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3.1 Escolha do objeto e recorte

3.1.1 A revista Veja

A revista objeto de análise é o maior expoente da Editora Abril, da família Civita. Iniciando atividades no final da década de 1940, a editora adotou de imediato uma agressiva política de lançamentos que a fez suplantar, rapidamente, os grandes concorrentes da época: Assis Chateaubriand, Roberto Marinho, Adolfo Bloch e Adolfo Aizen. Em 2007, a Abril publicava mais de cem revistas entre periódicos e edições especiais, tinha mais de 41% da venda de revistas (em bancas e em assinaturas) e quase 55% da verba publicitária dedicada às revistas. Obtendo um contrato de representação das revistas Disney para Argentina e Brasil, a editora lançou, inicialmente, revistas infantis e fotonovelas – o que rendeu resultados financeiros que lhe possibilitaram investir em novos segmentos ainda pouco explorados no país e explorar a venda de anúncios, conquistando o mercado brasileiro (CORRÊA, 2015, p. 207-210).

O lançamento da Veja, em 1968, foi um grande fracasso. Inaugurando uma versão nacional dos semanários de notícias norte-americanos, como a Time e a Newsweek, a revista possuía muitos textos informativos e poucas imagens/ilustrações. A novidade não foi muito bem recebida e as vendas caíram de 700 mil na primeira edição para 150 mil na quarta, até chegarem a marcas menores do que 30 mil (CORRÊA, 2015; HERNANDES, 2004)41. Além disso, três meses depois do seu lançamento, o presidente Costa e Silva editou o AI-5, fechando o Congresso Nacional. Assim, a revista foi censurada, em razão de uma capa sobre tortura.

Com um grande propósito inicial, o novo produto da editora foi bastante planejado e projetado com base em pesquisas de Roberto Civita e Mino Carta (seus primeiros editores) a respeito das “melhores práticas” de redações das principais semanais de informação dos Estados Unidos e da Europa. Além disso, foi montado um curso de jornalismo com o objetivo específico de escolher os melhores candidatos e prepará-los para a redação da nova revista. Também foi

41 Se isso foi um dos motivos que configuraram o seu fracasso inicial, hoje, já consolidada, a revista apresenta um

formato totalmente inverso: muitas imagens e pouco texto. Por exemplo, a edição nº 2.508, de 14 de dezembro de 2016, possui 134 páginas (sem as capas) e 64 delas são somente de propagandas; além disso, quando não ocupam a página inteira, muitos dos anúncios tomam mais de 1/3 das páginas.

montado um departamento especial, o Departamento de Documentação da Abril, a fim de verificar as informações que os jornalistas escreviam em seus textos, checando sua veracidade e acuidade (CORRÊA, 2005, p. 218-220). A missão da revista foi explicitada na carta da primeira edição, assinada por Victor Civita (pai de Roberto Civita):

O Brasil não pode mais ser o velho arquipélago separado pela distância, o espaço geográfico, a ignorância, os preconceitos e os regionalismos: precisa de informação rápida e objetiva a fim de escolher rumos novos. Precisa saber o que está acontecendo nas fronteiras da ciência, da tecnologia e da arte no mundo inteiro. Precisa acompanhar o extraordinário desenvolvimento dos negócios da educação, do esporte, da religião. Precisa, enfim, estar bem informado. E este é o objetivo de Veja (CORRÊA, 2005, p. 219).

Podemos ver que já no seu início a revista possuía uma clara finalidade de “unificar” o país, ao menos como uma intenção jornalística (e empresarial). Apesar do fracasso inicial, a revista se reergueu por volta dos anos iniciais da década de 1970. A Abril montou um departamento dedicado especialmente à busca de assinaturas para a revista, desenvolvendo um sistema logístico e de marketing com o intuito de montar uma carteira de assinantes utilizando as técnicas do marketing direto. Tal iniciativa foi entendida como uma ameaça aos jornaleiros, que passaram a adotar maneiras de boicotar a revista. Foi necessária uma longa negociação de Roberto Civita com os representantes da classe, onde, como resultado, a editora se comprometeu a não vender assinaturas de nenhuma outra publicação da Abril durante dez anos para, em troca, poder vender as assinaturas da Veja (CORRÊA, 2015; HERNANDES, 2004).

