1.2 Abordagens dos estudos linguísticos
1.2.5 A Representação Visual dos Atores Sociais
Ao apresentar as motivações, as perguntas, os pressupostos, a metodologia e as bases conceituais para sua categorização, van Leeuwen levanta uma importante questão, que na verdade é também parte de sua justificativa para não partir de categorias linguísticas para elencar as possíveis formas de representação dos atores sociais, e sim de categorias sócio-semânticas. O autor postula que o significado pertence à cultura, e não à linguagem, não podendo, portanto, ser “atrelado” a nenhuma semiótica específica (VAN LEEUWEN, 2008, p.24). Assim, da mesma forma que sugere realizações linguísticas para as categorias sócio-semânticas, o autor também sugere realizações visuais para algumas destas mesmas categorias29. Para o autor, as imagens também representam discursos que recontextualizam práticas sociais, pois “[...] Discursos [...] podem ser realizados não apenas linguisticamente, mas também por meio de outros modos semióticos”.30
(VAN LEEUWEN, 2008, p.viii). A ideia de que cada um destes modos (sejam imagens, roupas, música ou tradicionalmente a linguagem verbal, dentre inúmeras outras possibilidades) oferece recursos semióticos para construir significados é na verdade uma ampliação da ideia defendida por Halliday (1978) de que gramática não é um conjunto de normas para
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Tradução de “[...] the grammatical category „mental process‟ does not fully overlap with the sociosemantic category „reaction‟”.
29 Ver van Leeuwen. Discourse and Practice – New Tools for Critical Discourse Analysis. Oxford
University Press. 2008. p. 142-148.
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Tradução de “[...] Discourses [as I conceive of them in this book] can be realized not only linguistically, but also by means of other semiotic modes.”
produzir frases corretas, e sim um recurso para construir significados (VAN LEEUWEN, 2005, p.3).
Van Leeuwen (2008, p.137), em sua proposta de análise da representação visual dos atores sociais, parte de duas perguntas básicas: primeiro, como as pessoas são retratadas? Segundo, como as pessoas retratadas se relacionam com o observador? Os dois questionamentos vão determinar duas fases de análise distintas. A primeira se baseia nas categorias para análise da representação dos atores sociais, adaptadas para imagens, e a segunda está teoricamente fundamentada em Kress e van Leeuwen (1996). Partindo do conceito de gramática como “recurso para construir significados”, e pensando sempre nos diversos recursos semióticos disponíveis, Kress e van Leeuwen desenvolveram em 1996 uma gramática do desenho visual (GDV). Neste trabalho os autores oferecem um elaborado arcabouço para a análise de textos visuais, de acordo com a proposta das metafunções de Halliday, adaptada para este outro meio semiótico. Como nesta pesquisa enfoca-se a literatura infantil, um gênero em que tradicionalmente a imagem desempenha um importante papel ao lado dos textos verbais, Kress e van Leeuwen (1996) parece particularmente interessante para que se possa observar que recursos visuais, dentro da gama de opções à disposição do ilustrador, foram escolhidos; e que significados foram construídos com estes recursos. Se é verdade que, conforme sugere Knowles e Malmkjær (1996, p.68), “[...] as escolhas linguísticas do escritor podem ajudar na criação e manutenção de relações de poder...”31, parece lógico que as escolhas “imagéticas” também atuem da mesma
forma, sejam estas conscientes ou não.
A primeira pergunta, sobre a forma como as pessoas são retratadas, gera um arcabouço teórico em que o autor utiliza categorias já conhecidas de sua rede de sistemas para representação dos atores sociais. Eliminando várias categorias e reorganizando a disposição e o desdobramento de outras, van Leeuwen (2008) propõe outra rede de sistemas adequada à análise de textos visuais. Partindo das mesmas possibilidades de que o ator social seja incluído ou não no texto, o autor propõe como formas de entrada inicial as mesmas operações de exclusão e inclusão para a representação visual dos atores sociais. Se incluído, o ator pode estar envolvido em ação(ões), como Agente ou Paciente.
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Tradução de “[...] a writer‟s linguistic choices can aid the creation and maintenance of relations of Power.”
Além de envolvido em alguma ação, ele vai estar concomitantemente representado de forma genérica ou específica; e ainda, de forma individual ou em grupo. Se estiver incluído de forma genérica, a representação do ator se dá através de traços ou características que o tornam um tipo social, e não um ser único (como é o caso da inclusão específica). A representação genérica, por sua vez, implica uma categorização, que pode se dar em termos “culturais” (categorização cultural) ou “biológicos” (categorização biológica). Segundo van Leeuwen (2008), os atributos que ensejam a categorização funcionam por meio de conotação. No caso da categorização cultural, os atributos “[...] conotam os valores e associações negativos ou positivos imputados a um grupo sociocultural particular pelo grupo sociocultural para o qual a representação é produzida em primeiro lugar.”32
(VAN LEEUWEN, 2008, p.144- 146). Estas características, por serem consideradas culturais, seriam em princípio modificáveis por aqueles por elas caracterizados. Já a categorização biológica consiste no uso de traços físicos padronizados (exagerados) “[...] para conotar as associações negativas ou positivas que o grupo sociocultural representado evoca para o grupo sociocultural para o qual a representação é primeiramente produzida.”33 (VAN LEEUWEN, 2008, p.146). Estas características, ao contrário daquelas que definem a Categorização cultural, seriam consideradas inerradicáveis e imutáveis, por estarem “no sangue”.
