivências e acções dos sujeitos são inseparáveis dos seus corpos.

Deste modo, partimos do princípio que os processos de socialização promovem a interiorização de universos exteriores e que as práticas individuais e colectivas dos sujeitos objectivam universos interiores. O estudo que desenvolvemos exemplifica esta proposição, na medida em que é através da vivência que os adolescentes interiorizam universos de corpos ideais, de beleza e de sucesso e é através das práticas de dietas,

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exercícios ou do desempenho de outros comportamentos que objectivam os seus ideais, construídos também eles socialmente.

Toda a abordagem ao corpo que desenvolvemos tenta ultrapassar a referida díade mente/corpo – através do pensamento combinado de aspectos da realidade. A imagem corporal é precisamente um conceito que aponta para a superação e a junção destes clássicos antónimos. Implica uma forma de representação do indivíduo no mundo, construída de uma forma reflexiva, pelo contacto social, numa dada história. Daí falarmos do corpo como projecto, no qual a aparência, o tamanho, a forma e o conteúdo estão abertos a reconstruções de acordo com os objectivos de quem o possui (Fox, 1997). Pensamos igualmente que o corpo pode ser visto como um produto e produtor cultural, que vive num mundo simbólico relacionado com outras dimensões da sua experiência que se desenvolve pela sua actividade social (Burkitt, 1999). Este produto e produtor é assim objecto e sujeito de transformações, na procura de uma dada forma, tamanho ou beleza.

Quer pelas transformações passíveis de serem operadas, quer pela sua actividade social, o corpo tem sido objecto – para além de sujeito – de estudo sociológico. È nosso objectivo analisar de forma breve a evolução das várias abordagens ao corpo para se compreender o actual relevo dado especificamente na sociologia, uma vez que o seu interesse para outras ciências como a medicina, a psicologia ou a antropologia já tem mais longa data.

1.1. As abordagens sociológicas ao corpo

Na sociologia clássica, como mencionámos, encontramos já algum interesse, embora marginal, por alguns aspectos relacionados com o corpo. Por isso, para alguns autores esta é a chamada ‘história secreta’ dos assuntos corporais (Williams e Bendelow, 1998), ao passo que “nada existe de secreto sobre a importância do corpo na teoria social contemporânea” (Shilling, 2000: 416)10.

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Ver Quadro nº 2 – Síntese dos principais desenvolvimentos do corpo na Sociologia, que remetemos para o final deste capítulo

Segundo Shilling (2000), desde o século XVI que o puritanismo tentou promover uma dieta moderada e um estilo de vida que evitasse inflamar as pecadoras paixões da carne. Para o mesmo autor, e reportando aos séculos XIX e XX, as reformas políticas e sociais estavam associadas a preocupações com a saúde, questões raciais e de eficiência económica – mais ou menos directamente relacionadas com o corpo.

Durante a segunda metade do século XIX, as grandes transformações das condições de vida, quer pela concentração das populações nas cidades, em busca de trabalho nas fábricas e nas minas, quer pelas negativas consequências de insalubridade e de promiscuidade, levam ao enriquecimento do pensamento social através da descoberta da saúde, da reprodução e da sexualidade como assuntos de responsabilidade social e não apenas individual (Berthelot et al., 1985). Nestes assuntos, o denominador comum é o corpo.

1.1.1. Na Sociologia Clássica

Neste período que antecede a sociologia contemporânea, Marx é um dos pensadores mais importantes quando, a partir da sua leitura das condições operárias, recorda que as sociedades capitalistas dependem da reprodução contínua de corpos através dos tempos e da sua localização espacial, e que estes corpos são tanto o meio como o objecto do trabalho humano. Aliás, os teóricos modernos retomam as visões marxistas em relação ao corpo nas sociedades capitalistas. Isto sucede nomeadamente em relação ao potencial de transformação da ‘praxis’ social como base para se construir uma abordagem sociológica aos agentes ‘corporalizados’ num contexto económico, material, político e social. Um dos argumentos marxistas absorvidos pela sociologia defende que o homem se opõe à Natureza como uma das suas próprias forças, utilizando os membros da forma que quer para agir sobre o mundo externo e mudá-lo, alterando simultaneamente a sua própria natureza (Turner, 1996). No fundo, esta poderá ser entendida como a base para a ideia mais tarde apresentada por Berger e Luckmann (1999) sobre a construção social da realidade: o corpo humano, bem como o mundo externo, é uma realidade construída, mediada pelo trabalho humano e interpretada através da cultura.