A descrição dos anos iniciais já demonstra o grande envolvimento da Abril no novo produto. Com objetivos jornalísticos inovadores, a editora planejou o empreendimento; formou, capacitou e treinou a equipe inicial; criou um controle interno a fim de checar a veracidade dos fatos citados pelos seus jornalistas; criou um departamento específico para operacionalizar um sistema de obtenção de clientes via assinatura, empregando técnicas de logística e de marketing; além de, marcadamente, estar envolvida com outros grupos de interesse desde o seu início, enfrentando os concorrentes, o Estado, e certos grupos dentro do setor editorial. Eis o que compreende a política de lançamentos agressiva citada anteriormente.

Além disso, Veja ainda inovara com o caráter investigativo do seu jornalismo, cuja intensidade retornou com força após o fim do período ditatorial, com um foco bastante voltado a casos de corrupção nos governos brasileiros. Outra inovação foi a criação de um “city magazine” que seria dado semanalmente junto com a edição nacional, compreendendo uma revista sobre a cidade de São Paulo e outra sobre a do Rio de Janeiro (CORRÊA, 2015, p. 222- 223).

Outra marca importante da editora Abril, não especificamente de Veja, foi a ideia de definir o leitor alvo – diferentemente dos jornais, para os quais o leitor era “todo mundo”. Victor Civita queria fazer revistas de relevância nacional, tanto mais “claras” quanto possível ao entendimento do leitor, e não dirigidas a grupos de determinadas regiões: além de maior potencial de venda, daria maior visibilidade aos seus anunciantes (Veja é a revista com o maior número de páginas publicitárias do país). Para tanto, a editora investia na especialização da editoração, buscando as melhores técnicas das grandes revistas internacionais (CORRÊA, 2015, p. 227-228).

O sítio do Grupo Abril na internet demonstra algumas posições do grupo e os seus objetivos atuais, expostos em sua missão, visão, valores e princípios (MISSÃO..., 2017). A missão do grupo é “contribuir para a difusão de informação, cultura e entretenimento, para o progresso da educação, a melhoria da qualidade de vida, o desenvolvimento da livre iniciativa e o fortalecimento das instituições democráticas do país”. Sua visão é “ser a companhia líder em multimídia integrada, atendendo aos segmentos mais rentáveis e de maior crescimento dos mercados de comunicação e educação”. Seus valores compreendem “excelência, integridade, pioneirismo e valorização das pessoas”. E seus princípios seriam “competitividade, foco no cliente, rentabilidade e trabalho em equipe”. Quanto à revista Veja, o grupo lhe atribui a seguinte descrição: “Questionar e parar pra pensar nos ajuda a tomar decisões importantes na vida pessoal, familiar e profissional. VEJA reúne a melhor informação, analisa e discute assuntos relevantes do Brasil e do mundo, para você refletir e formar a própria opinião” (DESCRIÇÃO..., s/d).

No intuito de situar sua atuação, podemos distinguir, nas posições tomadas pelo Grupo Abril, certos aspectos que o aproximam de concepções político-econômicas neoliberais, tais como livre iniciativa, defesa das instituições democráticas, competitividade etc. A respeito da possível identificação de uma postura político-ideológica, podemos citar o trabalho de Caren Santos da Silveira (2003) sobre o discurso da revista Veja nos anos 1980. Consiste em uma análise dos discursos da revista estabelecidos em oposição aos governos do período de transição democrática, entre 1979 e 1988. Como resultado, a relação entre aspectos políticos, sociais e culturais parece ser utilizada, pela revista, para a construção de sentido em relação à ideia de necessidade de liberalização do país. No mesmo sentido, Rodrigues (2013) identifica um ideário liberal no padrão textual da revista, observando as transformações do seu discurso através do tempo, entre 1968 e 2010. A escassez, a ideia de progresso e a centralidade na economia formam, segundo o autor, uma espécie de base comum às abordagens de todos os assuntos presentes no corpus observado.

Se aceitarmos inicialmente a inferência de Silveira e Rodrigues, podemos pensar que há uma coerência entre a postura declarada das organizações Abril e o discurso promovido através da atividade jornalística da revista. É possível perceber também que o grupo parece manter a postura organizacional que possuía no início de suas atividades. Assim, se a linha político-ideológica da revista transpira concepções liberais, podemos questionar como certa ideia de nação pode ser percebida em suas publicações. Em um cenário mundial cada vez mais globalizado, parece compreensível que os protagonistas do capitalismo liberalizante se utilizem cada vez mais de elementos relativos à cultura, história e significado para transacionar globalmente, criando um “clima” local favorável às suas ações42.