A dicotomia da representação individual / em grupo, finalmente, diz respeito à inclusão do ator social como um indivíduo ou como parte de um grupo. Se representado em um grupo, é possível que o ator social em questão seja “homogeneizado” em meio aos demais atores, como se fosse parte de um todo. No entanto, este grau de homogeneização pode variar, conforme diminuem as diferenças individuais.
Van Leeuwen postula que vários destes recursos visuais podem ser usados como estratégias para representar as pessoas como “outras”, por exemplo, a exclusão, quando na verdade estas pessoas estariam incluídas em um dado contexto; a estratégia de representar pessoas como agentes de ações que são mal vistas em determinada comunidade; e a estratégia de retratar pessoas como grupos homogêneos, negando-
32 Tradução de “[...] connote the negative or positive values and associations attached to a particular
sociocultural group by the sociocultural group for which the representation is in the first place produced.”
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Tradução de “[...] to connote the negative or positive associations which the represented sociocultural group evokes for the sociocultural group for which the representation is primarily produced.
lhes características únicas e diferenças. Tais (e outras) estratégias podem ainda, segundo o autor, se manifestar em diferentes combinações e em graus variados; no entanto, estas representações não podem ser olhadas em si mesmas, mas no contexto histórico cultural em que estão inseridas, e no qual ensejam associações, simbolismos, preconceitos e conotações as mais distintas.
A segunda fase de análise baseada na segunda pergunta postulada por van Leeuwen (“como as pessoas retratadas se relacionam com o observador?”) está teoricamente fundamentada em Kress e van Leeuwen (1996). Partindo do conceito de gramática como “recurso para construir significados”, e pensando sempre nos diversos recursos semióticos disponíveis, Kress e van Leeuwen desenvolveram em 1996 uma gramática do desenho visual. Os autores acreditam que as estruturas visuais, assim como a linguagem verbal (ou qualquer meio semiótico) “preenchem” três funções principais, ou metafunções, conforme defendido por Halliday (KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p.15). Neste trabalho os autores oferecem um elaborado arcabouço para a análise de textos visuais, de acordo com a proposta das metafunções de Halliday, adaptada para este outro meio semiótico.
Kress e van Leeuwen (1996) comentam que, quando crianças, em geral somos encorajados a “produzir imagens”, sendo que estas ocupam um espaço maior ou equivalente ao texto escrito. Com o passar dos anos, a escrita vai ganhando mais importância e as imagens, com exceção de contextos especializados e/ou técnicos, tendem a desaparecer no trabalho das crianças, embora contraditoriamente, fora do contexto escolar, as imagens ocupem um espaço cada vez maior. Assim, os autores defendem uma “alfabetização” visual, oferecendo a GDV como uma proposta teórica para tal fim.
No âmbito do LETRA, trabalhos foram desenvolvidos com base na GDV, já consolidando uma tradição de pesquisas com o modo visual de textos. Pioneiros foram os trabalhos de Pinheiro e Magalhães (2007), em que se trabalhou com a representação de atores sociais em imagens e chamadas em capas da revista Raça Brasil; e de Carvalho e Magalhães (2007), em que foi analisado o significado da composição na primeira página de jornais tablóide e standard. Além destes, é importante citar Carvalho e Magalhães (2009), também contemplando a análise de primeiras páginas de jornais; Faria e Magalhães (2009), que investiga corpus paralelo de literatura
infantil; Magalhães e Novodvorski (2010), em que a GDV é usada para examinar capas de textos de literatura infantil brasileira; e Borsinger, Ventola e Magalhães (no prelo), em que se usa o mesmo referencial da GDV para analisar as capas da obra An Introduction to Functional Grammar (HALLIDAY, 1985; HALLIDAY, 1994; HALLIDAY & MATTHIESSEN, 2004) em suas três edições.
