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5 LÍNGUA ÁRABE e LINGUAGEM ALGÉBRICA: cotidiano

5.1 A REPRESENTAÇÃO DOS CÓDIGOS DA ORALIDADE E DA ESCRITA

Depois dessa breve complementação do que foi apresentado nas seções anteriores, abordo alguns pontos relevantes. A língua materna escrita ou oral tem seu papel tanto na matemática como nas outras áreas do conhecimento. É, no mínimo, um veículo das informações, mas podem estar nela às dificuldades que os sujeitos encontram como ressalta Azevedo e Rowel (1999, p.87), ―já que tais dificuldades não estão situadas no âmbito dos algoritmos, das fórmulas ou dos conceitos específicos dessas áreas [...], mas nas construções linguístico-discursivas dos enunciados. São dificuldades de nível lexical, sintático, semântico, textual e/ou discursivo que impedem a compreensão do sentido do texto‖.

Em decorrência disso, o papel dos códigos da linguagem materna é a comunicação de certos tipos de mensagem, visto que ler e compreender implica decodificar, atribuir e construir significado; é um ato interativo entre as características do texto e o receptor. A interação deve ocorrer entre os conhecimentos prévios desse receptor e as informações novas contidas no texto que está sendo lido. O resultado da compreensão é a construção de uma representação mental decorrente dessa interação. Assim, o caráter de comunicação é expresso quando se aponta, segundo Martinet (1967, p.47), que:

2 Apresento exemplos mais direcionados à cultura islâmico para esclarecer, na medida do possível as correlações da época do surgimento da álgebra, de al-Khwārizmī.

uma língua não poderia [...] ser descrita como um código em que as unidades da língua não preexistem à língua, já que uma língua não consiste em uma série de etiquetas penduradas em objetos da realidade de uma vez para sempre e idênticas de uma comunidade humana para outra. Uma língua representa, e não nos cansaremos de repeti-lo, uma organização sui generis de dados da experiência.

Martinet menciona um papel da língua com uma finalidade expressiva, ou seja, o significado das coisas – linguagem, gestos, imagens – depende exclusivamente da situação (comunicação ou atividade) em que ela está sendo usada. Esse ponto destacado pelo autor restringe-se a língua falada, dando outro enfoque à língua escrita3. No entanto, para o processo de escritura ele pondera que há um código formal, que:

[...] consiste na substituição da forma de uma unidade linguística por outra forma, outra matéria, outra substância, que se considera que está melhor adaptado para certas necessidades e certas circunstâncias. Se nos sujeitamos, na presente discussão, a conservar o termo código, teremos que aplicá-lo à forma escrita, que vem a oferecer, para a forma fônica das unidades linguísticas, equivalentes visuais melhor adaptados à necessidade de conservação das mensagens (MARTINET, 1967, p. 88).

É provável que a compreensão verbal do que foi dito seja um destaque para que a linguagem oral não consista apenas um fator de determinação da língua escrita. Para tal, fazem-se necessárias a interpretação e a compreensão dessa complementação. A possibilidade de haver compreensões diferentes deve evidenciar que os textos orais e escritos sejam bem-estruturados, tragam enunciados e marcas linguísticas que liguem os elementos (etiquetas) de forma a apresentar uma organização sequencial e com possibilidade de serem interpretados. Nessa linha, as unidades linguísticas não podem ficar restritas a uma hierarquização de poder da oralidade com a forma escrita.

É verdade que, em todo o mundo, a forma oral da língua, principalmente na língua árabe, é um suporte de significado natural e insubstituível para o aprendizado da escrita. Principalmente que o árabe apresenta uma língua clássica para a escrita e uma língua coloquial para a fala de um grande número de falantes nativos desse idioma. Para tanto, ressalto que foi baseado na língua oral que os contos foram sendo perpetuados. No entanto, a escrita não é apenas um instrumento que codifica ou visa a perpetuar a fala, pois ela também representa, instaura, cria ou constrói novos níveis de significação, novos objetos, inacessíveis à fala, tal como o significado das artes, com influência da matemática árabe, não se restringe a imitações, nem se revela plenamente em simulações de fotografias. Os papéis e funções da escrita não se confundem com a de um mero medidor da oralidade, num nível de reprodução gráfica do código oral. É cabível de entendimento que tanto a linguagem escrita como a

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Vale ressaltar que para o nosso caso de pesquisa estaremos privilegiando ambas as línguas, oral e escrita, devido a sua influência e penetração para a construção da álgebra e para a construção de uma filosofia algébrica baseada em contos orais.

linguatem oral apresentem suas formas dinâmicas devido à inserção na dinâmica social, sendo respeitadas as devidas diferenças.

