2 O OBJETO DE ESTUDO: CLASSE MÉDIA, EDUCAÇÃO ESCOLAR E
2.3 A “responsabilidade social” em três dimensões
2.3.1 A “responsabilidade social” no universo empresarial
Embora ações na área social já existissem tanto no universo escolar, em especial em escolas confessionais, quanto em outros contextos sociais, como em organizações não-governamentais e movimentos de esquerda, a problemática ganhou relevância no mundo dos negócios, onde a expressão “responsabilidade social” foi divulgada e consagrada.
De acordo com Kreitlon (2004), discussões sobre a relação entre ética, sociedade e empresas já estavam estabelecidas desde os primórdios do capitalismo, mas é principalmente a partir da década de 1960, com o acirramento das críticas ao sistema capitalista, que elas assumem relevância acadêmica e social. Para a autora, o surgimento da ética empresarial como campo de estudos está ligado à evolução do sistema econômico e às transformações das sociedades
industriais no último século, também marcadas pelo fortalecimento de grandes empresas privadas e por reivindicações sociais e críticas dirigidas contra o modo de gestão dos negócios adotado por essas.
Segundo Cappellin e Giffoni (2007), esta discussão surge nos Estados Unidos, devendo-se principalmente a pressões políticas e sociais que exigiam das grandes corporações um olhar para os problemas sociais, como a garantia da integração da população negra ao mercado de trabalho e a defesa dos direitos humanos no interior das empresas e das sociedades onde seus produtos estavam sendo comercializados. As autoras sustentam que, no Brasil, o lema da “responsabilidade social” aparece no mesmo período, quando algumas associações empresariais próximas do pensamento religioso progressista introduzem princípios éticos como componentes de sua gestão, passando a promover debates sobre o papel social das empresas.18
Faria e Sauerbronn (2008) defendem que o crescente interesse das empresas por esta temática a partir de meados do século XX está associado à emergência das Ciências Administrativas, gerando discussões sobre a dimensão social das empresas e seu papel na distribuição das riquezas, o que também provoca uma profusão de definições de “Responsabilidade Social Empresarial” (RSE) na literatura especializada. De acordo com estes autores, prevalecem nesse período princípios ligados à filantropia e ao paternalismo, ficando a RSE restrita ao âmbito individual, ou seja, às ações isoladas de alguns dirigentes empresariais. Também Kreitlon (2004) associa a preocupação de alguns empresários com problemas sociais a uma busca de afirmação de sua ética pessoal. Assim, os primeiros textos sobre a temática utilizam a expressão “responsabilidade (ou consciência) social” sem qualificá-la, nesse período, como empresarial.
Somente entre as décadas de 1960 e 1980 começa a se constituir uma ética empresarial desvinculada da noção de filantropia. De fato, devido ao aumento da contestação e das turbulências sociais, as empresas já não podem limitar-se ao cuidado com a rentabilidade, mas necessitam repensar sua relação de interdependência com a sociedade e, portanto, as consequências de suas atividades, desenvolvendo, em alguns casos, estratégias para recuperar sua legitimidade e sua reputação (FARIA; SAUERBRONN, 2008). Com efeito, é nesta
18 Um exemplo é a ACDE – Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas no Brasil (CAPPELLIN;
época que se institucionaliza, nos EUA, como lembra Kreitlon (2004), a primeira escola de pensamento sobre a RSE, conhecida como Ética Empresarial (Business
Ethics). Tal abordagem, de caráter normativo, se apoia no pressuposto de que as
empresas devem estar sujeitas às mesmas regras e deveres morais que os indivíduos, propondo a substituição, no mundo dos negócios, da ideia de responsabilidade pessoal pela noção de responsabilidade corporativa.
Nos anos 1980 consolida-se o fenômeno da RSE, com o ressurgimento das políticas neoliberais (baseadas em ajustes ficais, redução das despesas sociais do Estado e privatizações, entre outros), o desenvolvimento das novas tecnologias de informação, que impulsionam a globalização e a financeirização da economia, e o surgimento de redes corporativas transnacionais. Um dos efeitos da globalização da economia e da afirmação do modelo econômico neoliberal é, de fato, uma minimização da ação do Estado em programas sociais e sua transferência para a sociedade civil. É nesse contexto, de acordo com Araújo (2006), que a iniciativa privada volta a investir em áreas em que o governo faz-se insuficientemente presente, fortalecendo o fenômeno da “responsabilidade social”. No entanto, não se pode pensar em uma evolução linear do fenômeno, uma vez que a minimização do papel do Estado já era verificada na origem do capitalismo.
De acordo com Kreitlon (2004), nesse período emergem as outras duas principais escolas de pensamento voltadas à temática da RSE: Mercado e Sociedade (Business & Society) e Gestão de Questões Sociais (Social Issues
Management). A primeira delas concebe empresas e sociedades como uma rede de
interesses, lutas de poder e acordos explícitos e implícitos, sugerindo uma abordagem contratual das relações estabelecidas entre elas; a segunda apresenta uma abordagem instrumental ou estratégica, segundo a qual os problemas éticos e sociais devem ser enfrentados e se possível antecipados, de forma que a “sensibilidade corporativa” sirva como uma vantagem competitiva.
