3.5 Os principais sistemas agrícolas da MR 04
3.5.1 A rizicultura
A partir da entrevista com o engenheiro agrônomo César Augusto Costa, observamos que a planta do arroz é entre as espécies comerciais a que mais se adapta a solos com níveis muitos elevados de matéria orgânica ainda em decomposição. À época do avanço da fronteira agrícola (fundamentalmente na década de 1970), financiado pelo POLOCENTRO, eram as lavouras mais adaptadas aos solos do cerrado. Além disso, o cultivo do arroz de terras altas (sequeiro) facilitou a implantação de pastagens artificiais que era o objetivo maior do desmatamento nessas terras. A venda do arroz permitia rápida amortização dos custos de incorporação de novas áreas com baixo valor de custo de produção30.
Essa cultura, tradicionalmente aliada à abertura de novas áreas do cerrado pela capacidade de diminuir o poder de rebrota das espécies nativas e pela homogeneização dos
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Professor mestre da Universidade Católica Dom Bosco e Engenheiro agrônomo com atuação profissional em órgãos públicos do Estado do Mato Grosso do Sul ligados à agricultura e serviços de consultoria particular para proprietários e empresas rurais. Entrevista realizada em 25 de maio de 2004.
solos (LE BOURLEGAT, 2000), teve na MR 04 sua principal área produtora durante toda primeira metade do século XX, estendendo-se pelo quartel seguinte. A localidade onde se situa, atualmente, o município de Terenos foi durante muito tempo a maior produtora estadual, inclusive destacando-se nacionalmente. Contudo, em toda microrregião, verifica-se perda significativa de área e de produção motivada por vários fatores de ordem econômica, cultural e ambiental (Gráfico 14).
Gráfico 14
Dinâmica da produção e da área colhida de arroz na MR 04 do Mato Grosso do Sul: 1980-2000
0 80000 160000 240000 320000 400000 1980 1985 1990 1995 2000 ton. 0 40000 80000 120000 160000 200000 ha Produção (ton.)
Área colhida (ha)
Fonte: Banco de Dados do Estado, BDE/MS, 2000.
Até o início da década de 1980, a região ainda representava quase 40% do total produzido no Mato Grosso do Sul, mas foi perdendo importância a ponto de perfazer em 2000, menos de 8% (Gráfico 15). Vale destacar que não foi apenas a Microrregião 04 que teve sua área colhida sensivelmente diminuída, mas todo Estado de Mato Grosso do Sul. Regionalmente, Sidrolândia responde por mais de 80% da produção.
Gráfico 15
Participação da MR 04 na área colhida (ha) de arroz do Mato Grosso do Sul:1980-2000
0 100000 200000 300000 400000 500000 600000 1980 1985 1990 1995 2000 ha M a to G ros s o do S u l MR 04
Fonte: Banco de Dados do Estado, BDE/MS, 2000.
O sistema agrícola do arroz, na MR 04, não apresenta grandes diferenças. É cultivado por agricultores familiares, tanto proprietário, quanto arrendatário e parceiros (meação, terça). A plantação se dá de duas formas básicas: com uso de semeadeiras puxadas por trator (em áreas maiores e de produtores com maior poder aquisitivo), ou cavalo e, mais comumente, com uso de matracas (em áreas menores). Quanto às condições de preparo do solo para cultivo, vale a mesma situação do milho. Uma variante problemática no cultivo do arroz é a opção preferida pelas áreas de várzeas e fundo de vale devido a maior concentração de umidade. Nesse caso, é comum a retirada da vegetação ciliar para cultivo provocando, por conseguinte, desmoronamento das margens dos cursos fluviais e assoreamento dos rios.
Outro problema ambiental diz respeito ao preparo das sementes. Para evitar que as mesmas sejam retiradas do solo e comidas por pássaros, mistura-se numa porção de veneno antes de semeá-las. O resultado é catastrófico para a fauna silvestre. Muitos pássaros são mortos nas áreas de cultivo. Isso ocorre, também, no cultivo de milho. É preocupante, ainda, o destino dos resíduos químicos utilizados, apesar da legislação ambiental ter se modernizado para coibir a má destinação dos frascos de defensivos utilizados nas lavouras.
Os cuidados com a lavoura são preocupação do grupo familiar. Aí se incluem adultos (homem e mulher) e até mesmo as crianças. Todos trabalham. A mulher, além dos afazeres domésticos ajuda na limpeza de ervas daninhas do arrozal. As crianças, ao chegar da escola, também auxiliam no trabalho. Costumeiramente, ocorre a troca de dias de trabalho com vizinhos, seja no trato do arroz, seja na limpeza da propriedade, ou qualquer outro serviço rural. Pode-se contratar, ainda, trabalhadores temporários em função das especificidades de cada local ou de cada grupo familiar.
Na MR 04 praticamente não se vêem mais as colheitadeiras de arroz, dada as dimensões diminutas das lavouras praticadas. Assim, o processo de colheita é quase ou todo artesanal. O arroz, quando maduro, é cortado com auxílio de um instrumento conhecido com “ferro de cortar arroz” que se assemelha com uma pequena foice. Em seguida, com a palha seca é amontoado e empilhado para que seque naturalmente. Após alguns dias é batido, ou seja, separado da haste com auxílio de batedeiras movidas por uma polia conectada ao motor do trator. Isso pode ser feito manualmente com auxílio de um instrumento formado por duas hastes de madeira amarrada num couro bovino conhecido regionalmente como “cambão”. Na primeira metade do século XX, era comum espalhar o arroz seco em uma lona, com os cachos virados no mesmo sentido e, passar em cima com os pneus de tratores31.
Da mesma forma que o milho, o arroz é guardado, normalmente em tulhas. A diferença é que se guarda ensacado ainda em casca. Quando se precisa para alimentação, leva- se alguma saca para retirar a casca em beneficiadoras de particulares ou de associações de produtores rurais e cooperativas. Muito raramente se observa o beneficiamento na própria propriedade com uso de técnicas artesanais. Os excedentes são vendidos, deixando apenas o suficiente para consumo durante o ano e algumas vezes para sementes a serem utilizadas no
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Informação oral obtida com descendentes das famílias búlgaras na Colônia Velha de Terenos: sr. Lázaro Touloux, em dezembro de 2003.
ano seguinte. No processo de venda, tanto de arroz quanto de milho, é comum os atravessadores que intermediam as negociações do produto.