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Primeira República e imprensa: “tempos eufóricos”

O segundo período da história da imprensa nacional inicia com a Primeira República (1889-1930), quando, no lastro das ideias progressistas, obtiveram-se muitos avanços tecnológicos e os interesses e conteúdos publicados se tornaram mais diversos. Segundo Maria de Lourdes Eleutério (2015, p. 83), “a imprensa tornava-se grande empresa, otimizada pela conjuntura favorável, que encontrou no periodismo o ensaio ideal para novas relações de mercado no setor”. O sustentáculo dessa grande empresa se erguia no seguinte tripé: evolução técnica, investimento na alfabetização56 e incentivos à aquisição e/ou produção de papel. Foram “aliados”, ainda, o telefone e o telégrafo – possibilitando maior circulação de notícias nos âmbitos nacional e internacional –, e a formação de leitores, propiciada pela alfabetização57. Por outro lado, ela fora marcada pela censura, decretada e mantida pelos governos (militares ou civis), e pelo seu uso a serviço e à propaganda dos governos e dos seus interesses de classe (da elite agrária de São Paulo e Minas Gerais).

As demais propagandas e publicidades veiculadas ampliaram a importância dos meios de comunicação e potencializaram o consumo de toda ordem. Surgiram as primeiras agências de publicidade e os primeiros estudos sobre padrões de consumo, destinados a atender essa nova “tarefa” rentável. O repórter e os letrados passaram a figurar como profissionais destacados. Diante da complexificação do setor, da necessidade de profissionalização e das adversidades impostas pelo novo regime, surgiu, em 1908, a Associação da Imprensa (que mais tarde viria a ser Associação Brasileira de Imprensa). No entanto, somente em 1926 ela só conseguiu se firmar como amparo às classes profissionais, defensora da liberdade de imprensa e da democracia.

Outro aspecto importante é o aparecimento, no Rio de Janeiro, de um novo gênero literário ligado à percepção da cidade em transformação como um triunfo da burguesia, o que ia ao encontro dos interesses da nascente imprensa empresarial, que o publicava e ilustrava com elegância e riqueza gráfica. Enquanto isso, no cenário paulista, a produção era marcada pela revisão da produção cultural e pelos questionamentos acerca da identidade e da autonomia nacionais. Surgia uma imprensa alternativa que discutia os rumos da consciência nacional e que propunha rupturas. Oswald de Andrade foi uma figura de grande atuação na busca e defesa de

56 Embora o censo de 1890 tenha apresentado o maior nível de alfabetização até então, ela ainda alcançava apenas

50% da população total (CARVALHO, 1987, p. 84).

57 É preciso considerar a informação do rodapé anterior a fim de evitarmos uma impressão de grandeza maior do

que pode ter sido. Ainda seria preciso considerar que mesmo que haja uma difusão da venda de impressos, isso não significa, necessariamente, que livros comprados são livros lidos.

uma identidade nacional. Tocada por essas ideias dos intelectuais, a imprensa alternativa passou a abordar temas até então marginalizados pela grande imprensa.

Falava-se do negro, do índio, das relações de subserviência à cultura europeia, com recorrente crítica à visão da consagrada historiografia do país [...]. [...] estavam postos tempos modernos nas páginas impressas de veículos que se renovavam, sinalizando e imprimindo uma nova mentalidade. Esta se expressou não apenas em periódicos consumidos por uma elite letrada, mas se manifestou na rica segmentação que pautou aquele cotidiano, presidido por etnias diversas, novas ideologias, outras práticas culturais. Foram esses impressos, voltados para os mercados emergentes do país, que demandaram o surgimento de títulos alinhados às redimensões da economia nacional e a um jornalismo cada vez mais empresarial, modelador de outra dinâmica da imprensa (ELEUTÉRIO, 2015, p. 100-101).

Essas alterações na conjuntura nacional são identificadas por Prestes Motta como uma “chegada subdesenvolvida da ‘Revolução Industrial’” (MOTTA, 1979, p. 69). Segundo o autor, o mercado interno cresce e aparece uma massa popular urbana. É nesse contexto que surge, paulatinamente, a consciência do atraso nacional e começa a ser posta em cheque a legitimidade do poder vigente. Em razão disso, a partir daí, as categorias desenvolvimento e desenvolvimentismo passam a ser aplicadas nos discursos políticos.