Segundo Kreitlon (2004), nenhuma das três abordagens aqui apresentadas constitui um campo independente de pesquisas, pois muitas vezes os elementos conceituais empregados por cada uma delas se misturam. Disto deriva, em parte, a dificuldade na definição de um conceito claro e preciso de Responsabilidade Social Empresarial.
Independentemente das abordagens adotadas, explicam Cappellin e Giffoni (2007) que, também no Brasil, o movimento em favor da RSE se amplia a partir dos
anos 1980; por exemplo, a Câmara Americana de Comércio, organização não- governamental sediada em São Paulo, desenvolve o conceito de “cidadania corporativa” e cria o Prêmio Eco (Empresa-Comunidade) que visa incentivar ações sociais em cultura, educação, meio ambiente, participação comunitária e saúde. Já na última década do século XX as empresas brasileiras buscam aumentar sua competitividade no mercado internacional, e a RSE torna-se cada vez mais parte de suas estratégias de legitimidade, o que evidencia, seguindo os fundamentos teóricos de Kreitlon (2004), uma ênfase na abordagem instrumental. Assim, aumentam as doações empresariais para programas sociais e a oferta de serviços gratuitos de alimentação e de assistência social a pessoas excluídas de vínculos formais de emprego, o que desvia as ações sociais para fora dos muros das corporações.
Ao mesmo tempo essas empresas, buscando aumentar suas vantagens competitivas e reduzir seus custos, pressionam o Estado para que normas e direitos trabalhistas deixem de ser regulados pela legislação nacional, passando a ser negociados diretamente com os trabalhadores (CAPPELLIN; GIFFONI, 2007). Com efeito, Faria e Sauerbronn (2008) sustentam que o fortalecimento das redes corporativas transnacionais permite sua influência sobre políticas públicas e sistemas de regulação da produção, passando inclusive a patrocinar a criação de normas e de certificações de “responsabilidade social”. Dessa maneira, contrariamente ao que acontece nos Estados Unidos e posteriormente na União Europeia, a problemática da RSE no Brasil desloca-se do acolhimento a reivindicações do conjunto da sociedade para iniciativas de assistência social que, seguindo uma perspectiva de caráter utilitário, teriam como propósito gerar maiores ganhos para as empresas.
Em consonância com isso, Araújo (2006) caracteriza a RSE como um novo fenômeno mercadológico que visa, em geral, a singularização de uma empresa, a garantia de sua permanência em mercados potenciais e o incremento do consumo. De fato, as empresas, antes orientadas para o produto e em seguida para o mercado e para o cliente, estariam agora orientando-se para o social. Como destacam Vinagre Brasil e Fleuriet (2012), “o relacionamento com a comunidade pode melhorar a margem de segurança, tornando a empresa uma instituição relevante para a sociedade”. Assim, a integração da ética à cultura da empresa e a construção da imagem de empresas “responsáveis e cidadãs” seria uma tentativa de atender às demandas de que elas promovam programas consistentes e de longo
prazo, voltados para o desenvolvimento social. Araújo alerta, no entanto, para a necessidade de diferenciar as obrigações sociais de uma empresa (como a não- degradação do meio ambiente ou a garantia de condições seguras de trabalho), que são por vezes usadas como estratégias de marketing (fazendo da necessidade uma virtude), das ações sociais efetivamente solidárias, ou seja, não exigidas por lei.
No Brasil, uma das organizações que atualmente se propõem a orientar as empresas privadas na gestão de seus negócios de forma “socialmente responsável” é o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Criado em 1998, o instituto desenvolve projetos em parceria com organizações nacionais e internacionais, propondo-se a contribuir, junto às empresas, para a construção de uma sociedade sustentável, respondendo, por um lado, às carências e desigualdades existentes no país, bem como à minimização do Estado no atendimento das demandas sociais, e, por outro, às questões ambientais que passam a integrar a responsabilidade social das empresas. No site do instituto, a RSE é assim conceituada:
Responsabilidade social empresarial é a forma de gestão que se define pela relação ética e transparente da empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona e pelo estabelecimento de metas empresariais que impulsionem o desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para as gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a redução das desigualdades (INSTITUTO ETHOS DE EMPRESAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL, 2011).
É interessante observar que, a partir do final da década de 1990, também no mercado financeiro surgem “Índices de Sustentabilidade Empresarial” (ISE), que funcionam como indicadores de empresas consideradas lucrativas e ao mesmo tempo comprometidas com fatores econômicos, ambientais e sociais no desenvolvimento de suas atividades. Destacam-se, nesse sentido, o Sustainability
Index, lançado em 1999 pela Dow Jones, empresa americana de informações sobre
negócios, e o ISE/Bovespa, lançado em 2005, no Brasil, pela Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, o Instituto Ethos e o Ministério do Meio Ambiente. Tais índices refletem uma tendência, hoje mundial, de os investidores buscarem empresas não apenas rentáveis, mas também consideradas socialmente responsáveis e éticas na gestão de seus negócios.
Nota-se, portanto, como afirma Kreitlon (2004), que, seja no mercado produtivo ou no financeiro, nos ambientes corporativos ou nos organismos internacionais, nos movimentos da sociedade civil ou no campo acadêmico, o debate sobre a “responsabilidade social” faz-se hoje onipresente. De fato, segundo Duclos e Nicourd (2006), nos tempos atuais as instituições precisam cada vez mais convencer os atores de sua utilidade social, mediante um discurso considerado “moderno”.