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1. INTRODUÇÃO

2.1 DIREITO TRIBUTÁRIO SANCIONADOR

2.1.2 Reponsabilidade por infrações à legislação tributária

2.1.2.1 A responsabilidade e o elemento subjetivo do infrator

Na descrição hipotética da norma, o ilícito tributário pode variar quanto à referência

ou não da participação subjetiva do agente. Para o Direito Tributário Sancionador a regra é a

infração meramente culposa, não se exigindo a presença do dolo, salvo se, excepcionalmente,

a lei assim o prever. Essa é a exposição bastante clara do art. 136 do CTN:

Salvo disposição de lei em contrário, a responsabilidade por infrações da legislação tributária independe da intenção do agente ou do responsável e da efetividade, natureza e extensão dos efeitos do ato.

O art. 136 do CTN enseja diferentes interpretações. Há quem entenda que se trate

da recepção da responsabilidade objetiva em sede de infrações tributárias

75

. É o que defende,

por exemplo, DENARI, para quem “o legislador deixou de formular qualquer juízo de

culpabilidade ao disciplinar a responsabilidade por infrações da legislação tributária, ao

gerador da obrigação de pagar o tributo” (MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 105-106).

71 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 469. 72 MARTINS, Ives Gandra da Silva. Da Sanção Tributária. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 76. 73 MARTINS, Ives Gandra da Silva. Da Sanção Tributária. 2. ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 76. 74 MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 113.

75 Nesse sentido: CARVALHO, Paulo de Barros. Curso de Direito Tributário. 22. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. p. 587.

desconsiderar a participação volitiva do infrator”

76

. TORRES também entende que desimporta,

“para a punição do agente, o elemento subjetivo do ilícito, isto é, se houve dolo ou culpa na

prática do ato”

77

– apesar de o mesmo autor ressalvar que o CTN é conflitante com a tese

objetiva, na medida em que o próprio art. 112 do referido diploma legal diz que a lei que define

infrações “interpreta-se da maneira mais favorável ao acusado, em caso de dúvida quanto à

capitulação legal do fato ou à natureza ou às circunstâncias materiais do fato ou à natureza ou

extensão dos seus efeitos”

78

.

COÊLHO entende que não se pode querer “aplicar ao ilícito fiscal o princípio da

responsabilidade subjetiva (dolo e culpa) como regra, ao invés da responsabilidade objetiva,

com atenuações interpretativas”

79

. PADILHA volta-se à prescindibilidade tanto do dolo quanto

da culpa para a responsabilidade por infrações tributárias, tendo em vista que o termo

“intenção”, disposto no art. 136 do CTN, deve ser interpretado a todo e qualquer aspecto de

vontade, “abarcando, além do dolo, também a culpa manifestada pelas modalidades

‘imprudência’, ‘negligência’ e ‘imperícia’ e exigindo apenas o nexo de causalidade entre a

conduta e o resultado”

80

, descartando-se qualquer valoração subjetiva.

De outra banda, SCHOUERI discorda de tais premissas ao afirmar que o art. 136

do CTN exclui apenas a necessidade de constatação do elemento doloso para a configuração da

responsabilidade, mas silencia quanto à dispensa do elemento culposo, de modo que,

“inexistindo culpa ou dolo, não surge a pretensão punitiva do Estado, pelo mero fato de que não

há o que punir”

81

. O referido autor complementa seu ponto ao sustentar que se o CTN realmente

dispensasse totalmente o elemento subjetivo (dolo ou culpa) para fins de caracterização da

infração, não teria previsto a remissão “por ‘erro ou ignorância escusáveis’ sobre matéria de

fato (artigo 172, II e IV

82

) e a própria possibilidade de equidade para afastar a imposição de

76 COSTA JÚNIOR, Paulo José da; DENARI, Zelmo. Infrações Tributárias e Delitos Fiscais. 3. ed. São Paulo: Saraiva, 1998. p. 68.

77 TORRES, Ricardo Lobo. Curso de Direito Financeiro e Tributário. 13. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 268.

78 TORRES, Ricardo Lobo. Curso de Direito Financeiro e Tributário. 13. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2006. p. 268.

79 COÊLHO, Sacha Calmon Navarro. Curso de Direito Tributário Brasileiro. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2010. p. 645.

80 PADILHA, Maria Ângela Lopes Paulino. As Sanções no Direito Tributário. São Paulo: Noeses, 2015. p. 79. 81 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 860.

82 Art. 172 do CTN. A lei pode autorizar a autoridade administrativa a conceder, por despacho fundamentado, remissão total ou parcial do crédito tributário, atendendo:

[...] II – ao erro ou ignorância excusáveis do sujeito passivo, quanto a matéria de fato; [...] IV – a considerações de equidade, em relação com as características pessoais ou materiais do caso;

penalidades (artigo 108, IV

83

)”, tampouco a hipótese de exclusão de penalidade em caso de

demonstração de boa-fé, consistente no seguimento da “legislação tributária”, por parte do

sujeito passivo (art. 100, parágrafo único, do CTN

84

)

85

.

Ainda em discordância com a premissa da responsabilidade objetiva no que diz

respeito a infrações tributárias, AMARO destaca que o fato de o referido art. 136 do CTN

preceituar que, em princípio, é irrelevante a presença do dolo para caracterizar a

responsabilidade, isso não descaracteriza a discussão da culpa (em sentido estrito). É dizer, se

“ficar evidenciado que o indivíduo não quis descumprir a lei, e o eventual descumprimento se

deveu a razões que escaparam a seu controle, a infração ficará descaracterizada, não cabendo,

pois, falar em responsabilidade”

86

. Todavia, ainda que o indivíduo não atue com a consciência

e a vontade do resultado, a infração pode decorrer por falta de diligência “(portanto, de

negligência) sua ou de seus prepostos, no trato de seus negócios (pondo-se, aí, portanto, também

a culpa in elegendo ou in vigilando)”

87

.

