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2.2 A representação do leitor nas obras de Clarice Lispector

A incomunicabilidade de si para si mesmo é o grande vórtice do nada. Se eu não acho um modo de falar a mim mesmo a apalavra me sufoca a garganta atravessando-a como uma pedra não deglutida. Eu quero ter acesso a mim mesmo a mim mesmo na hora em que eu quiser como quem abre as portas e entra.

Clarice Lispector (Um sopro de vida/pulsações)

A relação de Clarice Lispector com a arte literária transcende a postura autor- obra. Sua escrita é muito mais que apenas um mero ofício de escritor, ela é um diálogo com as diversidades artísticas e com as pessoas do discurso - o eu, o tu, o nós e até o it17. Entrando assim em paralelo com o eixo autor-obra-leitor da teoria de Iser. Um diálogo de Clarice com sua própria obra, e ao mesmo tempo com as demais obras que

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Grifo meu.

16 Do ponto de vista terminológico, o termo pulsion foi introduzido nas traduções francesas de Freud como equivalente do alemão Trieb, de raiz germânica que vem de impulsão (treibir = impelir), no sentido de caráter irreprimível da pressão mais do que a fixidez do alvo e do objeto. A concepção freudiana da pulsão conduz a uma explosão da noção clássica de instinto. (LAPLANCHE; PONTALIS, 1986: 506 – 509).

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passaram a fazer parte da sua existência por meio de anos e anos como leitora eclética e apaixonada. Clarice, mais do que autora, é leitora de suas obras; é leitora de identidades; é leitora de “si” no “outro” e do “outro” no “si”; é leitora do mundo - real e fictício.

Por ser leitora diversificada em gêneros e culturas, Lispector tornou-se igualmente, uma autora multifacetária que ora escreve, cria e recria o que lê, mas que também se decifra, se inova e se renova pelo que escreve, proporcionando, assim, uma espécie de construção de sentidos existenciais a partir da recepção e da prática literária: “Quero escrever- te como quem aprende.” (1998: 10- Água Viva) “(...) Quero captar o meu é.” (1998: 10- Água Viva). Como diz Arrigucci Jr: “(...) a leitura é sempre uma arte da decifração” (ARRIGUCCI, 1987:229).

Como vemos, a escrita de Clarice faz parte intrinsecamente de seu ser, e, portanto, quando ela escreve, ela se vê e se lê. E, assim, ela também vê e lê “outros”- “vários eus” e seres. Arrigucci Jr observa:

Quando no interior da obra se encontra a figura refletida de um autor que se coloca também como leitor, um autor que comenta o que leu, que escreve porque lê ou por ter lido, feito a nossa imagem e semelhança em quanto leitores, se aclara em nós a consciência do papel da leitura com relação a própria escrita e a motivação profunda do ato de escrever (ARRIGUCCI, 1987: 229).

Sendo assim, um dos possíveis motivos que levava Clarice a escrever é o anseio de se colocar como leitora, de expor o que leu e como leu: “(...) escrevo por profundamente querer falar.” (1998: 10- Água Viva) Entretanto, Clarice não fala somente de si – autora - ou de vós – leitores. E estes leitores não são apenas ‘seus leitores’ – de suas obras -, contudo, são as diversificadas leituras do mundo em um processo dialógico com a própria leitura de mundo, de outrem, de si: “E se digo ‘eu’ é porque não ouso dizer ‘tu’, ou ‘nós’ ou ‘uma pessoa’. Sou obrigada à humildade de me personalizar me apequenando mas sou o és-tu.” (1998: 12- Água Viva). Ela ainda diz:

À duração da minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro. (...) Para me interpretar e formular-me preciso de novos sinais e articulações novas em formas que se localizem aquém e além de minha história humana (LISPECTOR, 1998:12- Água Viva).

Através de citações como a anterior Clarice deixa transparecer essa busca incessante de decifrar o indecifrável. Mostra que escreve por uma necessidade própria de se comunicar consigo mesmo e com o mundo, de sentir que existe, talvez essa

procura é o que a crítica vê como epifania: “Sinto necessidade de palavras” (LISPECTOR, 1998:10 - Água Viva). Podemos observar isso também na fala do autor (na verdade Clarice), de Ângela Pralini em Um sopro de vida (pulsações): “Ângela parece uma coisa íntima que se exteriorizou. Ângela não é um personagem. É a evolução de um sentimento. (...) Será que criei Ângela para ter um diálogo comigo mesmo? Eu inventei Ângela porque preciso me inventar” (LISPECTOR, 1999:30-31).

Iser por meio de O jogo do texto aborda algo semelhante quanto ao ato literário: Aí esta a façanha extraordinária do jogo, pois parece satisfazer necessidades tanto epistemológicas como antropológicas. Epistemologicamente falando, impregna a presença com uma esboçada pela negação de qualquer autenticidade quanto aos resultados possíveis do jogo. Antropologicamente falando, nos concede conceber aquilo que nos é recusado. É interessante notar que as perspectivas epistemológicas e antropológicas não entram em conflito, mesmo se pareçam caminhar uma contra a outra. Se houvesse um choque o jogo se desfaria, mas como há a irreconciabilidade de fato revela-se algo de nossa própria constituição humana por nos conceder ter ausência como presença, o jogo se converte em um meio pelo qual podemos nos estender a nós mesmos (ISER, 1979:118).

Ou seja, a literatura satisfaz tanto as necessidades humanas quanto as científicas. E, nas obras de Clarice, parece suprir tanto as necessidades existenciais da autora quanto a do leitor. E isso é concebido por meio do dialogismo que Lispector proporciona com suas próprias “vozes” dentro dos textos. Por isso, as teorias sobre dialogismo, estética da recepção e existencialismo fazem elo com a representação do leitor nas suas obras.

2.2.1- Dialogismo e polifonia como instrumentos de representação do