A aparência física, as roupas, a postura e a saúde são apanágio de uma dada condição social, embora possam ser lidas de uma forma polissémica e manipulável

(Barthes, 1999). Ora mesmo no século XIX, a condição de operário marcava uma massiva diferença física, para além de moral. Para além de Marx, também Engels se pronuncia sobre as catastróficas condições de trabalho das classes trabalhadoras nas sociedades capitalistas: “mulheres tornadas incapazes de ter filhos, crianças deformadas, homens enfraquecidos, membros esmagados, gerações destroçadas, afectadas pela doença e pela enfermidade, puramente para satisfazer os bolsos da burguesia.” (Engels, 1845, cit. in Williams e Bendelow, 1998:13). Marx e Engles sustentaram a tese de que, nos primórdios da Revolução Industrial, as mais-valias capitalistas também derivavam do facto das mulheres e das crianças serem exploradas de forma desumana, ao ponto de trabalhares 16 horas diárias. O corpo operário, com as suas condições de trabalho, é muitas vezes deformado, mutilado e usado precocemente. O caso das mulheres é então desde logo destacado, uma vez que as deficientes condições de trabalho nas fábricas levam a que o número de abortos aumente significativamente, até porque elas trabalhavam até ao último momento de gravidez. Estas perspectivas não perderam totalmente a sua validade, ao serem retomadas por abordagens feministas actuais, numa crítica ao poder opressor do patriarcado sobre as mulheres (MacSween, 1996)

Ainda na segunda metade do século XIX, surgem outras perspectivas teóricas que se ocupam mais exclusivamente dos factos sociais e da sociedade. Apesar da biologia ser a ciência que fornece uma grande parte dos modelos científicos, dá-se a denominada ruptura durkheimiana, que se caracteriza pela tentativa de demarcação de interpretações psicológicas, mas sobretudo pelo intuito de romper com as tendências da sociologia biológica, o que leva a uma crítica ao corpo e à opção por uma sociologia moral (Berthelot et al., 1985).

Durkheim apoia-se nas oposições cartesianas clássicas para estabelecer um paralelismo entre o corpo e o profano e, em oposição, a alma e o sagrado: “o corpo é uma parte integrante do universo material uma vez que nos é dado a conhecer pela experiência sensorial; a origem da alma está noutro sítio e ela tende incessantemente a regressar a esse sítio. Esta origem é o mundo do sagrado” (Durkheim, 1912, cit. in Wiiliams e Bendelow, 1998: 13). A oposição estabelecida por Durkheim entre corpo e alma traduz-se num ‘duplo centro de gravidade’ para os indivíduos que, permanentemente em conflito, não sabem qual das duas naturezas seguir: a baseada na moralidade ou a alicerçada nos instintos. A ruptura durkheimiana fez então regredir o

interesse pelo corpo nesta sociologia embrionária, embora outros retomem os assuntos corporais.

Da Escola Francesa de Sociologia no início do século XX, Halbwachs e Mauss deixam alguns contributos para a sociologia do corpo, especialmente o segundo (note-se que ambos são discípulos de Durkheim, e o segundo é mesmo seu sobrinho). Halbwachs estuda os modos de vida das classes sociais e debruça-se sobre problemas muito particularmente relacionados com o corpo: alimentação e vestuário, procurando relações entre estes e a profissão ou a habitação (Berthelot et al., 1985) – temas que podem interessar directamente à sociologia do corpo. Já Mauss, e segundo Berthelot et al. (1985), avança com a importante noção de técnicas corporais. É possível identificá-lo como um dos precursores do estudo do ‘controlo’ corporal, sobre o qual se debruçaram ainda nomes como Merleau-Ponty (1972, 1988) ou Goffman (1971, 1980), adiante abordados. A noção de controlo aponta para uma visão do homem autónomo, a controlar as instituições que cria; trata-se já do uso do corpo e da corporalização das acções sociais (Featherstone, 2000). Por isso Featherstone (2000) afirma que, embora de uma forma incipiente, Mauss lança algumas bases para se construir uma sociologia corporalizada.