Como discute Marcushi (2001) as especificidades de cada expressão oral e escrita carregam marcas descritivas diferenciadas por necessidade de manterem suas especificidades que lhes é particular. A linguagem oral vem acompanhada, muitas vezes, de uma corporificação do sujeito falante ou de mediações de voz num aparelho telefônico que diferencia do registro escrito, que pode ser apagado, complementado e reeditado.

Assim, o objeto da língua escrita apresenta as suas funções diferenciadas da língua falada conforme suas representações, de acordo com Schwantes4 que diz que esse procedimento pode ser visto como um mapeamento da realidade. Em sua forma gráfica, segundo o teórico citado, os mapas unidimensionais são exclusivamente algumas considerações organizadas com configuração vertical; ele ainda explica que os mapas bidimensionais, apresentam a disposição vertical e horizontal. Essa oscilação dos dois tipos de mapeamento da realidade defendida por Schwantes pode apresentar superposições de representações entre as formas apresentadas, mas não deixando de apontar para a função mais complexa da bidimensionalidade que tem como finalidade indenticar significados (subsunçores) pré existentes na estrutura congnitiva, que permite manter as relações entre os dois tipos de mapas. Vale o exemplo da força da matemática na representação do contexto do século IX, até os dias de hoje, implicando em utilização dos sentidos das palavras e dos números, no Alcorão:

Consideremos o primeiro versículo do Alcorão: ُ١ؽشٌأ ّٓؽشٌا للهأ ُغث

―Bismi-Allah al-Rahman al-Rahim‖ = ―Em nome de Deus, Beneficente e Misericordioso‖.

Este versículo, chamado de ―basmala‖, quando escrito em árabe, é composto de 4 palavras, com um total de 19 letras.

ُ١ؽشٌأ ّٓؽشٌا للهأ ُغث

Em nome Alláh Beneficente Misericordioso

َ ٞ 18 ػ 17 س 16 ي 15 ا 14 ْ 13 َ 12 ػ 11 س 10 ي 9 ا 8 ٖ 7 ي 6 ي 5 ا 4 َ 3 ط 2 ة 1 19

4 De acordo com Siegfried Schwantes, Ph.D em línguas semíticas pela Jonhs Hopkins University, o vocabulário da última parte do livro de Gênesis e do livro de Êxodo evidencia a influência da língua egípcia sobre o hebraico. A palavra para ―linho fino‖, por exemplo (Gn 41:42), é shesh e, curiosamente, em egípcio é shash. Outro exemplo é a palavra ―selo‖ (Gn 38:18, 25).

Se o Alcorão é o Livro que consegue resumir todos os segredos ou ciências da Criação, a ―basmala‖, para o Profeta Maomé e seus companheiros, era considerada a síntese da síntese, o ponto que ocupa o meio do círculo, o centro da criação, isto é, o âmago da essência de toda alma humana.

Para o exemplo citado, a forma de expressão, as letras e os números têm um valor relativo de religiosidade. Porém, há que se ressaltar que há uma outra ponderação a ser considerada em relação à escrita como sendo um processo de formação de conhecimentos, onde o aprender a escrever não se reduz a uma simples associação entre letras e sons ou a fixar a forma das palavras. Corresponde a um processo de conceitualização de linguagem, numa perspectiva epistemológica. Percebe-se que a escrita não pode ser vista como um ato técnico de junção de fonemas e grafemas, pois ela tem uma função social e cultural. Dessa forma, apenas o domínio das regras do português e do código gráfico não garante o uso adequado da escrita.

A linguagem escrita tem um desempenho de caráter de praticidade indispensável na vida humana e social; mas, não se limita a uma função técnica de padronização da sociedade da vida cotidiana. É entretando, a forma criadora e estética do uso da linguagem que ela desempenha pode ser considerada como arte. Neste aspecto, a linguagem passa a constituir a Literatura, como produtora de satisfação e sentimento artístico, de prazer, acolhendo subjetividades, modelando projetos, criando histórias. As linguagens literárias trazem elementos elucidativos sobre a produção da subjetividade rompendo com uma linguagem que contenha formulações frias e objetivas. A linguagem, a rigor, é vista como uma instância artística capaz de inscrever-se e marcar-se histórica e culturalmente.

