4. A JUSTIÇA É UM RECURSO COMUM?
4.2. EXCLUSÃO
4.2.1. A (não) exclusão nas adjudicações
4.2.1.2. A (não) exclusão como ato
4.2.1.2.2. Custeio do sistema público de adjudicação
Se a Justiça se regesse pelas leis de mercado (fosse muito excludente), competiria aos interessados pagar inteiramente pelo ingresso na Justiça – pelo uso e fruição dos serviços que ela presta. O preço de ingresso reger-se-ia pela oferta e demanda. No entanto, não é assim que as coisas se passam. O custeio do sistema público de adjudicação, no Brasil, é misto. A Justiça no Brasil é custeada em parte pelos impostos recolhidos de toda a coletividade (os subsídios corretivos ou cruzados, mencionados nas notas de rodapé nºs 458 e 459, acima) e em parte por custas e emolumentos cobrados das partes dos processos (a menção e eles, na CF, está no artigo 98, §2º, que determina a sua aplicação aos custeios dos serviços da Justiça).490
Na prática, é possível dizer que os litígios no Brasil são bastante subsidiados. Em 2018, o Judiciário do Brasil custou à sociedade R$93,7 bilhões. Desse montante, apenas 12 bilhões (20,4%) foram recolhidos diretamente das partes dos litígios (custas, emolumentos e taxas).491 Somadas, portanto, as análises da jurisprudência (seção anterior) e do custeio, não só como potência mas também como ato o serviço de adjudicação prestado pelo Poder Público é não excludente. Se quem ingressa no Judiciário não arca com todos os custos do litígio, está a ingressar num bem cujo custo é subsidiado.
Não se pode desconsiderar, porém, que a competência para o regramento da matéria das custas é concorrente (entre estados e União, conforme o artigo 24, IV, da CF). Em razão disso, afirmações peremptas e generalizantes sobre a (não) exclusão da Justiça no Brasil ou das adjudicações no Brasil são problemáticas. Tenham-se em conta, nesse sentido, as seguintes discrepâncias em matérias de custas iniciais – que, para os efeitos do que segue, são aquelas
490 “O financiamento da prestação jurisdicional poderia, teoricamente, ser feito pelos usuários deste
serviço, mas como os valores cobrados destes usuários são, via de regra, insuficientes para o custeio do Poder Judiciário, acaba-se tendo, de fato, um financiamento misto desta prestação, sendo a maior parte financiada pela totalidade da sociedade [...]. Apesar disso, as custas processuais não deixam de constituir uma importante fonte de recursos para a viabilização dos serviços judiciários.
[...]
“Tanto as custas judiciais, quanto a taxa judiciária têm natureza tributária de taxa, conforme
jurisprudência do Supremo Tribunal Federal [...], visto que são valores devidos ao Estado que surgem de uma prestação específica deste. O que diferencia essas duas taxas não é a natureza da cobrança, mas o tipo de serviço que está sendo financiado por cada uma delas. As custas judiciais, sendo devidas pelo processamento do feito, englobam, portanto, o financiamento do serviço prestado pelos distribuidores, escrivães, secretarias de tribunais, oficiais de justiça, contadores etc. A taxa judiciária, por se turno, é devida em razão da atuação dos serviços dos magistrados e dos membros do Ministério Público. Ainda de acordo com a jurisprudência do STF, as taxas resultam da prestação de serviço público específico e divisível, cuja base de cálculo é o valor da atividade estatal deferida diretamente ao contribuinte [...].” (CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Diagnóstico das
custas processuais praticadas nos tribunais. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/2019/11/relatorio_custas_processuais2019.pdf. Acesso em: 01/04/2020, p.10-11.)
491 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo.
Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.61 e 65.
imputadas sobre os feitos comuns assim denominadas pelos respectivos tribunais de justiça ou as que remuneram o trabalho do escrivão e que devem ser pagas quando do ajuizamento da ação492 –: quanto aos valores mínimos, vão de R$5,32 na Justiça Federal a R$556,94 no Mato Grosso (TJMT); já no que concerne aos valores máximos, variam entre R$372,22, no STJ (ações originárias), e R$113.460,39, em Goiás (TJGO).493 O seguinte gráfico explora a relação entre custas mínimas e máximas por tribunal:
Figura 5 – Valores das custas iniciais e das taxas judiciárias mínimas e máximas
(Fonte: CNJ. Diagnóstico das custas [...]. Brasília, 2019, p.18.)
Relacionar o tema da (não) exclusão da Justiça com o valor das custas judiciais por tribunal (incluídos os superiores quanto às ações originárias) seria um trabalho de difícil realização. Não bastaria apenas relacionar a forma de fixação das custas com o valor da causa. Precisar-se-ia operacionalizar estatisticamente (abstrair de) conceitos como capacidade de pagamento, o que talvez não seja fácil em sociedades desiguais. Nessa linha, calha lembrar que embora os estados legislem concorrentemente sobre custas processuais, a sua legislação, é
492 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Diagnóstico das custas processuais praticadas nos tribunais. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-
content/uploads/2019/11/relatorio_custas_processuais2019.pdf. Acesso em: 01/04/2020, p.14.
493 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Justiça em números 2019: Sumário Executivo.
Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/pesquisas-judiciarias/justica-em-numeros/. Acesso em: 20/11/2019, p.14 e 15.
claro, não se aplica apenas aos litigantes residentes nos respectivos territórios. Todo e qualquer indivíduo – inclusive estrangeiros sem residência no território nacional – pode(m) ajuizar ações perante a justiça dos estados. De resto, ainda que as custas se relacionem de maneira razoável com o valor da causa, isso dirá muito pouco a respeito da sua “razoabilidade”. Pessoas com pouca capacidade de pagamento podem-se ver envolvidas em litígios de altos valores, como os que versem sobre indenizações por ricochete, perda de uma chance (a morte prematura de um parente que, estima-se, seria um atleta promissor, por exemplo).
Em todo caso, a não exclusão das adjudicações da Justiça no Brasil, na prática, parece ser corroborada pelo percentual de casos em que se concede a assistência judiciária gratuita em face do total de casos. Em 2018, por exemplo, em 33,6% dos casos arquivados pelo Judiciário, houve a concessão de assistência judiciária gratuita. A tendência desde 2015, vale notar, é de crescimento:494
Figura 6 – Número de processos arquivados entre 2015 e 2018 em que houve a concessão da
gratuidade da justiça em relação ao total de casos não criminais arquivados
(Fonte: CNJ. Diagnóstico das custas [...]. Brasília, 2019, p.27.)
Nesses dados, entretanto, não estão incluídos os casos: i) que correm perante os juizados especiais, que, em primeiro grau de jurisdição, são gratuitos (artigo 54, parágrafo único, da Lei 9.099/95); e ii) as execuções fiscais, nas quais também não há a cobrança de custas (artigo 39 da Lei 6.830/80). Considerando-se que, do total de casos a correrem perante o Judiciário, 19,6% consistem em processos dos juizados especiais e 11,6%, em execuções fiscais, é possível
494 CNJ – CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Diagnóstico das custas processuais praticadas nos tribunais. Brasília, 2019. Disponível em: https://www.cnj.jus.br/wp-
afirmar que aproximadamente dois terços (66%) dos processos que correm perante a Justiça no Brasil não são custeados pelos litigantes (i.e. são integralmente subsidiados).495