Em sua gramática do desenho visual, Kress e van Leeuwen (1996, 2006) estão interessados na descrição dos recursos ideacional, interpessoal e textual tais como são realizados no modo semiótico visual. Os autores desenvolvem então um conjunto de sistemas relacionados às metafunções e que trazem as potencialidades de recursos e as possíveis manifestações visuais para a realização dos distintos significados. Estes sistemas são:
(1) O sistema das estruturas representacionais, que podem ser narrativas e conceituais, e que apresentam ações e eventos ou então caracterizam os participantes em termos de sua “essência” (e que estão relacionados à metafunção ideacional da gramática sistêmico-funcional);
(2) O sistema dos significados interativos, que dizem respeito ao tipo de relação que se estabelece entre o participante interativo e o participante representado (e que estão relacionados à metafunção interpessoal);
(3) O sistema da modalidade, que está relacionado ao valor de verdade ou credibilidade atribuído (ou compartilhado) por um grupo ou comunidade a determinada representação e aos recursos disponíveis para construir esta representação com alta ou baixa modalidade. A modalidade também constrói significados interpessoais;
(4) O sistema dos significados da composição, que concerne à “[...] forma como os elementos representacionais e interativos são colocados em relação um com o outro, à forma como são integrados em um todo significativo”34
(KRESS & VAN LEEUWEN, 2006, p.176). Este último sistema, por sua vez, está relacionado à metafunção textual da gramática sistêmico-funcional.
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Tradução de “[...] the way in which the representational and interactive elements are made to relate to each other, the way they are integrated into a meaningful whole.”
Para responder a sua pergunta pela forma como as pessoas retratadas se relacionam com o observador, entretanto, van Leeuwen (2008) lança mão apenas do segundo sistema descrito acima, ou seja, o sistema dos significados interativos, que oferece os principais recursos para a construção dos significados interpessoais entre participantes representados e interativos. Assim, o autor considera os aspectos da Distância Social, definida pelo plano (em um continuum que varia de muito próximo a muito distante) através do qual o ator social é representado, e que constrói o grau de intimidade entre pessoas retratadas e o observador; da Relação Social, determinada pelos ângulos (novamente um continuum entre frontal e oblíquo e entre alto e baixo) a partir do qual o ator social é observado, construindo uma relação de (falta de) envolvimento e de (des) igualdade de poder; finalmente, van Leeuwen (2008) ainda observa o aspecto da Interação Social, que revela o tipo de contato (de demanda ou de oferta) existente entre o ator social representado e o observador, construído através da direção ou do endereçamento do olhar do participante representado em relação ao participante interativo.
A investigação destes aspectos permite, finalmente, observar como é construída a relação entre pessoas retratadas e o/a observador/a, o que responde à segunda pergunta postulada por van Leeuwen em sua análise da representação visual dos atores sociais.
Além do interesse que a análise do texto visual das capas investigadas traz em si, possibilitando uma observação sistematizada dos significados construídos a partir das imagens, é também interessante investigar, como já foi marcado, se estes significados estão coerentes, isto é, se há rima com os significados construídos a partir do texto verbal dos contos. A rima pode ser definida como a relação entre dois elementos que, “[...] apesar de separados, possuem uma qualidade em comum – que qualidade é esta depende do atributo comum (por exemplo, uma cor, uma característica de forma tal como angularidade ou curvatura, etc.)”35
(VAN LEEUWEN, 2005, p.13). O autor explica que é possível que uma imagem e um texto verbal rimem através da similaridade entre elementos que, apesar de distintos e separados, compartilhem alguma qualidade. E dá o exemplo da cor e seu significado
35 Tradução de “[...] two elements, although separate, have a quality in common – what that quality is
depends on the common feature (for example, a color, a feature of form such as angularity or roundness, etc.)”
em um dado contexto. No corpus sob análise nesta pesquisa pode ser citado o exemplo da cor amarela, presente no texto visual (e também verbal) da capa de Chapeuzinho Amarelo, rimando com o medo, elemento recorrente no texto verbal do conto e que, no contexto, remete a este sentimento. O‟Sullivan ([1998] 2006, p.113), já citado anteriormente, levanta a questão da “tradução de imagens”, e considera que “[...] em um gênero que combina palavras e imagens, uma tradução ideal reflete a consciência não apenas da significação do texto original, mas também da interação entre o visual e o verbal, o que as imagens fazem em relação às palavras...”36 Assim, a importância do discurso visual na literatura infantil é bastante reconhecida, e a proposta de van Leeuwen (2008) da representação visual dos atores sociais oferece as ferramentas e os conceitos necessários para realizar uma análise bem fundamentada dos textos visuais.
No âmbito do LETRA, trabalhos foram desenvolvidos com base na R(V)AS. Além dos já citados Novodvorski e Magalhães (2008), Magalhães (2008), Assis e Magalhães (2009), pode-se acrescentar Magalhães e Assis (2010), Magalhães (no prelo) e Magalhães e Caetano (no prelo), os dois últimos especificamente sobre representação visual do racismo em anúncios britânicos e capas da Revista Raça Brasil.
Todos os referenciais revistos acima, bem como os trabalhos citados nas distintas áreas em intersecção nesta investigação contribuíram, direta ou indiretamente, para a consolidação das teorias e do percurso metodológico que hoje tornam possível a abordagem adotada na presente pesquisa. No capítulo seguinte, apresenta-se em detalhes o corpus aqui utilizado e a metodologia.
36 Tradução de “[...] in a genre combining words and pictures, an ideal translation reflects awareness not
only of the significance of the original text but also of the interaction between the visual and the verbal, what the pictures do in relation to the words…”.