4. A JUSTIÇA É UM RECURSO COMUM?
4.1. RIVALIDADE
4.1.1. A rivalidade nas adjudicações
4.1.1.3. A rivalidade como ato
De outra parte, afirmar que a Justiça no Brasil é correntemente rival (está rival) significa dizer que ela, hoje, está congestionada (afirmação empírica). Nesse sentido, como se disse na Introdução, o relatório Justiça em Números de 2019, elaborado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), informa que: o Poder Judiciário encerrou o ano de 2018 com 78,7 milhões de processos em tramitação. Se, contudo, a tendência, desde 2009, era de crescimento do estoque, em 2018 verificou-se um decréscimo da ordem de aproximadamente 1 milhão de processos, decréscimo atribuível, diz o relatório, em grande parte à Justiça do Trabalho.339
O que parece melhor indicar o congestionamento da Justiça sob a perspectiva dos “funcionários” da Justiça, por outro lado, são os índices de produtividade. O relatório informa que, em 2018, cada magistrado, na média: i) teve sob sua gestão 6.775 processos; ii) solucionou 7,5 casos por dia útil, sem descontar férias e recessos; o que dá, no ano, iii) 1.877 processos solucionados.340 O relatório traz os mesmos cálculos por servidor, cada um tendo baixado, na média, 154 processos em 2018, em face da carga de trabalho de 558 casos por servidor.341
339 Imagina-se que, com essa anotação, o relatório queira dar lugar a afirmações sobre a importância da
instituição da sucumbência no processo do trabalho. Se o argumento for esse, sem qualquer apelo à AED, talvez esteja correto. Dependerá de um exame causal adequado. Se, porém, o argumento apelar à AED, caberá saber de que maneira os honorários de sucumbência não são um atentado ao critério de Pareto (se se estiver a utilizar esse critério) e de que maneira os honorários de sucumbência não agravam o problema de agência existente entre advogado e cliente. (CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.78.)
340 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo.
Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.89.
341 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo.
Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.92.
No que concerne ao congestionamento pela óptica das partes, o relatório traz os tempos- médios342 de tramitação dos casos.343 Na fase de conhecimento no primeiro grau, o tempo- médio de tramitação é de a) 3 anos e 4 meses; b) na fase de conhecimento do segundo grau, de 2 anos e 1 mês; e c) na fase de execução no primeiro grau, de 6 anos e 4 meses.
Parece, portanto, possível afirmar que a Justiça no Brasil é não só potencial mas também correntemente rival (está rival). Existem filas de litígios a adjudicar e, em razão disso, o exame dos pleitos dos autores é postergado, de tal sorte que se reduziria, conforme Gico Jr., o valor presente desses pleitos e, dos próprios direitos que dão fundamento a esses pleitos (o “valor real” dos direitos, para Gico Jr., é o valor presente344).
Mas, cabe questionar, o autor de uma ação judicial sempre tem razão? A pergunta não é retórica. Dizer que a existência de filas reduz o valor presente dos direitos implica tomar como premissa que o autor sempre tem razão. E se quem estiver com o (bom) direito for o réu? Nesse caso, a formação das filas é algo bom ou ruim? Esse tipo de pergunta permitirá concluir pela limitação – parcial – do modelo de Gico Jr., que, talvez se possa afirmar, faz uma análise econômica truncada dos litígios.345
De resto, será que é tão óbvio que a formação de filas é um problema econômico? As filas da Justiça impõem custos de oportunidade?346 Ora, quando aguardam o julgamento de suas causas, as partes dos litígios não ficam paradas na frente dos fóruns e tribunais. As partes (os indivíduos) aguardam o julgamento de suas causas enquanto seguem as suas vidas. As filas de litígios, portanto, não implicam filas de indivíduos, que é o que interessa para a análise econômica. Não é descabido dizer que o tempo que as partes dispendem em processos judiciais, quer haja filas quer não, é o mesmo. Ainda que as filas posterguem e.g. a prolação das sentenças, as filas, por si mesmas, não tomam mais tempo das partes do que o tempo que o litígio exigiria
342 O tempo, rememore-se, é a externalidade negativa associada à rivalidade do consumo da Justiça. 343 O relatório faz várias ressalvas metodológicas, como a de que o cálculo das médias é robustamente
influenciado pelos valores extremos, o que pode resultar em distorções. (CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo. Brasília, 2019. Disponível em:
https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.148.)
344 Nas palavras do autor: “[...] in an already overloaded judicial, system, if, on the one hand, increasing
the number of disputes constitutes a legitimate exercise of citizenship, on the other hand, it contributes to court congestion and thus increases the time required to settle any dispute […], which, in turn, reduces the present value of the lawsuit to the right holder […]. In other words, the isolated incentive to litigate through reduction of litigation costs (access to justice), ceteris paribus, induces court congestion which, in turn, reduces the real value of rights.” (GICO JR., Ivo T. The Tragedy of the Judiciary. University Center of Brasilia Working
Paper, 2018, p.37. Disponível em: https://mafiadoc.com/the-tragedy-of-the-
judiciary_5c9509b3097c47ac1f8b456e.html. Acesso em: 17/03/2020.)
345 GICO JR., Ivo T. The Tragedy of the Judiciary. University Center of Brasilia Working Paper,
2018. Disponível em: https://mafiadoc.com/the-tragedy-of-the-judiciary_5c9509b3097c47ac1f8b456e.html. Acesso em: 17/03/2020.
346 Sobre custo de oportunidade como o único custo com o qual se preocupa a análise econômica, veja-
caso a fila não existisse. O tempo que as partes gastam, por exemplo, para participar das audiências é o mesmo. A audiência, com a fila, é postergada no tempo. Mas as partes não têm de ficar paradas numa fila até a data da audiência. Essas e outras questões serão discutidas a seguir.