Os contributos de Mauss para a compreensão das técnicas corporais são fundamentais a dois níveis: primeiro, fornece uma definição da forma como os homens têm sabido usar os seus corpos em sociedade; segundo, cataloga vários tipos de técnicas corporais - andar, nadar, dormir, etc. Para este autor, desta feita segundo Berthelot et al. (1985), cada sociedade tem os seus hábitos e as técnicas corporais que são utilizadas numa sociedade e num dado período histórico podem não corresponder às utilizadas noutra sociedade e noutro contexto.

Referindo-se também aos escritos de Mauss, Turner (1992) aponta que as técnicas corporais possuem três características fundamentais. A primeira característica é serem ‘técnicas’, constituídas por uma série de movimentos ou formas corporais – Mauss vê o corpo como o instrumento mais natural do homem; a segunda característica é serem ‘tradicionais’, na medida em que são aprendidas ou adquiridas pelo treino ou pela educação – sem tradição não pode existir técnica, nem nenhuma transmissão; em terceiro lugar, caracterizam-se por serem eficientes, uma vez que servem um dado propósito, função ou objectivo, como andar, dormir, nadar, etc..

Assim, e continuando a defender a importância do pensamento de Mauss sobre o conceito de técnicas corporais, Turner (idem) lembra que para aquele é necessária uma tripla visão do ‘homem total’, que combine aspectos físicos, psicológicos e sociológicos. Um conceito fundamental para Mauss era ainda o de ‘habitus’ – o qual é depois retomado por Bourdieu (1979) – ou seja, a existência de uma relação sócio- cultural entre o corpo e os seus movimentos, que resulta no facto de que tudo o que se faz é aprendido.

As críticas apresentadas a Mauss por Turner (1996a) incidem na sua classificação e catalogação das várias técnicas corporais de acordo com as suas experiências e reflexões pessoais, na imagem determinista do indivíduo que age de uma forma irreflectida em relação às suas técnicas corporais e culturais, na negligência do importante papel das emoções na aquisição, no uso e nas consequências das técnicas corporais e na identificação destas como entidades abstractas, que operam independentemente de situações sociais concretas. Por tudo isto, os aspectos de poder, conflito e controlo na aquisição destas técnicas corporais acabam por ficar minimizados, independentemente do valor que em traços gerais esta teoria traz, nomeadamente como ponto de partida para outros autores, que vão teorizar a partir daqui.

Na sua análise retrospectiva sobre os contributos dos denominados ‘clássicos’ para a implementação da sociologia do corpo, Turner (idem) destaca ainda Weber, Simmel e Parsons. Nesta nossa muito breve consideração dos alicerces da sociologia do corpo, passamos a sintetizar os principais aspectos.

Weber, segundo Turner (idem), encara a Sociologia como uma ciência interpretativa do significado social e da interacção, a qual ocorre entre egos, actores ou agentes sociais, embora não deixe de analisar o papel do corpo. Na sua teoria das acções sociais, um dos tipos é o das acções orientadas por considerações afectivas, onde se revelam as emoções e os sentimentos humanos. Em relação ao corpo, Weber sustenta a noção do corpo ascético, na qual os prazeres da carne são negados através do desvio (thrift) e do trabalho árduo no ‘chamamento’ como sinal da graça de Deus. O desenvolvimento do Capitalismo deu prioridade à racionalização formal e deixou de lado as emoções e os sentimentos humanos. De facto, o Capitalismo requer a gestão racional e o controlo do corpo e das emoções, as quais devem ser mantidas na esfera da

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