A linguagem escrita tem de satisfazer o sentimento do homem, no caso da língua árabe, que não ficar restrita a cingir uma formulação seca, objetiva e fria, dando significação para que ambas (a escrita e a língua árabe) possam compreender a natureza e o funcionamento da linguagem humana, tanto oral quanto escrita, oferecendo elementos linguísticos para emprestar um matiz inesperado de expressões5.

Nesse sentido, ressalto que, para estudiosos como Moreno (2005), o aprendizado da língua materna árabe, tanto em sua forma oral quanto na forma escrita, deve ser entendido como sistemas de representação, pois se faz imprescindível diferenciar os elementos e as relações próprias aos sistemas, bem como a natureza do vínculo entre o objeto da oralidade e

da escrita e suas representações. Esse vínculo pode ser arbitrário, como no caso da escrita, por se valer de signos; ou analógico, como na oralidade, por utilizar símbolos.

A oralidade é o meio pela qual o homem manifesta sua expressão e visão do mundo, o exercício de uma atividade imaginária, que se relaciona a um processo dinâmico, em que se procura representar o que conhece e compreende. Porém, a escrita foi num primeiro momento tratada com certa cautela ao longo da sua criação. Embora haja sujeitos plenos em oralidade para a sua comunicação, o fato de não saber escrever categoriza-os a condição de analfabeto, mas não os desqualificam como resultantes de imaginação e atividade criadora.

Retorno, mais diretamente, para as funções da Álgebra. De modo mais claro ainda, não parece possível interpretar os conceitos da Álgebra como uma fase de incapacidade sintética da matemática, percebendo as diferentes formas dos objetos e as relações de pertinência dos elementos algébricos, como a construção de um sistema de representação alternativo, a partir de um sistema conhecido, a priori, como foi apresentado na seção 4. Tal sistema, que seria o correspondente da língua falada na aprendizagem da escrita, começa com diferenciações quanto ao número, letra ou posição de cada um deles. Pelo caráter de ambas as linguagens, pode-se perceber que além do caráter técnico as condições estruturais que afetam a língua são consideradas, no uso do contexto, com objetivos de desenvolvimento, de analisar, de descrever, de investigar, de comparar, de contribuir, de sintetizar, de levantar hipóteses e de trabalhar com incógnitas (FREGE, 1980).

Dessa maneira, a língua materna serviria como principal elemento de intermediação para a compreensão de códigos, não a única, entendendo que há outras linguagens. Mas, como estruturante de um conjunto de elementos (léxico) e de relações (regras), as linguagens decodificam o mundo carregadas de significantes e significados, que auxiliam na integração de forma intrinseca e extrínseca, reafirmando seu papel de organizadora da interioridade e da exterioridade. Completando, a linguagem pode ser entendida como uma criação social que utiliza símbolos, também criados socialmente. A linguagem matemática, incluindo os objetos algébricos, como incógnitas, letras, símbolos e estruturas, é um sistema simbólico de caráter formal, cuja elaboração é indissociável do processo de construção do conhecimento e que tem como função principal converter conceitos matemáticos em objetos mais facilmente manipuláveis e calculáveis, possibilitando inferências, generalizações e novos cálculos que, de outro modo, seriam impossíveis (GOMEZ-GRANELL, 1998). Sendo assim, continuo a apontar que a linguagem matemática, compreendida como organizadora de visão de mundo, deve ser destacada com o enfoque de contextualização dos esquemas de seus padrões lógicos, em relação ao valor social e à

sociabilidade, e entendida pelas intersecções que a aproximam da linguagem verbal e escrita, não como um código misterioso em que o ―Livro do Universo‖ estaria escrito para os árabes [islâmicos], e que aos pobres mortais caberia a tarefa de decifrá-lo, como sugeriu Galileu. (MACHADO, 1990). Em vez disso, concebo a matemática algébrica como um sistema de representação da realidade, construído de forma gradativa, ao longo do amadurecimento da história dos povos árabes com sua influência religiosa e linguística. Vale o exemplo da força do Islam quando argumenta que o Alcorão permeia cada aspecto da vida do muçulmano e ele é a declaração final de Deus para mostrar o caminho certo. Assim, todas as ciências, inclusive a matemática, se originaram do Criador e o Livro Sagrado é síntese máxima ou fonte absoluta de todas elas (MOHAMAD, 1989).

Diante das constatações do pesquisado, podemos certificar que os papéis que a língua materna desempenha demonstram as formas peculiares e características próprias em que ela é percebida e examinada.