O final da Primeira República foi marcado por uma diversidade de periódicos situacionistas e oposicionistas. E, não raro, as mudanças nas equipes editoriais ocasionavam mudanças drásticas na opinião dos jornais. O movimento oposicionista, a Aliança Liberal (AL), entretanto, ganhou forte apoio da imprensa, o que pode ser indicado como índice do desgaste do regime vigente. Nesse contexto, pode-se destacar o forte apoio que a AL teve dos jornais de Assis Chateaubriand, que viria a ser o dono do maior império de comunicação do país. “Aliás, a defesa apaixonada da participação do capital estrangeiro na economia brasileira e de empresas como a Light foi uma das marcas distintivas dos Diários Associados, que, por sua vez, sempre contaram com generosos auxílios financeiros pelos serviços prestados” (LUCA, 2015, p. 161). Apesar do envolvimento e apoio, Chateaubriand foi um dos muitos que acabaram presos perseguidos pelo cerceamento da liberdade que se instaurou com o governo de Getúlio Vargas. Os momentos iniciais foram bastante instáveis e o governo foi sempre marcado pelas disputas de poder que também envolviam as empresas jornalísticas, sejam elas apoiadoras ou não. Já no Estado Novo, o investimento para difundir uma imagem positiva do governo culminou na subordinação dos meios de comunicação de massa ao executivo. Com o artigo 122 da Constituição de 1937, a imprensa passa a ser considerada um serviço de utilidade pública e é obrigada a publicar comunicados do governo – que passou a fazer uma censura prévia das

publicações e utilizou a isenção nas taxas de importação do papel como meio de coerção. Ainda que houvesse oposição, as medidas do governo foram, de certa maneira, bem sucedidas.

De acordo com Fernando Prestes Motta, o papel da burguesia nacional, em tal período, teria sido o de participar da discussão e encaminhamento das principais questões da política econômica, ajudando a definir um projeto de industrialização do país e certa consciência do esgotamento do modelo anterior. Entretanto, isso não representaria um projeto burguês de nação, visto que não houve uma ideologia destinada a comandar os rumos do Brasil. O período favorável ao surgimento de um ideal nacional burguês teria vindo com o pós-guerra e a crescente industrialização do país. As forças civis e militares com interesses na democracia representativa e na redução do intervencionismo estatal depõem Getúlio Vargas. Havia um clima liberalizante. “Em virtude desse compromisso ideológico e em nome da nação antiditatorial e anti-intervencionista, a política econômica dos anos 46-50 serviu, principalmente, aos interesses mais imediatos da empresa privada, nacional e estrangeira” (MOTTA, 1979, p. 73). Já o segundo governo Vargas, teria sido marcado por uma outra orientação. De acordo com Prestes Motta, a imprensa da época relatava que setores da grande burguesia industrial, classe média e proletariado se associavam na defesa de uma política econômica nacionalista e de desenvolvimento. Eis os indícios do que Luiz Carlos A. Bresser- Pereira (2015) chama de o caráter contraditório, associacionista e conjuntural da burguesia brasileira, que estabelece relações alternantes conforme a orientação política dominante em cada ocasião.

Ana Maria de Abreu Laurenza (2015) chama a atenção para três figuras importantes desse momento, que marcaram época na história brasileira com questões que envolvem imprensa, empresas de mídia e política. Dentre as figuras em destaque, está Assis Chateaubriand. Ele foi fundador da primeira emissora de TV da América Latina, a TV Tupi, e criador do Museu de Arte de São Paulo (MASP). Chatô, como ficou conhecido, utilizava de chantagens para conseguir que as empresas fizessem anúncios publicitários em seus jornais e também recebia dinheiro de políticos para a publicação de matérias favoráveis à sua imagem. Esteve envolvido com a campanha do segundo governo de Vargas, ganhando, em troca, uma vaga no Senado e cargos públicos que poderia usar como moeda (LAURENZA, 2015, p. 183- 185). Também foi nomeado embaixador do Brasil no Reino Unido no governo de Juscelino Kubitschek, de quem era “credor”. E antes de morrer, deixando seus negócios com muitas dívidas fiscais e previdenciárias, em 1968, ainda teria ajudado na candidatura do general Costa e Silva (entre os militares).

