Capítulo 2. Responsabilidade social das empresas – Análise conceptual e teórica
2.3 A responsabilidade social das empresas em Portugal
Num estudo realizado por Leite e Rebelo (2010) sobre a implementação das práticas de RSE em Portugal, foi possível concluir que a RSE tem vindo a ser praticada de modo informal por uma elevada percentagem de empresas portuguesas. O estudo focou-se em 8 grandes empresas portuguesas anónimas e todas elas concordaram com a crescente importância da RS para as empresas. Algumas delas, porém, salientaram que, nas PMEs, algumas práticas são implementadas sem que lhes seja conferido o estatuto formal de empresa socialmente responsável.
No que concerne à frequência das práticas de RSE, a maior parte das empresas do estudo de Leite e Robalo (2010) confirmou a sua continuidade e regularidade. As empresas portuguesas do estudo revelaram, ainda, que as práticas de RSE estão “interiorizadas no seu ADN”, “fazem parte do seu modelo de gestão” ou que “fazem parte da cultura da empresa” (Leite e Robalo, 2010:2218).
Contudo, segundo Almeida (2012), em Portugal, a RSE tende ainda a ser confundida com caridade ou filantropia empresarial, com uma mera estratégia de marketing ou com uma procura de benefícios fiscais. Por esta razão, de acordo com o autor, poucas empresas portuguesas fazem um autêntico investimento em RS, uma vez que não compreendem ainda o real contributo da prática para ganhos futuros, negligenciando um investimento sustentável com um potencial retorno a longo prazo.
Ainda assim, de acordo com o estudo da PWC (2012), 84% das empresas portuguesas afirma ter uma estratégia de investimento social ou filantrópico mesmo num contexto de crise económica, em que a grande preocupação é a estabilidade e a sustentabilidade a nível económico, as empresas portuguesas não esquecem a responsabilidade social, continuando este a ser um conceito integrado nas suas agendas.
No entanto, 65% das empresas não avalia o impacte dos investimentos sociais que efetua, o que permitiria avaliar o sucesso dos seus programas. O inquérito realizado pela PWC (2012) revelou, ainda, que em Portugal são poucas as empresas que publicam um relatório sobre RSE. Em muitos casos, as empresas realizam apenas uma incorporação de conteúdos de
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sustentabilidade no seu relatório financeiro. Também a Gfi Portugal, objeto de estudo da presente investigação, não apresenta qualquer relatório específico sobre RSE, ao contrário das filiais da França e da Espanha. Também no estudo de Leite e Robalo (2010), é salientada como uma das dificuldades das empresas portuguesas na implementação da RS a tangibilidade e a quantificação das práticas desenvolvidas.
Apesar destes dados, sabe-se que a RSE tem vindo a ganhar cada vez mais força e a revelar a sua importância no setor empresarial e social em Portugal e no mundo inteiro. Nicolau e Simaens (2008) referem que as modalidades da RSE têm contribuído para o redesenho das instituições da economia social e colocam novos desafios de gestão, gerando também a necessidade de abertura cultural para lidar com novas realidades. Assim, espera-se que este transporte de matérias sociais para a esfera privada traga benefícios para o bem-estar da sociedade, nomeadamente ao nível da transparência das práticas empresariais.
As organizações que promovem a RSE em Portugal são as seguintes: o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD – Portugal), a Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), o Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial (GRACE) e a Rede Nacional de Responsabilidade Social (REDE RSOPT). A Gfi Portugal, objeto de estudo da presente investigação, é membro do Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável.
Leite e Rebelo (2010) concluíram, no seu estudo, que o impacto ambiental e social resultante das atividades das empresas é cada vez mais considerado, por estas, como um fator determinante do sucesso empresarial. De acordo com os dados obtidos, os autores constataram que a definição de RSE pelos gestores portugueses engloba três parâmetros essenciais: a identificação dos três domínios (social, económico e ambiental) como pertencentes à RSE, o seu carácter voluntário e a gestão integrada das práticas.
Em Portugal, tem havido um interesse crescente por esta temática e pela sua divulgação por parte dos media e em particular por parte da imprensa escrita, especialmente por parte de alguns jornais (como o Diário Económico e o Expresso) e revistas da área empresarial (como a Impactus) (Leite e Rebelo, 2010). Os mesmos autores nomeiam também o crescente número de parcerias entre revistas com empresas portuguesas que visam a construção de rankings e a atribuição de prémios que têm como objetivo geral promover bons exemplos de responsabilidade social.
32 2.3.1 Perceção dos entrevistados sobre a responsabilidade social das empresas em Portugal
Sobre as motivações dos consumidores portugueses em escolherem empresas socialmente responsáveis, José Vitor Malheiros, afirma que as pessoas gostam de fazer “a coisa certa”. Segundo o mesmo, “ninguém gosta de saber que está a comprar uma camisola confecionada por crianças numa fábrica chinesa sem quaisquer condições de trabalho”.
José Vitor Malheiros corrobora ainda com a opinião de vários autores de que se tornou difícil, ou até mesmo impossível, para as empresas de todo o mundo e para os seus gestores, ignorar este tema. O consultor pensa ter começado a ouvir falar do tema, em Portugal, há cerca de duas décadas e crê que tenha surgido a par do impulso da Internet, que trouxe solicitações mais exigentes por parte dos cidadãos e consumidores mais informados. Esta exigência, de acordo com Malheiros, manifestou-se em relação ao Estado e às atividades empresariais. As empresas não conseguiram, então, ignorar esta exigência.
Isa Pedroso, entrevistada na qualidade de especialista em Recursos Humanos da Gfi Portugal, também acredita que existe “evidentemente” uma tendência mundial para as empresas assumirem posturas socialmente ativas e ligadas à RS, tendência esta que já está igualmente presente em Portugal. Pedroso considera que o tema terá começado a ganhar muita força no meio empresarial há cerca de uma década e, hoje, até pela própria pressão criada pelo mercado, muito focado nestas questões da sustentabilidade, “é difícil para as empresas não serem socialmente responsáveis”.
Malheiros, por sua vez, afirma que o povo português se preocupa tanto com estas questões como os outros cidadãos do mundo. Apesar de não haver, aparentemente, uma grande preocupação com a certificação em Portugal, como foi visto no subcapítulo anterior, o consultor da Ciência Viva considera que os portugueses estão cada vez mais exigentes na área da RSE, afirmando que Portugal toma como referência vários países. “Dada a nossa grande abertura ao mundo, queremos ser tão livres quanto os mais livres, tão responsáveis quanto os mais responsáveis”, explica.