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CAPÍTULO II: Bases epistêmicas da pesquisa: breve revisão de literatura e

2.2. Conceitos centrais

2.2.2. A romaria: em busca de um conceito

A romaria, bem como as diversas práticas religiosas de deslocamento durante as romarias. Manifestações essas que se efetivam na aproximação e no contato direto dos devotos com os santos de sua devoção. O desejo de estar perto do santo, de acessar à sua morada é um dos elementos mais característicos das práticas peregrinas.

Frozoni (2012) elucida esta questão:

Um dos elementos mais característicos e inerentes às peregrinações é o desejo de estar perto do santo, da sua morada. Para que este encontro aconteça, é preciso se deslocar, colocar-se a caminho. É esta aspiração de estar próximo ao centro sagrado que transforma o ser humano em homo peregrinus, isto é, em homem peregrino (FROZONI, 2012, p.42).

No caso específico da romaria, a característica fundamental está no deslocamento com o objetivo de ir ao encontro do sagrado, simbolizado, principalmente, pelos santos. Assim, diferencia-se, por exemplo, da procissão, cujo fundamento está no deslocamento com o sagrado. Como esclarece Brandão (1998):

Mas os católicos, dramáticos e encenificadores, precisam deslocar o sagrado continuamente e precisam deslocar-se a ele. Precisam tornar dramas em memórias de dramas uma coisa e outra. Eis que temos então na tradição católica: romaria (peregrinação) – deslocar-se em busca do sagrado; procissão – deslocar-se com o sagrado; missa – colocar-se dramaticamente diante do sagrado (BRANDÃO, 1998, p.

87. Grifo meu).

A romaria, assim como outras práticas típicas do catolicismo popular, se caracteriza pela devoção aos santos. A representação simbólica dos santos, alvos de diversos atos devocionais é dada, sobretudo, pelas imagens (ícones).

18 Conceito cunhado por Mircea Eliade, hierofania significa a manifestação do sagrado. Ver O sagrado e o profano: a essência das religiões (ELIADE, 1993).

A devoção se constitui como um ato de dedicar-se a uma divindade um sentimento religioso de fé e gratidão. Azzi (1994), afirma que a devoção aos santos constitui para o fiel uma garantia do auxílio celeste para suas necessidades. “A lealdade ao santo manifesta-se, sobretudo, no exato cumprimento das promessas feitas” (AZZI, 1993 p. 296).

O pagamento das promessas feitas pelos devotos é simbolizado pelos ex-votos entregues aos santos dentro dos santuários ou em qualquer outro ambiente sacralizado.

O ex-voto é a materialização simbólica daquilo que foi alcançado pelo fiel. É a paga.

Para pagar e agradecer pelo milagre ou graça alcançada, os devotos entregam nos santuários maquetes de casas, simbolizando a conquista da casa própria; pernas, braços, mãos de gessos ou madeiras, para simbolizar a cura de alguma enfermidade nessas partes do corpo e outros tantos símbolos (ex-votos). Pereira (2003), se utilizando da expressão cunhada por Pierre Bourdieu, afirma que a devoção pode ser inserida em uma

“economia de trocas simbólicas”.

A concepção de milagre para o devoto do catolicismo popular, incluindo o romeiro, é bem diferente da dos setores intelectualizados do catolicismo oficial e seus seguidores. O milagre, nessa concepção, está associado a algo espetacular, extraordinário, mas que deve ser testado e provado, inclusive cientificamente. Para os devotos do catolicismo popular, o milagre está associado a solução cotidiana, prática. O devoto popular vê vida de forma milagreira.

A autora Sylvana Maria Brandão de Aguiar esclarece esta questão ao afirmar que:

Para as gentes humildes e generosas do Brasil, [...] e do Nordeste, milagre pode ser tão somente a solução de um impasse qualquer, seja este afetivo, financeiro, de dor física. O milagre como solução prática, cotidiana. O ver a vida de maneira simples, milagrosa (AGUIAR, 2002, p. 358).

Todavia, não dá para enquadrar a devoção popular apenas como sendo uma relação de escambo entre os devotos e os santos, pautada na feitura de promessas e seu posterior pagamento a partir da entrega do ex-voto. A devoção é criada a partir do momento em que o devoto assume um voto com o santo. O voto é o símbolo desta relação e ele não pode ser reduzido apenas a uma relação de troca. “Assumir um voto para com o santo traz para o romeiro uma responsabilidade de longa duração, que se renova a cada ano, a cada romaria. É uma relação de amizade, confiança, gratuidade e carinho que dura para a vida inteira” (FROZONI, 2012, p. 59).

Trata-se, portanto, do estabelecimento de um elo profundo, íntimo e durável entre o devoto e os santos, sendo, pois, um dos principais elementos mobilizados das práticas romeiras. É ele que move os romeiros, transformando-os em homo peregrinus, em seres caminhantes. Desta forma, receber a graça ou o milagre é um elemento de fundamental importância nas práticas devocionais populares, inclusive as romeiras, mas não a condição sine qua non para a sua realização.

Destarte, é necessário estabelecer aqui uma diferença entre voto e promessa. A promessa se coaduna mais com esta relação de escambo com o santo já demonstrado

Sendo o comportamento romeiro marcado pelo deslocamento, e cujo fundamento está na peregrinação com o intuito de ir ao encontro do sagrado, pode-se considerar a romaria como todo um processo que se inicia quando os romeiros “pegam a estrada” a caminho do santuário e termina apenas quando esses sujeitos chegam às suas respectivas casas. Isso fica bem claro na fala do romeiro Sr. José Elias da Silva, conhecido como Seu Elias romeiro durante entrevista:

A romaria ela termina quando o romeiro chega em casa de volta.

Que ele vai pra romaria, faz as suas missões, porque...não deixa de ser um missionário, né. Faz todas as suas obrigações como romeiro no Juazeiro e voltando, deixando na sua casa, terminou aquele momento de romaria (SILVA, 24 de março de 2018, para fins diversos como entrega dos ex-votos, pedidos, orações, experiências hierofânicas, e a despedida e o retorno para casa.

Com base nestes pressupostos, podemos chegar a uma concepção de romaria, definindo-a, simplesmente, como uma viagem, coletiva ou individual, de ida a algum centro de devoção com o intuito de ir ao encontro do sagrado, adorá-lo, fazer

promessas, entregar os ex-votos etc. e que se completa com o retorno dos romeiros às suas casas renovados pelas experiências devocionais. Todavia, demonstrarei no tópico seguinte que as peregrinações romeiras transcendem o objetivo de acerto de contas com os santos por algum milagre alcançado, mas a própria peregrinação como algo que tem um significado próprio podendo ser compreendida como um processo ritual performativo. É o que tentarei desenvolver no próximo tópico deste trabalho.