HARADA também não economiza críticas à tese de que as infrações tributárias

seriam de natureza objetiva, tendo em vista que a lei deve regular a individualização da pena,

“fato que não permite a desconsideração da culpa subjetiva, na apuração de responsabilidade,

pois se o objetivo fosse a responsabilidade não caberia falar-se em individualização da pena”

88

.

Outra fração da doutrina é voltada à asserção para a qual nega a responsabilidade

objetiva em matéria de penalidades tributárias, mas, por outro lado, defende a ideia de que a

responsabilidade é configurada pela culpa presumida. Dentre seus defensores, destaca-se

MACHADO, que realça a diferença entre as responsabilidades objetiva e a por culpa

presumida: na primeira “não se pode questionar a respeito da intenção do agente”

89

; já na

segunda tem-se que

a responsabilidade independe da intenção apenas no sentido de que não há necessidade de se demonstrar a presença de dolo ou de culpa, mas o interessado pode excluir a responsabilidade fazendo a prova de que, além de não ter a intenção de infringir a

83 Art. 108 do CTN. Na ausência de disposição expressa, a autoridade competente para aplicar a legislação tributária utilizará sucessivamente, na ordem indicada:

[...] IV - a equidade.

84 Art. 100 do CTN. São normas complementares das leis, dos tratados e das convenções internacionais e dos decretos: [...] Parágrafo único. A observância das normas referidas neste artigo exclui a imposição de penalidades, a cobrança de juros de mora e a atualização do valor monetário da base de cálculo do tributo.

85 SCHOUERI, Luís Eduardo. Direito Tributário. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 860. 86 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 471. 87 AMARO, Luciano. Direito Tributário Brasileiro. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 2014. p. 471. 88 HARADA, Kiyoshi. Direito Financeiro e Tributário. 22. ed. São Paulo: Atlas, 2013. p. 653.

norma, teve a intenção de obedecer a ela, o que não lhe foi possível fazer por causas superiores à sua vontade90.

Em constatação similar, PAULSEN ressalta que, em se tratando de

responsabilização por infração tributária, a culpa é presumida, “porquanto cabe aos

contribuintes agir com diligência no cumprimento das suas obrigações fiscais”

91

. Todavia, a

relativização de tal presunção é afastada quando o contribuinte demonstrar (comprovar) que

agiu diligentemente

92

. Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que

tendo o contribuinte sido induzido a erro, ante o não lançamento correto pela fonte pagadora do tributo devido, fica descaracterizada sua intenção de omitir certos valores da declaração do imposto de renda, afastando-se a imposição de juros e multa ao sujeito passivo da obrigação tributária93.

MASINA é outro que advoga a favor da ideia da reponsabilidade por culpa

presumida e é enfático ao referir que a diferença de tal instituto para o da responsabilidade

objetiva é brutal

94

; a exigência de culpa do infrator decorre da necessidade de sua

compatibilização “com os valores subjacentes ao Estado de Direito – em especial com o ideal

de juridicidade”

95

. A juridicidade, segundo o autor, “impede a aplicação de sanções se não

houver culpa ou dolo por parte do infrator, inclusive no atinente às sanções administrativo-

tributárias”

96

. Finaliza o jurista concluindo que a reponsabilidade objetiva e as sanções jurídicas

“são institutos incompatíveis num Estado de Direito”

97

.

Doutro enfoque, no campo jurisprudencial brasileiro a discussão acerca da natureza

da responsabilidade prevista no art. 136 do CTN (se objetiva ou se subjetiva) também é

nebulosa. Veja-se que, por exemplo, no STJ prevalece o entendimento de que a referida norma

estabelece a responsabilidade objetiva do infrator. Todavia, em função da aplicação da equidade

e do princípio da lei tributária “in dubio pro contribuinte”, admitem-se “temperamentos na sua

interpretação”, exigindo-se a comprovação da conduta culposa – conforme decidido no Agravo

90 MACHADO, Hugo de Brito. Curso de Direito Tributário. 27. ed. São Paulo: Malheiros, 2006. p. 180-181. 91 PAULSEN, Leandro. Curso de Direito Tributário Completo. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 231. 92 PAULSEN, Leandro. Curso de Direito Tributário Completo. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. p. 231.

93 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Agravo Regimental no Recurso Especial nº 1384020-SP. Agravante: Fazenda Nacional. Agravado: Sônia Maria Fonseca. Relator: Ministro Herman Benjamin, julgado em 19 de

setembro de 2013. Disponível em: <

https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=1266379&num_regi stro=201301518322&data=20130926&formato=PDF >.

94 MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 84. 95 MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 84. 96 MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 84. 97 MASINA, Gustavo. Sanções Tributárias: definições e limites. São Paulo: Malheiros, 2016. p. 84.

Regimental no Recurso Especial nº 1.220.414

98

(o qual segue uma vasta linha jurisprudencial

no mesmo sentido).

Cuida-se de entendimento com clara contradição, pois a fundamentação do julgado

se amolda à culpa presumida do agente – que não exclui o seu aspecto subjetivo – e não à

objetividade da responsabilidade do infrator. Sem embargo, excetuando os equívocos de seus

fundamentos, o referido precedente mostra-se acertado no que tange à sua conclusão

99

. Assim,

ressalvadas premissas contrárias, subjaz à responsabilidade tributária a culpa, ao menos

presumida.

2.1.2.2. A responsabilidade e a indiferença quanto à efetividade, à natureza e à extensão dos