A entrada da televisão no Brasil formaria uma indústria de caráter fundamentalmente comercial e nos moldes norte-americanos58, conforme conta o jornalista Paulo Henrique Amorim (2015). Segundo ele, a televisão brasileira surgiu como um desenvolvimento tecnológico do rádio e seguiu o seu modelo comercial de negócios. Teria sido Vargas o responsável inicial. Considerando que o Brasil não teria dinheiro para montar e operar um sistema público ou estatal (como era na Europa à época), o presidente assinou um decreto permitindo a publicidade nas transmissões de rádio brasileiras. Além disso, o contexto econômico global do período era o da supremacia estadunidense pós Primeira Guerra, com um novo padrão de relações comerciais. Como os EUA prezavam constitucionalmente pela liberdade de expressão, o seu modelo de mídia não permitia o controle do tipo estatal ou público. A influência do país no Brasil teria refletido no profissionalismo do rádio como forma de ganhar dinheiro (AMORIM, 2015, p. 25-26).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o governo norte-americano criou um Escritório Interamericano, com a finalidade de, segundo Amorim, consolidar a sua hegemonia e obter apoio da América Latina à guerra. Dirigido por Nelson Rockefeller (neto do fundador da Standard Oil, atual Exxon e Esso, protagonista da exploração de petróleo nos EUA), as obras do escritório podem ser exemplificadas na ascensão de Carmen Miranda, na criação do personagem de quadrinhos Zé Carioca (da Disney), a introdução da Coca-Cola no país e a criação de algumas agências norte-americanas de publicidade. Essas agências teriam desenvolvido o rádio brasileiro através da compra de espaço publicitário59. Outro exemplo seria o da criação do programa Repórter Esso, que inaugurou um novo modelo jornalístico (estadunidense), com notícias compactas, ágeis, em que o mais importante é lançado logo no início da informação60. Entre os vários apresentadores que passaram por ele, muitos passaram para a sua versão televisiva, na TV Tupi de Chateaubriand.

Além de Chateaubriand, Laurenza fala de Samuel Wainer e Carlos Lacerda, ex-colegas de trabalho nos Diários Associados que marcaram o segundo governo de Vargas, em um conflito jornalístico entre situação e oposição, respectivamente. Carlos Lacerda, ameaçando revelar empréstimos não cumpridos de Assis Chateaubriand e Roberto Marinho com o Banco do Brasil, ganhou espaço junto à TV Tupi e à Rádio Globo, onde se empenhou numa campanha

58 Segundo Noam Chomsky, os EUA foram pioneiros nas atividades de relações públicas na década de 1920,

desenvolvendo-se de forma a criar uma subordinação quase absoluta da população ao poder do mundo dos negócios, com o compromisso de controlar a mente da população. Para o linguista e ativista, o mundo dos negócios controla a mídia, dispondo de vários recursos que são utilizados para cultivar valores apropriados, como harmonia e americanismo (CHOMSKY, 2013).

59 AMORIM, 2015, p. 30-31. 60 Ibidem: p. 32.

que pretendia ligar Samuel Wainer ao governo Vargas e a algumas irregularidades nessa relação. “A Tribuna [jornal de Lacerda] em 23 de agosto [de 1954] pediu a renúncia de Vargas, anunciando uma crise militar. Na primeira página da UH [Última Hora, jornal de Wainer], Getúlio respondeu no mesmo dia ‘Só morto sairei do Catete’. Getúlio não chegou a cumprir os compromissos do dia 24 de agosto” (LAURENZA, 2015, p. 199), data em que foi anunciada a morte do presidente e publicada sua Carta Testemunho no jornal UH. Carlos Lacerda virou deputado federal, apoiou o golpe militar em 1964, tentou restabelecer as eleições diretas em articulação com JK e João Goulart entre 1965 e 1968, quando foi preso após o decreto do AI- 5.

Com o que vimos até aqui, podemos apreender que o período entre a Primeira República e a década de 1950 é marcado pela emergência da empresa midiática e pelo aumento das suas articulações com a vida política organizacional. É preciso enfatizar que este é um período marcado por uma importante disputa ideológica, no sentido de questionar e compreender quem somos enquanto brasileiros. E se essa não é uma discussão que nasce da mídia, como veremos no próximo capítulo, é este o contexto de efervescência intelectual acerca da identidade nacional em que ela se solidifica enquanto organização moderna.